quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Depois da Chuva - 04

“Não se aproxime muito. É escuro aqui dentro.” — Imagine Dragons.

   O quarto das meninas estava infestado de roupas, tanto em cima das camas quanto no chão, a medida que Selena escolhia e enfiava quase tudo na mala. Isabella tentava com esforço acompanhá-la, mas não fazia ideia do quanto Selena estava anciosa para sumir com tudo aquilo.
 O quarto estava vazio. Apenas Selena e Isabella estavam nele, arrumando a mala da garota. Por incrível que pareça, Selena não parecia se lembrar de nada do dia anterior. Não que não se lembrasse, mas aquilo parecia uma lembrança muito distante. Isabella também não tocava no assunto, apesar de estarem atentas que a escola inteira não falava em outra coisa. "A gostosa Selena Gomez finalmente se revelou."
 O dormitório de Selena e as outras era gigantesco, assim como todos os outros. O chão era revestido de madeira e haviam três camas muito grandes em cada canto. A primeira era de Isabella. Era grande e tinha um edredom branco. Na mesinha de cabeceira ao lado, havia uma foto dela com a mãe e a irmãzinha, e, comparada as outras fotos em sua parede atrás, essa era a única foto que ela tinha com a família. As gavetas do criado-mudo estavam abarrotadas de chocolate e doces, mas isso não era novidade pra ninguém. Na parede acima da cama, havia um mural com inúmeras fotografias coladas na parede. A maioria eram com Selena, em várias posições e nos mais admiráveis lugares. Embaixo de cada fotografia, se podia ler: "Minha amiga maluquinha", ou "Minha melhor amiga" em lugares como Suíça, Los Angeles e Índia. As demais fotografias eram com outras pessoas e também dos artistas favoritos de Isabella.
 A outra cama, na frente, era de Selena. Era um exagero de rosa. Sua cama parecia ser uma das maiores e com um edredom rosa claro, com algum detalhes de borboletas ao lado. Havia mesinhas de cabeceira dos dois lados de sua cama, e um armário branco ao lado, que estava infestado de livros nas prateleiras. Em uma mesinha, havia uma fotografia muito grande de seu pai, Jayden Gomez. E na outra, uma foto dos dois em Londres, na frente de um hotel muito chique. As gavetas estavam repletas de maquiagens, e de outras coisas, como acessórios postos em várias caixas e suas bolsas.
 A terceira e última cama, e a que estava mais distante, era igualmente bonita como as outras. Seu edredom era um toque de verde claro, igualmente a parede atrás. Aquela cama parecia ser um pouco melhor, mas parecia mais confortável. Em sua mesinha de cabeceira estava um abajur sofisticado e a cama estava em perfeitas condições, como se ninguém estivesse estado nela por um tempo muito longo. Havia um tapete felpudo a frente desta, muito branco. Não haviam fotos e nem nada na parede atrás, como se a pessoa que estivera ali tivesse ido embora.
 As paredes do quarto eram impressionantes. Havia apenas um papel de parede cobrindo tudo, e eram com o desenho de nuvens. Nuvens em um céu azul, e era muito decorado com pisca-piscas por toda parte, um verdadeiro varal de pisca-pisca. No lado direito do quarto, havia uma pequena escada em caracol que levava para outra parte de cima do quarto, igualmente com pisca-pisca e o papel de parede com nuvens. Os degraus eram brancos, assim como o corrimão. A parte de cima do quarto era pequena e nada comparada com a magnitude da parte de baixo, mas bastava para apenas 3 pessoas. Lá haviam um closet gigantesco, que empilhavam tantas roupas que era capaz de morrer axificiado lá dentro. A maioria eram de Selena, é claro. Haviam também outros armários, mas menores e feitos apenas para guardar malas e etc. Ao lado do closet, na beira do andar de cima, havia um espelho gigantesco na parede, que pegava do chão ao teto, enfeitados ao lado por mais pisca-pisca e sua borda era cor-de-rosa. A sua frente, havia uma mesa de madeira branca com muitos perfumes e maquiagens, junto com uma cadeira de veludo preto. Selena passava a maior parte do dia ali.
 Embaixo da escada, presa á parede, havia uma TV de 60 polegadas, mas quase nunca era usada pelos estudantes, e também servia para o diretor dar avisos sem ter de sair de seu gabinete.
 Todos os dormitórios eram iguais em sua planta, e os alunos agradeciam por poder decorá-los a sua vontade.
 Selena continuava colocando suas roupas delicadamente dentro de sua mala em cima da cama, como se fossem coisas de quebrar. Seu notbook da Apple branco estava aberto e ligado em de cima de sua cama, uma página aberta sobre as ilhas do Caribe.
 Selena parecia pronta pra sair. Usava uma calça jeans preta de cintura alta com uma blusa rosa solta de mangas. Calçava tênis vans vermelhos e seu cabelo solto leve.
 Isabella não parava de encarar a amiga. Selena não parava de sorrir, só de imaginar que veria o pai. Ela agora arrumava a mala mais depressa, pois já estava sabendo que o pai estava ali na escola naquele momento, na sala do diretor. Selena sabia que era sobre ela que eles conversavam, sua travessura do dia anterior, mas não deixou isso abater sua excitação da viagem de férias.
 Isabella também estava pronta pra sair. Usava uma camiseta cinza de mangas e shorts jeans, com seu cabelo ruivo preso em uma presilha atrás da cabeça. Seus olhos azuis pareciam mais fortes naquele momento, sob a luz dos pisca-piscas.
 Isabella pigarreou, se virando para Selena.
 — Você não acha estranho o seu pai ter vindo falar com o diretor e não ter passado aqui pra te ver? — falou, dando de ombros.
 Selena sorriu.
 — Não. — respondeu ela.
 Ela pegou a fotografia do pai em cima de sua mesinha de cabeceira e deu um beijo.
 — Esse é o jeito dele de me dizer que está zangado. Mas eu acho que no avião eu vou levar uns 2 minutinhos pra ele ficar calminho. — as duas riram enquanto Selena se sentava em sua cama bagunçada de roupas.
 De repente a porta se abriu num baque, e Selena e Isabella arregalaram os olhos. Joe e uma garota estavam atracados aos beijos como dois leões ferozes. Ele segurava a cintura da garota com força enquanto apertava sua bunda com a outra mão. A garota era uma loira colossal com olhos muito azuis, e Selena a reconheceu na hora. Ela vestia um vestido roxo curto e soltinho, com uma blusinha de frio branca que estava puxada até os cotovelos. Joe parecia colocar as mãos por baixo do vestido da garota.
 Quando finalmente notaram que não estavam sozinhos, a garota olhou constrangida para Selena e Isabella, que continuavam imóveis e se seguravam para não rir. Joe coçou a cabeça. Não parecia nada envergonhado com tudo aquilo.
 A garota rolou os olhos pelo quarto e juntou as sobrancelhas.
 — Quem fez isso no meu quarto?! — ela arfou, vendo que haviam roupas de Selena espalhadas por toda parte — Deve ter sido você, não é? — ela apontou para Selena, com desprezo.
 — Ai, calma! Não se estressa. — Selena mal parecia ouvi-la, estava ocupada demais com sua mala — Olha, em vez de ficar reclamando, porque você não dá um trato no seu cabelo? Porque, me desculpe, mas essas pontas estão horríveis. — ela soltou uma risada — Não fica zangada.
 A garota olhou para Selena com profundo ódio.
 — Sabe que eu não te suporto? Eu vou agora mesmo pedir que me mudem de quarto!
 E ela saiu, batendo os pés e bufando de raiva, tanto que nem percebeu que Joe continuava parado a porta, apenas observando a cena.
 — Espera aí... — tentou Isabella, mas a garota já tinha ido.
 Selena parecia ter uma expressão de choque.
 — Você viu? Que garota estranha. — ela levantou o cenho.
 — É, Selena, exagerou. — falou Joe, pela primeira vez. Ele cruzou os braços e se aproximou da cama de Selena — Sinceramente, eu acho que não é bom você armar um escândalo depois do que fez ontem.
 Selena deu um sorriso sarcástico ao garoto, e se levantou.
 — Quer saber de uma coisa? Acho bom não esquecer que estou acima do bem e do mal. — ela piscou, ficando de frente pra Joe.
 — É mesmo? — ele deu de ombros, se aproximando mais de Selena. Ou melhor, de seus lábios — Mas se você for expulsa, como é que nós vamos ficar juntos?
 Selena soltou uma gargalhada e se virou para Isabella.
 — Que lindo, não é? — ela apontou para Joe — Sabe qual é o problema, fofinho? Eu não tenho vocação pra babá. Entendeu, bebezinho?
 — Bebê? — ele fez uma expressão sem entender enquanto Isabella ria da cena.
 Antes de Selena falar algo, seu próprio pai entrou no quarto. A garota soltou um gritinho e correu até ele.
 — Papai! — ela o abraçou — Eu pensei que era o William que viria!
 Jayden olhou para os outros no quarto.
 — Podem nos deixar a sós, por favor? — pediu ele, em tom seco.
 Joe rapidamente disse "É claro, com licença" e se retirou do quarto, lançando um último olhar sedutor para Selena. Isabella largou as roupas de Selena em um canto e deu um abraço em Jayden antes de sair.
 — Pai, que bom que você veio! — Selena estava vibrando de felicidade — O que aconteceu?
 — Aconteceu uma coisa muito grave, filha.
 O sorriso de Selena murchou por alguns segundos, tentando assimilar a situação.
 — Ai, que cara séria é essa? — falou ela, pensando que era uma bobagem — Porque você não me ajuda a arrumar a minha mala? — ela foi até a cama novamente, sorrindo — E na viajem você me conta tudo com calma, vamos ter muito tempo...
 — Não vai ter mais viajem, Selena!
 Selena parou abruptamente, piscando os olhos.
 — Esqueça as férias. — Jayden suspirou.
 Selena continuava chocada. Era como se o pai tivesse dito que iria cancelar seus cartões de crédito pra sempre, mas muito pior do que isso.
 — Como assim? — a voz da garota falhou.
 Jayden olhou para a filha com certa pena, mas logo essa expressão passou. Ele era bom quando se tratava de ser duro com Selena na hora certa, não importava a cara de choro que a garota fizesse.
 — É o castigo pelo que você fez. — explicou Jayden.
 Selena torceu os dedos, ainda encarando o pai. Ela não viu nenhuma compaixão ou pena, e sua desconfiança de que ele nunca quisera passar o tempo dele com ela só crescia. Ela sabia que havia feito uma burrada na noite anterior, mas acreditava que o pai havia pedido aquilo, por não cumprir sua promessa.
 Seus olhos começaram a ficar marejados. Ela simplesmente não sabia o que dizer.
 — Mas... — ela balançava a cabeça — Pai, mas... Eu nunca vejo você, pai. — ela se aproximou dele — Nem nos fins de semana você está comigo. — ela soluçou — Pai, porque não amarra um lacinho em mim e me dá de presente?
 Jayden suspirou. Ele já previa a reação de Selena antes mesmo de pronunciar as palavras.
 — Não. — ele balançou a cabeça negativamente — Faço isso pro seu bem. Você tem que aprender a respeitar as normas.
 Uma lágrima rolou de seu rosto. Ficar na escola durante as férias? A viajem tão esperada as ilhas do Caribe não aconteceriam mais? Era isso?
 — Se não me levar... — sua voz estava completamente embargada — Eu não vou te perdoar nunca. — ela trincou os dentes.
 Jayden baixou os olhos, como se a conversa já tivesse acabado pra ele.
 — Eu sinto muito. — ele sussurrou — É uma lição que eu tenho que te dar, ainda que me doa. O que você fez foi demais, Selena. Fez um papel ridículo no colégio, deixou o diretor com vergonha, e...
 — Ok, ok, eu sei! Isso importa muito. — ela enxugou o rosto com as costas da mão — Mas eu fiquei te esperando, pai. Eu preparei uma coreografia pra você. Eu estava esperando você chegar pra me ver e você não chegou. — ela bufou, agora chorando alto — Mas você se importa mais com o ridículo, não é? Se importa mais com o ridículo do que com os sentimentos da sua filha! — ela aumentou o tom de voz.
 Jayden permanecia quieto. Não sabia o que dizer, mas o que mais diria? Pra ele, o assunto já estava encerrado.
 — Você sabe o que eu senti? — continuou Selena — Eu te esperei horas, pai, e você nem apareceu!
 Selena agora sentia raiva. Ela sabia exatamente que aquela não era a primeira vez, ela já até perdera as contas de quantas vezes seu pai já havia lhe dado esse tipo de furo. A garota enxugou o rosto mais uma vez e saiu do quarto o mais rápido possível.

 Demi saiu do táxi na Brentwood, perto da Getty Center, já que ela e a mãe ainda estavam em Los Angeles. Ela pagou algumas notas para o motorista, que se mandou rapidamente. Demi inspirou e colocou seus óculos escuros, se sentando em um banco verde de mármore em uma das calçadas. Demi vestia uma blusa azul-marinho sem mangas com um colete azul-claro preso, com uma calça jeans clara e sapatilhas.
 Ela não parecia ser uma turista naquela região da cidade, parecia mais estar esperando uma pessoa.
 Demi verificava o celular constantemente, e também olhava para os lados como se estivesse sendo observada. Quem olhasse, achava que estava fugindo de algo.
 De repente, no final da rua estreita, um carro apareceu. Era um carro incrível, totalmente do ano e com certeza chamava a atenção pra quem o visse. Parecia um dos carros caros das propagandas da TV, mas Demi não pensou nisso quando ele estacionou bem a sua frente.
 A porta de trás abriu e uma figura apareceu. Uma figura de barba rala e cabelos levemente cacheados, posto num terno de grife. O pai de Demi.
 Ao vê-lo, Demi se levantou entediada.
 — Queria falar comigo? — disse ele, se aproximando da menina — Bem, eu estou aqui.
 Demi não sabia como cada palavra que saía da boca daquele homem pudesse irritá-la tanto, então não fez esforço algum para parecer gentil.
 — Escuta aqui...
 — Por favor, filha. — ele suspirou, se arrependendo de ter pensado por um segundo que Demi o trataria bem — Não faz assim. Eu sou o seu pai.
 — Ah, é? Não me diga. — ela deu uma risada irônica — Já tinha esquecido, eu não vejo você.
 — Minha filha, por favor...
 — Me chame de Demi, os estranhos me chamam assim! — ela bufou, não vendo a hora de se mandar daquele lugar — E se quer que eu vire freira, deixa eu te dizer que...
 O homem olhou para Demi confuso.
 — Não, não. — ele balançou a cabeça — É um internato, não é um convento.
 — Pra mim dá na mesma, ok? Esquece! Não vou aceitar.
 — Olha, você é muito nova pra entender, mas quando for adulta vai entender e me agradecer. — ele deu um sorriso fraco.
 Demi revirou os olhos. Não chegariam a lugar algum com aquela conversa. Aquele sujeito não iria se opôr tão fácil, e se ele desistisse, ela teria que ir pra Europa, custe o que custar, com aquele mesmo sujeito. Ela não podia acreditar no que aquilo estava se transformando.
 Demi estava tão atônita que não havia percebido uma pequena confusão com os policiais bem na frente do carro do pai. O motorista, um homem jovem bonitão e musculoso de cabelos negros, discutia com dois policiais a sua frente. Um deles era alto e magro, com cabelos claros e olhos azuis. O outro era moreno, com a pele escura e cabelos black-power. Ambos discutiam com o motorista bonitão que parecia ser cego para não enxergar a placa de "não estacione" bem em frente a calçada.
 Seu pai não parecia estar percebendo nada daquilo, mas Demi teve uma repentina ideia. Seria loucura, é claro. E por isso mesmo ela iria colocar em prática.
 — Tem razão. — ela disse repentinamente, se virando para o pai, em um tom doce e meigo — Pai... — ela o abraçou forte pelo pescoço, enterrando o rosto em seu peito — Senti muito a sua falta, pai!
 O homem não sabia o que fazer, mas não podia esconder que estava feliz. Abraçou Demi imediatamente, com um sorriso no rosto.
 — Eu também, minha filha. — ele sorriu, acariciando os cabelos de Demi.
 — Me abraça forte. — Demi pareceu esganar o homem, que pareceu não sentir nada, tamanha era a felicidade — Me dá um beijo. — ela choramingou.
 — Claro! — ele sorriu, dando um beijo em sua testa — Eu te amo, meu amor!
 E de repente, Demi fez algo inacreditável.
 — Ai, me solta! — ela berrou, empurrando o homem com tudo pra longe com um grande soco.
 Seu pai a olhou espantado.
 — Seu velho, safado, imundo! Seu estúpido! ME SOLTA, ME SOLTA!
 Ela berrava, e o homem não sabia o que fazer. Como previsto em seu plano, os policiais rapidamente apareceram a seu lado, deixando o motorista do senhor Lovato muito aliviado por não receber uma multa.
 — O que está havendo aqui? — perguntou o policial de olhos azuis. Ele olhava de Demi para o pai, com uma expressão confusa.
 — Nada, eu não fiz... — tentava dizer o senhor Lovato.
 — Esse velho queria abusar de mim! Seu estúpido! — Demi gritou, apontando para o pai, a raiva espumando dentro de si.
 Um dos policiais, o mais escuro, por um momento olhou espantado para o homem e depois para Demi. Pela sua expressão, até ele não sabia o que fazer nem dizer naquele momento. Demi estava histérica, nada parecia muito nexo.
 — Ér... Vamos, senhor. — disse o policial, pegando em um braço do senhor Lovato.
 — Esperem, eu posso explicar! Não é nada disso, ela é minha filha! — ele falou alto, ainda chocado pela atitude de Demi, enquanto ia sendo arrastado para uma viatura na esquina — Demi, explica pra eles... DEMI!
 Só que Demi não estava mais lá para escutar nada. A garota já havia entrado no primeiro táxi que passara pela rua, e estava gargalhando. Sabia que seu pai não chegaria nem perto da delegacia, ele tinha os melhores advogados do mundo, mas além disso ele tinha dinheiro. Mesmo assim, a ideia da tremenda diversão não saía da cabeça da garota.

 A Academia Yancy estava cheia naquele momento. Todos os alunos que sairiam de férias com os pais começavam a se retirar da escola naquele momento, o que era uma multidão. Vários carros esperavam nos portões da instituição naquele momento, vários pais esperando os filhos com malas e sorrisos no rosto.
 A secretária, a loira dos óculos enormes, andava pela escola na multidão com uma mulher a seu lado. Hoje ela vestia calças jeans e uma blusa de mangas compridas, as quais ela havia enrolado até os cotovelos. Estava com os cabelos presos em um rabo-de-cavalo e seus olhos pareciam mil vezes maiores daquele jeito.
 A mulher a seu lado era alta e magra, com cabelos pretos cheios e olhos azuis. Ela era linda, e traços em seu rosto mostravam que ela se aproximava da velhice. Mesmo assim, a mulher vestia um vestido preto de alcinhas com a parte inferior florida, com sapatilhas pretas. Parecia bem humilde, a julgar que ficava impressionada a cada coisa que a secretária lhe apontava.
 As duas andavam pela escola vagamente, a secretária parecia muito bem estar apresentado a escola para a mulher, que como disse, ficava impressionada a cada detalhe.
 — E este corredor vai dar numa área dos dormitórios. — ela apontou para um corredor largo e estreito — É claro, as mulheres e os homens estão bem separados, como deve ser. — ela deu um sorriso simpático — Na Academia Yancy temos três objetivos fundamentais: disciplina, excelência acadêmica e respeito.
 Agora as duas se aproximavam do corredor central. Era uma área bastante larga. As paredes eram revestidas de pedra rústica. No meio do corredor havia uma estrutura de mármore negro colada ao chão, como um retângulo aberto. Vários alunos se sentavam ali nos intervalos das aulas, sua espessura era do tamanho de uma pessoa, assim tinham uns que até se deitavam no mármore gelado.
 Para todo lado que se olhava, viam-se corredores para as diversas direções. Para as salas de aula, os dormitórios ou para sair da escola. Haviam banquinhos de veludo vermelho presos ás paredes em toda parte, e as janelas de vidro eram gigantescas, o que dava para ver o campus lá fora. No lado direito, havia uma escada enorme e branca, que levava para outras salas de aula e dormitórios no segundo andar. Havia escadas espirais dos dois lados, cada uma levando para mais salas e dormitórios diferentes. Colados ás paredes tinham os armários, todos em um tom forte de azul.
 A mulher ao lado da secretária ficava impressionada com tudo, parecia uma criança entrando na Disneylândia pela primeira vez.
 — Escute, eu quero perguntar uma coisa. — a mulher falou pela primeira vez — O que me interessa saber sobre a bolsa?
 A secretária abriu um sorriso alegre, como se tivesse prazer ao falar daquele assunto.
 — Ah sim. A cada ano, um grupo de jovens de poucos recursos tem a oportunidade de entrar pro nosso colégio. Eles fazem uma prova muito rigorosa, porque temos de ter certeza de que tem o nível intelectual adequado. — ela disse, ajeitando os óculos enormes.
 — Na realidade, eu não tenho...
 — Emma! — gritou uma voz feminina.
 A secretária rapidamente se virou ao ouvir seu nome. Uma garota loira descia as escadas em passos pesados, usando um vestido roxo, com a expressão de tremenda. Era a garota do quarto de Selena.
 — Eu quero que você me mude de quarto! — ela falou alto ao chegar perto de Emma com a mulher — Eu não suporto a Selena! Quem ela pensa que é, aquela vadiazinha? A rainha da Inglaterra?
 Emma colocou as mãos na testa, entediada. A garota ainda a olhava com raiva, esperando uma resposta. Emma olhou de soslaio para a mulher a seu lado, que permanecia calada, e ficou completamente constrangida.
 — Tudo bem, minha querida, arrume suas coisas, depois conversamos. — ela deu um sorriso forçado para a garota, como se a mandasse embora só com a força dos olhos.
 — Acho isso o cúmulo, sabia?! — ela gritou pela última vez antes de se retirar.
 Emma deu um riso sem graça ao se voltar para a mulher.
 — Aqui os alunos se sentem como se estivessem na casa deles. — ela deu um sorriso amarelado.
 — Tudo bem. — a mulher riu.
 — Além disso, nas férias oferecemos aos alunos o Club de Vacaciones. — ela sorriu.
 A mulher a olhou confusa.
 — O que é isso?
 — É o nosso clube de férias. É um lugar onde os alunos descansam e vão se conhecendo uns aos outros antes de começarem o ano letivo. — a mulher assentiu — Eu me refiro aos alunos novos, como a sua filha.
 A mulher hesitou, como se estivesse incomodada.
 — Bom... Ela não é minha filha. — ela deu um sorriso fraco — É minha sobrinha, mas eu a amo como se fosse minha filha realmente.
 — Sim, claro. — Emma assentiu — Bom, venha por aqui.
 As duas seguiram por mais um corredor estreito, quando pararam no meio do caminho.
 As duas deram de cara com o deputado Collins e sua esposa, que como sempre, estavam cercados por no mínimo dois seguranças. Emma sentiu náuseas. O senhor Collins estava como sempre: barrigudo e carrancudo, com seu inseparável charuto. Sua mulher, uma jovem alta e escultural loira de cabelos encaracolados e olhos azuis com metade de sua idade, estava usando um vestido caro preto de setim, com seu inferior florido de verde. Seu salto era enorme.
 Ela também fumava um cigarro, o que fez Emma se controlar para não mandá-los pro inferno.
 — Com licença, Emma. — disse a mulher, dando um sorriso animado que não foi correspondido pela secretária — Onde podemos encontrar o Joezinho?
 Ah, claro, estavam procurando o filho. Não pisavam no colégio para fazer outra coisa, afinal.
 — Acredito que esteja no quarto dele terminando de arrumar as coisas. — respondeu Emma educadamente.
 — Que sapatos lindos! — exclamou a mulher com Emma, falando pela primeira vez. Ela apontou para os sapatos da primeira-dama, como se estivesse se segurando desde que a vira.
 A mulher deu um sorriso anormalmente largo.
 — Muito obrigada! — ela piscou para a mulher, com certeza mostrando bem sua capacidade e condição de comprar sapatos caros.
 Emma bufou.
 — Podem ir ao quarto, por favor! — ela interrompeu o começo de um diálogo chato e melancólico sobre os sapatos italianos da esposa de Collins e apontou para a escada da esquerda — Já sabem onde é.
 — Com licença. — disse o senhor Collins, puxando a mão da esposa e desaparecendo escada acima.
 A mulher ainda parecia atônita com os sapatos da primeira-dama, e os seguiu com os olhos até desaparecerem na escada.
 — Aquele não é Michael Collins, o deputado? — ela pareceu "acordar" de repente.
 Emma revirou os olhos.
 — Ér... Venha por aqui, por favor. — ela puxou o braço da cliente, que ainda virava o pescoço para poder olhar melhor o deputado.
 — Como é lindo, não é? — ela murmurava enquanto seguia Emma pelos corredores.

 O deputado e sua esposa se aproximavam do quarto de Joe, mas o local estava completamente vazio. Naquele mesmo momento, Joe atropelava algumas pessoas no caminho enquanto praticamente corria para a saída da escola. Sabia que iria ter que viajar para não sei onde com o pai para mais uma campanha eleitoral, e ele de repente ficara apavorado com a ideia de perder suas férias com coisas tão fúteis. Isso não entrava em sua cabeça.
 Ao chegar no estacionamento, Jacob já estava lá, encostado na porta do táxi que os esperava. Joe ajeitou a mochila nas costas e correu até o amigo.
 — Ninguém me viu. — ele disse, arfando.
 Jacob sorriu.
 — Muito bem, vamos nessa. — ele abriu a porta do carro, entrando no táxi pela porta do carona. Joe rapidamente entrou no banco de trás e o motorista cantou pneu no estacionamento.

 O dormitório de Joe estava intacto, como se ninguém nunca tivesse pisado nele. O dormitório tinha a mesma planta que todos os quartos do colégio, com a mesma escada no fundo que leva aos closets e a TV enorme. A diferença era apenas a decoração. As três camas tinham o mesmo edredom azul-marinho, e uma mesinha-de-cabeceira ao lado de cada cama. As paredes eram pintadas de preto, com vários postêrs de carros e mulheres colado e o teto era branco, pendendo uma luminária gigantesca. A primeira da frente sem dúvida era a de Joe. Em sua mesa, havia apenas um abajur. Na parede acima da cama havia apenas um retrato de Joe segurando um violão nas costas, e em outro havia ele e Jacob segurando pranchas de surf na praia de Malibu. Nada de retratos de família.
 A outra cama, na frente da primeira, era a de Jacob. Em sua mesinha estava um notbook fechado e uma luminária pequena. Em uma das gavetas havia uma revista da Playboy, mas isso não era novidade pra ninguém. Ao contrário de Joe, no mural de fotos de Jacob haviam várias. Fotos com a família e muitas com Joe. Retratos de shows e eventos musicais ao qual ele havia ido, shows como de Beyoncé e Maroon 5 enfeitavam a parede, vários com sorrisos do garoto estampado.
 A terceira cama, a mais distante, estava vazia. Não havia nada na mesa e nada nas paredes. Se alguém ocupava aquele lugar, aparentemente não ocupava mais.
 No armário gigante perto da cama de Joe, havia uma fila de CDs e um iPod jogado. Havia um aparelho de som um pouco velho, e uma das extremidades do armário havia um papel colado escrito em letras exasperadas: vote em Collins!
 Michael ficou apreensivo ao ver o quarto vazio. Podia ver a mala de Joe em cima da cama do garoto, mas onde ele estava?
 Antes de ter tempo para se irritar, um garoto chegou até ele. Ele tinha os cabelos muito loiros espichados e olhos castanhos. Era magrelo e desengonçado. Parecia apavorado de estar chegando perto do deputado.
 — Senhor Collins? — ele murmurou.
 Michael olhou pro garoto.
 — Sim?
 — Aqui tem um recado. — o garoto estendeu um fino pedaço de papel — O Joe que deixou.
 Michael pegou o papel confuso, como se fosse uma bomba.
 — O Joe que deixou? — ele disse, ainda confuso. O garoto apenas assentiu, e foi se afastando — Que estranho.
 Michael deu mais uma tragada no charuto antes de ler o bilhete. Ao terminar, sua expressão era de raiva e completa decepção. Sua mulher olhava o marido, esperando uma resposta.
 — É o cúmulo. — ele bufou, apertando o papel com tanta força que quase o amassou.
 — O que? O que ele escreveu? — perguntou ela, ansiosa.
 Ele a encarou, como se quisesse matá-la só por fazer ele ter que ler o maldito recado de novo. Por fim, ele recitou:
 — "Pai, mãe... Eu fui embora. Não importa pra onde. Não se preocupem, eu sei me virar sozinho. Depois eu ligo." — Michael bufou, amassando o papel.
 Sua esposa estava de olhos arregalados.
 — Ele fugiu! — disse ela, com a voz falha — Ah não...
 — Calma, não se preocupe. — ele tentou acalmá-la, olhando para o bilhete amassado em suas mãos. Pensava em todas as maneiras possíveis de matar Joe, porque ele com certeza estava muito encrencado.

 Em algumas horas, Joe e Jacob estavam na Califórnia. Pra ser exato, estavam em Salinas, uma cidadezinha do estado meio parada e monótona. Eles não queriam saber, só queriam passar um tempo fora da Yancy e daqueles rostos que estavam enjoados de ter que encarar. Joe sabia que estava encrencado até o pescoço, mas naquele momento aquilo era o de menos.
 Finalmente, haviam chegado a seu destino. A casa de Jacob já estava sem graça pra Joe, de tanto que estivera ali, mas estava vazia, o que tornava tudo melhor.  (casa)
 Eles entraram e se acomodaram. A casa estava vazia, exceto pela empregada, que delas eles não poderiam fugir.  Ela era uma mulher jovem com cabelos lisos até os ombros cor de caramelo e uma pele bronzeada. Na opinião dos garotos, sim, era bastante gata. Mas não se atreveriam.
 A tarde se arrastava devagar. Joe e Jacob já haviam curtido na piscina, bebido tudo que tinham direito, e não podiam deixar de fora a diversão principal. Joe e Jacob eram amigos desde sempre, por isso não tinham segredos. Joe pegou a maconha da mochila, uma coisa que ele usava de vez em quando, já que passava a maior parte do tempo em uma prisão. Ele e Jacob "usavam" a pouco tempo, aquilo os ajudava a relaxar, ao que diziam.
 Os garotos estavam sentados nas cadeiras da varanda principal da casa quando a empregada foi até eles, com o telefone na mão.
 — Ér... É do colégio. — ela colocou o telefone em cima da mesa — Com licença.
 A empregada se retirou e o coração de Jacob pareceu virar chumbo. Ele e Joe se entreolharam, parecendo pensar a mesma coisa. Eles estavam na Califórnia, como os haviam descobrido?
 Joe rapidamente pegou o telefone, colocando as mãos no lugar onde podiam os ouvir.
 — Ah, não, cara. Agora vai dar merda! — Jacob sussurrou, começando a ficar nervoso.
 — Atende você. — falou Joe, estendendo o telefone para Jacob.
 — Como assim, cara? Não!
 — Jacob, por favor! — Joe trincou os dentes. Jacob continuava relutando — Jacob, por favor, é o meu pai, ele quer saber onde eu estou!
 Jacob olhou do telefone para Joe, e em seguida pegou o objeto da mão do garoto, relutante.
 — Cara, isso vai dar a maior merda da história. — ele pegou um guardanapo das mesas na beira da piscina e abafou a entrada de som. Em seguida, ele deu umas tossidas e falou em uma voz grossa e diferente: — Alô, boa tarde... É, sim, ele não se encontra... Não, ele não está aqui... Jacob chegou aqui a umas 4 horas... Sim, com muito prazer... Boa tarde. — Jacob desligou o telefone, mas não o tirou da orelha — Sim... Joe Collins está aqui, quer que eu passe pra ele?
 Joe escancarou a boca e deu um empurrão em Jacob, completamente apavorado.
 — O que está fazendo?! — ele "gritou" em sussurros.
 Jacob retirou o telefone do ouvido e explodiu em risadas. Joe entendeu a brincadeira e o olhou sério, com a mão no peito, dizendo o quanto Jacob fora sem graça e assustador com a brincadeira.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Depois da Chuva - 03

“Eu ligo. Ela atende. Eu quase choro de gratidão do meu lado da linha. Ela gentilmente sugere que eu morra.” — Gabito Nunes.

  Sophia parecia ainda mais aturdida com Demi. Achava que já estava acostumada com esse comportamento rebelde da filha, mas percebia que ela só se surpreendia.
Mesmo sem querer, todos do estúdio já acompanhavam a discussão das duas. Demi, vestida em um roupão rosa, enquanto o rosto de Sophia ficava cada vez mais vermelho.
— Vai botar uma roupa. — Sophia mandou mais uma vez, dessa vez trincando os dentes.
Demi agiu como se não tivesse escutado.
— Eu já disse que não vou, mãe. — ela jogou o roupão no chão e cruzou os braços, decidida a não obedecer.
Sophia colocou as mãos na cabeça. Seu rosto transparecia o próprio desespero.
— Você quer acabar com a minha carreira. — ela arfou — Com a minha vida inteira, filha. — ela olhou para o fotógrafo e imediatamente correu até ele — Fofo, por favor, diz pra ela que não pode sair assim como uma ordinária! Isso vai ser um escândalo! — ela deu bastante destaque á palavra "escândalo".
— Ah, fala sério. — Demi resmungou.
Para surpresa de Sophia, o fotógrafo sorriu.
— Vai ser um escândalo, o que nos daria muito dinheiro! — os olhos dele pareceram ganhar um brilho diferente, muito ambicioso — Eu acho que devemos fazer as fotos.
Sophia ficou boquiaberta, completamente pasma. Demi murmurou um "Está vendo, mãe?" e riu da situação. Sophia olhou em volta pela primeira vez e viu que todos sorriam, provavelmente concordando com o fotógrafo. Estiveram se divertindo com a situação o tempo todo.
— Como você quer que eu pose? — disse Demi após se sentar na poltrona onde sua mãe estava, fazendo várias poses mal feitas e biquinhos para o fotógrafo.
— Eu quero você bem natural, Demi. — ele sorriu, parecendo achar aquilo o máximo — Vamos fazer uma coisa com as duas, vão ficar lindas!
Ele começava a ajeitar a câmera em seu pescoço enquanto Sophia continuava imóvel.
— Lindas e sorrindo pra câmera. — ele disse mais uma vez.
Depois de algum tempo, Sophia finalmente se moveu e se livrou do choque de ser contrariada. Ela se sentou na poltrona branca com Demi atrás do cenário e, aos poucos, as duas se soltaram e fizeram fotos realmente magnificas. Apesar de serem bastante diferentes, não se podia negar algumas semelhanças entre as duas. O mesmo nariz, o mesmo sorriso contagiante, e as duas eram extremamente lindas, apesar de Demi ser um pouco "da pesada".
A tarde que se seguiu arrancou muitas risadas das duas, que souberam conviver bem sem mais nenhuma briga. E, de acordo com todos do estúdio, as fotos estavam belíssimas. Com o tempo, Sophia havia esquecido completamente de como Demi estava vestida.

  O clima estava meio tenso para Nick após ele saber que sua casa finalmente fora vendida. Apesar de saber que se mudariam para um apartamento pequeno e que suas dívidas seriam pagas, ele já perdera as contas de quantas vezes havia andado sobre aqueles cômodos nas horas que se seguiram, tentando absorver cada detalhe que ela lhe dava, cada lembrança de tudo que havia passado ali. Não seria fácil esquecer, não estava sendo fácil deixar tudo.
Já era quase noite quando Nick estava na garagem, sentado em cima da moto de seu pai, que agora era sua. Era uma moto belíssima, não era de última geração, mas tinha uma beleza incrível. Ele e o pai a haviam consertado juntos, para que fosse de Nick no futuro. Isso já faz tempo, mas a memória ainda continuava viva.
Ele examinava a corrente de prata que havia na moto. Não era bem uma corrente, na verdade era um cordão que era de seu pai, que agora estava no chaveiro. O cordão era de prata e havia um pingente nele, como uma esfera prateada com algumas linhas que passavam por ela. Era raro os dias que Nick andava sem ela no pescoço.
Absorto demais em seus pensamentos, Nick não percebeu a chegada de sua mãe a seu lado.
— Lembra muito do seu pai, não é? — falou ela.
Nick não se assustou e nem se mexeu ao ouvir sua mãe. Parecia hipnotizado olhando a correntinha.
— Vou vender a moto. — disse ele finalmente.
A sra. Jonas cruzou as sobrancelhas, como se Nick tivesse falado outro idioma.
— Não, meu filho, você não precisa vender a moto. Com o que recebi pela casa, temos dinheiro suficiente pra pagar as coisas aos poucos. — sua voz não era convincente, mas foi bem objetiva.
Nick bufou, e se virou para olhar a mãe pela primeira vez.
Nick tinha a expressão cansada, como se estivesse naquela garagem o tempo todo sem comer.
— Eu vou estudar em Nova York, mãe. — disse ele, em tom completamente firme.
A mulher revirou os olhos, como se já tivesse escutado aquilo mil vezes.
— Você insiste nisso. — ela suspirou — Nick, agora eu não posso pagar uma universidade, mas também não vou poder se você for embora!
— Mãe, com o dinheiro que eu receber pela moto, posso conseguir uma bolsa. — seus olhos brilhavam, parecia que ele pensava em tudo imediatamente, como se tivesse pensado naquilo a tarde toda.
A sra. Jonas bufou com certa impaciência.
— Meu filho, entenda, mesmo se você vender a moto, isso não vai solucionar nenhum problema. Nova York é um lugar perigoso, eu não quero que...
— Mãe, já falamos sobre isso mil vezes! — Nick aumentou o tom de voz, se levantando da moto.
A sra. Jonas pareceu avaliar o rosto do filho. Raramente havia visto Nick tão determinado a fazer algo, principalmente nos últimos anos.
— É por isso, filho. Porque já falamos sobre isso mil vezes, e eu não entendo porque insiste em ir embora! — disse ela. Nick bufou — E já tinha me falado que queria estudar em Harvard, você recebeu a carta, porque de repente mudou de ideia e quer ir pra Nova York?
Nick apertou os lábios e pensou nas próximas palavras a dizer. Ele não sabia ao certo. Só conseguia pensar que algo muito mais forte o perigoso o puxava a Nova York, além de simplesmente estudar. Mas ele queria ir, estava tão motivado a isso que era capaz de passar por cima de todos!
— Mãe... A gente muda de opinião. — Nick deu de ombros, como se aquilo fosse a coisa mais óbvia do mundo — Eu já disse que posso conseguir uma bolsa.
— Mas você já está praticamente dentro da Universidade de Harvard. E também, se quiser, pode conseguir uma bolsa aqui. — ela deu um sorriso fraco, que logo sumiu, enquanto passava os dedos no rosto do filho — É muito mais fácil.
Nick abaixou a cabeça. Não pensou que seria fácil. Mais um sofrimento a sua frente não seria fácil, mas ele só sabia de uma coisa: estava determinado. Estava decidido. E mais do que nunca, estava pronto.
— Então ainda não concorda comigo? — disse ele, olhando diretamente nos olhos da mãe.
— É. — ela assentiu com a cabeça — E tenho certeza de que seu pai também discordaria.
Nick sentiu como se novamente apertassem seu coração. A sra. Jonas nada mais falou e subiu novamente para casa, deixando Nick novamente sozinho.
Mas agora ele não queria pensar em mais nada. Ele sabia exatamente o que fazer. Parecia que tudo o que havia pensando passava por sua mente naquele momento, como se seu plano fosse o mais perfeito de todos. Sua mente se aguçou de forma impressionante e ele de repente tinha um caminho a seguir. Pela primeira vez em muitos anos, ele sabia pra onde ia.
Ele ia pra Nova York. Nada o impediria, nem mesmo sua mãe. Era lá. Era lá que ele estava. Era lá que o assassino que arruinou a vida de Nick e sua família estava.

Demi e Sophia pareciam esgotadas depois de tantos sorrisos e flashes. Demi mais do que Sophia, é claro. As duas ainda riam ao final do ensaio, e todos pareciam bem satisfeitos com o desempenho das duas. O fotógrafo estava mais feliz do que nunca, ele não parava de olhar a câmera e admirar as duas divas que havia fotografado.
Demi se virou para Sophia enquanto esta se olhava no espelho mais uma vez e perguntou:
— Mãe, será que podem me trazer um refrigerante?
— Xiu! Fica quietinha, criança, a estrela aqui sou eu. — respondeu Sophia, mexendo nos cabelos loiros em tom de deboche para a filha.
Demi apenas riu e se sentou na outra poltrona, achando tudo aquilo mais divertido do que pensava.
De repente, a morena assistente de Sophia entrou outra vez no estúdio, a qual havia sido. Ela foi diretamente ao fotógrafo, com uma expressão não muito boa.
— Com licença, desculpe interromper. — ela falou baixo, apenas para que o fotógrafo a olhasse — Temos problemas.
Ele revirou os olhos, claramente seu sorriso desaparecera e seu tom se tornava quase raivoso.
— Eu já disse que quando estou trabalhando, não me interrompa. — ele falou entredentes.
— É que... Tem um homem que insiste em entrar.
— E quem é?
— Eu sou o pai da Demi!
Todos se viraram ao ouvir a voz grave do homem de terno que acabava de entrar. Ele era forte e parecia ter uns 40 anos de idade. Seus cabelos eram baixos, mas percebia-se cachos tentando saltar para cima, exatamente como os cachos de Demi. Ele parecia estar em forma para um homem de sua idade, e não se podia negar que era bonitão.
A primeira a se manifestar foi Demi, que se levantou da poltrona completamente enraivecida.
— Quem doou o espermatozóide, melhor dizendo! — ela disse, com a cara emburrada.
A expressão no rosto do homem era indescritível. Não sabia se dizer se estava mais chocado por ver a roupa de Demi ou pelo que ela havia dito.
Sophia rapidamente se levantou, e não parava de encarar o homem a sua frente.
— Demi, deixa isso comigo, ok? — ela disse, se virando um pouco para a filha — Cuida dela pra mim, por favor.
Sophia não tirava os olhos do homem até ir ao seu encontro. Ela gesticulou para que fossem a um canto afastado no estúdio, e suas mãos pareciam já estar fechadas em punho.
O pai de Demi foi o primeiro a falar:
— Não vou permitir que a minha filha viva essas experiências imorais. — ele disse, com certo tom de desprezo.
— Imoral aqui é você! — Sophia disse entredentes — Você sumiu pouco depois que a garota nasceu, e nunca mais sequer telefonou. Isso eu não vou permitir, você não tem nenhum direito de estar aqui!
— Essa menina tem o meu sobrenome! — ele disse, com certo tom de autoridade — E lembre-se que nunca lhe faltou um centavo.
Sophia encarou-o, como se tivesse ouvido uma ofensa.
— O seu dinheiro nunca foi tocado. — ela disse, já com a voz falha — Está numa conta, e se quiser, eu te devolvo agora mesmo. Mas some daqui!

O diretor Ethan ajeitou a gravata antes de entrar em seu gabinete, já encontrando seu convidado posto em uma cadeira a frente de sua mesa, não despregando os olhos do celular.
O gabinete do diretor era um local confortável. Era pequeno, comparado a magnitude da escola. Sua mesa era de vidro e em cima dela continham sempre um computador e vários papéis espalhados. O piso era de madeira, mas era escondido por um tapete enorme que cobria quase toda a sala. O teto era extremamente alto, com um lustre pendendo incrivelmente lindo. Em toda parte haviam arranjos de flores, e uma parede da direita era revestida totalmente por retratos dos antigos diretores da Yancy. Haviam duas poltronas a frente de sua mesa, que era de um veludo vermelho vivo. A sua poltrona, a maior e mais magnifíca, era grande e preta, e se podia notar o quanto ele se orgulhava só de sentar nela. Coladas ás paredes, atrás das poltronas, havia um pequeno sofá, também de veludo vermelho vivo.
Ethan pigarreou, como um aviso de que havia chegado, e o convidado se levantou.
— Senhor Gomez. — Ethan sorriu, cumprimentando o homem a sua frente.
— Como vai? — eles trocaram um aperto de mãos, enquanto Ethan indicava a poltrona vermelha a frente de sua mesa.
Era sem dúvida que Jayden Gomez era pai legítimo de Selena. As semelhanças entre os dois eram completamente impressionantes. Jayden tinha um cabelo castanho escuro, parecido com o da filha, e era cortado bem baixo, o deixando ainda mais sério, e estava recentemente nascendo cabelos brancos. Estava posto em um terno cinza, e sua carranca era tão séria que desmanchou o sorriso alegre do diretor. Não se podia negar que sua figura era totalmente autoritária, então o desejo do diretor de agradar ao seu convidado podia até ser entendido.
Os dois se sentaram, cada um em sua cadeira, e a expressão do diretor já não era das melhores. É claro que Jayden já estava ciente do motivo pelo qual estava ali, sabia que Selena aprontara. Na verdade ele já sabia de tudo, tanto que estava tão entediado que não conseguia pensar em porque estava ali.
Ethan bufou, antes de continuar.
— Eu quero pedir que... o senhor me entenda. Isso foi mais do que uma travessura, foi... Vergonhoso. E ela fez na frente dos pais de todos os alunos.
Ethan parecia estranhamente constrangido ao falar. Ele sabia que Jayden já estava ciente do que Selena fizera no dia anterior, mas mesmo assim, aquilo o estava incomodando, pois Jayden não demonstrava expressão alguma. Raiva, decepção, alegria, nada.
Por fim, ele suspirou e disse:
— Eu entendo, Ethan. Pode dar a ela o castigo que quiser e pronto.
— Bem, foi justamente por isso que mandei chamá-lo. — ele deu um sorriso tão fraco que sumiu imediatamente, enquanto se recostava na poltrona — Eu acho que é o senhor quem deve chamar a atenção da sua filha.
Uma coisa pareceu se acender no rosto frio de Jayden pela primeira vez. Surpresa, talvez?
— Mas trata-se de uma questão disciplinar dentro do colégio. — ele disse como se fosse óbvio.
Ethan bufou e colocou as mãos no tampo da mesa.
— Olha, Jayden... Sinceramente, a sua filha tem que ter um limite. — falou Ethan, parecendo reunir toda a sua coragem. Na presença do milionário, ele parecia não saber o que fazer.
Jayden bufou, agora parecendo menor entediado na conversa com o diretor. Dessa vez sua expressão tomou uma nova forma, ele parecia estranhamente aborrecido.
— Perdão, senhor? — arriscou Ethan — Disse alguma coisa inconveniente?
— Não, não. — Jayden respondeu rapidamente, balançando a cabeça — Ao contrário. É verdade que eu sou muito bonzinho com ela. Mas como não tem mãe, eu estou sempre viajando... — ele deu de ombros, parecendo dizer que só aquilo bastava para compreender tudo.
Ethan deu um pequeno sorriso, mostrando certa compaixão.
— Mas faça isso por ela. Mais cedo ou mais tarde, senhor, sua filha vai entender.
Jayden encarou o diretor. O milionário tinha um ego muito orgulhoso, e parecia não ter se deixado abater pelas palavras de Ethan e que não pretendia mudar de ideia. Mas disse:
— Tem razão. — ele comprimiu os lábios, como se fosse duro estar tendo que se render a opinião de alguém que não fosse a dela — O que ela tem que entender agora é que tudo tem limite.

Um vento gelado empapava os cabelos de Nick naquela tarde fria na Flórida. A conversa com sua mãe sobre Nova York ainda pairava em sua mente e o jantar naquela mesma noite não foi um dos melhores. Mas como antes, Nick estava decidido. Nada tiraria aquela ideia de sua cabeça, não adiantava o quanto insistissem. Aquilo poderia não melhorar em nada sua situação e a sua família, mas com certeza iria retirar um peso de 100 toneladas das costas e da mente de Nick. Ele não aguentava mais ter de ficar imaginando onde aquele homem estava e o que faria se o visse, ele iria partir pra ação. Iria fazer.
Na tarde cinzenta e chuvosa, Nick subiu na sua moto e pisou fundo. Não sabia para onde estava indo naquele momento. Ele só queria espairecer, esfriar um pouco as ideias e parar de pensar. Não era fácil, claro. Como não parar de pensar quando tudo que sua mente queria fazer era arquitetar um plano ou qualquer coisa? Fazê-lo lembrar o que devia fazer. O que ele queria fazer.
Então ele se decidiu. Em menos de 20 minutos, ele estava parado a frente da concessionária de motos, pronto a vender uma de suas últimas lembranças com o pai.
E depois ele voltava para casa, mais uma vez pelas ruas cinzentas e com o vento gelado soprando em seu rosto, mas dessa vez estava a pé. Seu bolso mostrava um volume, o que significava o cheque que estava carregando. Suas mãos não saíam do colar em seu pescoço, parecendo que ele o estava sufocando. Nick sabia como aquilo era importante, uma parte de seu plano estava concluída. Aquele dinheiro seria mais importante do que nunca.

Sophia havia decidido repentinamente ficar em Los Angeles aquela noite. Depois da sessão de fotos da tarde anterior, parecia mais seguro não pegar um avião imediatamente pra casa. Certamente já havia um quarto no melhor hotel da cidade quando ela se apresentou, tentando ser discreta, com a filha e a assistente. Mas ela também havia ficado por outros motivos.
Era quase meia noite quando ela finalmente chegara ao quarto de hotel, parecendo extremamente cansada. Seus cabelos loiros estavam soltos, com os cachos teimosos rebeldes e vestia um vestido verde solto, que pegava até metade das coxas. Ele tinha um cinto no meio, deixando o vestido mais largo, e suas mangas eram grandes, quase até os cotovelos e Sophia estava incrivelmente linda.
Demi estava sentada em frente ao espelho, passando algo nos olhos como rímel e sombras. Ela havia prendido os cabelos negros atrás da cabeça com alguma pregadeira que havia encontrado por aí e vestia um vestido rosa de alcinhas florido. Era uma roupa "alegre" demais para o tipo de Demi, que era meio do "mal". Mas Solphia sabia bem que ela nunca sairia de casa assim.
Demi nem pareceu notar quando a mãe chegara.
— Demi, para de usar as minhas coisas, ok? — Sophia bufou ao ver que Demi usava suas maquiagens.
Ela jogou sua bolsa na cama, bufando de cansaço.
— Como foi com o velhinho? — perguntou Demi enquanto fechava um tubo de rímel.
— Mais respeito, mocinha. — Sophia franziu as sobrancelhas — É o seu pai.
Demi deu uma risada irônica.
— Querida, se ele pareceu meu avô, a culpa é sua, não minha. — ela deu um enorme sorriso falso para Sophia enquanto se levantava do espelho — O que ele quer agora?
Ela foi até a mini-cozinha que havia no gigantesco quarto e pegou uma lata de red bull, sua bebida favorita.
— Agora ele veio dizer que... Eu não sou boa mãe. — suspirou Sophia enquanto seguia Demi até a cozinha.
Sophia olhava Demi de modo estranho, como se toda vez que fosse falar algo tinha que pensar muito bem nas palavras certas, como se Demi fosse uma bomba prestes a explodir. Tudo o que conseguia pensar era no jantar que tivera com o pai da menina a algumas horas atrás.
A garota pareceu não perceber isso e se sentou no sofá vermelho ali mesmo, ainda com sua latinha de red bull.
— Bom, nisso ele tem razão. — ela revirou os olhos.
Sophia abriu a boca, meio chocada.
— Como pode dizer uma coisa assim, Demi? — sua voz falhou.
— Mãe, deixa de ser tão sensível! — Demi se levantou e abriu a geladeira, pegando uma taça repleta de chocolates — Olha, por sorte eu sei sobreviver a você, então diz pra esse velho que pode voltar sossegado pra Europa e parar de amolar.
Sophia suspirou.
— É isso que ele vai fazer. Mas impões certas condições...
— O que ele quer que você faça? — disse a menina, com a boca cheia de chocolates.
— A coisa é... É com você, filha. — a voz dela pareceu sumir.
Demi a olhou intrigada e Sophia deu as costas, voltando para a cama.
— Comigo? — Demi largou a taça de chocolates e correu até Sophia — O que esse homem quer comigo?
Sophia bufou. Não sabia o que dizer a Demi. De algum modo, sabia que a filha surtaria, mas não podia esconder isso dela.
— Ele... Tem certos direitos. É seu pai, não é? — ela fungou — Apesar de ter sumido tantos anos, a lei o protege e... Ele pode reclamar a sua guarda, Demi.
Para surpresa de Sophia, Demi soltou uma gargalhada.
— Mãe, se é isso, não se preocupe. — ela continuava rindo — Mandamos os melhores advogado e em um dia teremos um dinossauro fora da nossa vida. — ela se jogou na cama, sorrindo.
— Não, não. — Sophia balançou a cabeça, parecendo perturbada — Não quero problemas com advogados. Com essas fotos que vão sair na revista, e com os juízes que temos, corro o risco de te perder, Demi. — sua voz ficou embargada, e ela estava a ponto de chorar — Prefiro... Fazer o que ele pede.
Demi olhou para a mãe séria. Sabia que Sophia Jones era uma manteiga derretida e que chorava por qualquer coisa, mas ela sempre tinha um motivo para cair no choro.
— O que ele pede? — perguntou ela.
— Quer que... Você tenha uma melhor educação, Demi.
Demi deu mais uma risadinha irônica.
— Diz pra esse homem que eu já sou bem educadinha. E sei muito mais da vida do que qualquer menininha da minha idade. — ela deu de ombros.
Sophia tentava segurar seu nervosismo. Não estava chegando a lugar algum com aquela conversa.
— Ele fala de outro tipo de educação. — disse ela.
Demi juntou as sobrancelhas, confusa.
— Ele quer que eu te matricule num internato. — Sophia bufou.
A latinha de red bull caiu da mão de Demi.
— O que?! — ela gritou, sem se importar com as lágrimas da mãe. Havia levantado da cama em um salto, o choque em seu rosto — É brincadeira, não é?!

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Depois da Chuva - 02

“Se eu te troquei, não foi por maldade. Amor, veja bem, arranjei alguém, chamado saudade.” — Los Hermanos.  

Flórida
Nick's POV

 Passado algum tempo, nós dois deitamos na cama, apenas conversando sobre assuntos aleatórios. Conversar com ela é muito bom, pois nós nos entedíamos. Ela me contava sobre a escola, e também tinha uma dor enorme de deixar a nossa casa. Mas eu tentava afastar esses pensamentos, ela é só uma criança.
 A porta se abriu, e dali vimos o sorriso que minha mãe deu ao nos ver. Nos sentamos na cama, e ela veio até nós.
 — Estavam aqui, não é? — Ela sorriu.
 — Como foi? — Perguntei, com expectativa.
 Percebi que seu sorriso havia sumido no momento em que eu havia acabado de perguntar. Abaixando a cabeça, ela deu um sorriso forçado.
 — Bem. — Respondeu com a voz embargada. — A casa já está vendida.
 — Am... Que bom. — Não, não estava nada bom. — Assim podemos pagar todas as nossas dívidas.
 Talvez eu tenha piorado o psicológico dela, porque nada estava bem. Estávamos saindo de nossa casa, a casa que eu havia crescido, que já fazia parte de minha irmã também, a casa que meus pais passaram seus melhores momentos... A casa tinha ELE, e agora ela estava escapando entre nossos dedos assim. Não, aquilo não podia ter um lado positivo.
 Ela se sentou entre eu e minha irmã na cama, e já estava vendo seus olhos meio marejados. Ela suspirou:
 — É que essa casa aqui... Me traz tantas lembranças do pai de vocês que a comprou. — Ela acariciou os nossos rostos. — Tão cheio de sonhos... E agora não acredito que tivemos que vender quase tudo. — Suas mãos foram para o rosto, e agora ela começara a soluçar. Olhei para a baixinha e ela parecia não estar entendendo muita coisa, mas pude ver a tristeza em seus olhos.
 Abracei minha mãe com toda força que pude. Esperava que o carinho e afeto que emanava de mim naquele momento pudesse passar para ela. Sabia que era um momento difícil, nada era fácil naquele momento. Eu podia ver e sentir a dor dela, porque era a mesma que a minha.

Salão
Highland Private School
Nova York
Selena's POV

 Coreografia pronta e cenário pronto. Tudo estava pronto. As meninas saltitavam animadas para entrar, não viam a hora de aparecerem com aquelas saias mínimas e blusinhas sexys. Acredito que todos na platéia só estavam esperando isso. Tudo estava perfeito, tudo iria dar certo, exceto por uma coisa...
 Fui olhar para fora, para o palco, e via que o salão estava lotado. Havia uma faladeira danada uns entre outros, e eu não conseguia entender muito bem o que estava acontecendo. Em um canto vi o diretor e a secretária conversando, e em seguida a mesma foi para o palco, ajeitando o microfone para começar a faladeira. Meus vagavam incansavelmente pela plateia, procurando uma única pessoa. Onde ele estava? Prometera que viria, mas onde ele estava?!
 — Bom dia professores, alunos e pais de alunos. — Começou a secretária, dando seu formal sorriso que até parecia verdadeiro. — Esta é uma ocasião muito especial, porque nós temos a festa de formatura do nosso querido Highland Private School. É uma honra para mim apresentar o nosso senhor diretor, o professor Ethan Williams. Aplausos, por favor.
 As palmas ecoaram enquanto o diretor entrava no palco, e a secretária tomava seu lugar ao seu lado. Era um homem com uma aparência meio jovial, mas nem tanto assim. Sua mente era horrível, e percebia-se logo de cara. Ele tomou seu lugar no púbito e deu um enorme sorriso.
 — Obrigado, obrigado. Muito obrigado. Antes de começar, eu quero dar as boas vindas, porque temos o orgulho de contar com a presença do senhor secretário Collins. Bem vindo, secretário. — Ethan apontou para o pai de Joe na platéia, e mais uma vez as palmas ecoaram. Eu apenas revirei os olhos com isso. Não é de hoje que Ethan baba o ovo da família Collins. Ele continuou: — Senhores professores, familiares e amigos, alunos... Um novo ciclo escolar chega ao fim... — Pelo canto do olho, pude ver a filha do diretor, sentada no meio da platéia, olhar com desprezo para o pai em cima do palco e colocar seus inseparáveis fones de ouvidos e abaixar a cabeça, meio revoltada. A garota ao seu lado a cutucou e tentou tirar seus fones, mas foi em vão. — ... Do Highland Private School. E aqui encerramos satisfatoriamente outro capítulo mais da história da nossa escola, a serviço da comunidade. — Mais palmas.
 Meus olhos ecoaram novamente. Eu não o encontrava. Que droga, porque eu não o encontrava? Ele me prometeu.
 — O que está fazendo aqui? — Isabella me cutucou, chegando ao meu lado. — Vão te ver!
 — Eu ainda não encontrei o meu pai. — Respondi, quase sussurrando.
 — Ele ainda não deve ter chegado.
 — Não. E eu não vou começar sem ele.
 — Amiga, ele pode ter se atrasado. — Ela suspirou. — Só isso.
 — Isabella, ele me disse que não ia faltar! — Engoli o choro o máximo que eu pude. — Ele não pode faltar hoje, Isabella...
 — Selena, não fica assim! — Ouvi outra voz atrás de mim, de uma outra garota de nosso grupo. Não me virei. — O motorista deve vir. Não é sempre ele que vem e nunca o seu pai?
 Rangi os dentes.
 — Garota, porque você não se mete na sua vida?! — Gritei, cerrando os punhos para não fazer merda.
 — Falei mentira? — Ela levantou as sobrancelhas.
 Balancei a cabeça e voltei a olhar para o púbito, enquanto o diretor Ethan ainda falava.
 — As melhores famílias, os melhores nomes do nosso amado país, aproximam o nosso templo do saber aos seus filhos. — Ele sorriu, totalmente orgulhoso. — Confiando que faremos dele homens e mulheres de bem. Pessoas importantes para toda a sociedade...
 Meu coração disparou ao olhar para a entrada. Uma pessoa nada estranha vinha entrando por ela, e se sentando em uma das cadeiras do corredor. Um alívio e ao mesmo tempo uma tristeza profunda. Não era o meu pai, e sim nosso motorista. Uma fúria tremenda subiu em meu coração. Ele realmente mandou o nosso motorista, e nem se deu ao trabalho de usar as pernas e vir! Senti minha garganta queimar, e meus olhos também.
 — Selena, não fica assim por causa dessa idiota. — Falou Isabella.
 — Não. — Balancei a cabeça, me virando para ela. — Não, Isabella. Quem tá me deixando assim é o meu pai. Mas se é isso que ele quer, ele vai me pagar. — Olhei para o motorista e para Isabella de novo. — Eu volto, já já.
 — Aonde você vai? — Isabella murmurou, me segurando antes que eu saísse.
 — Eu vou me arrumar.
 — Mas você já está arrumada!
 — Ainda não. Mudança de planos.
 Soltei-me de Isabella e segui para o camarim, ainda com muita raiva.

Estúdio Fitz'Burn
Nova York
Demi's POV

 Cheguei correndo ao estúdio, ainda com o roupão. Eu desconfiava que a assistente de minha mãe contaria o que eu fiz, mas na hora eu não me preocupava com isso. Não entrei de imediato, pois ela ainda podia estar se aprontando para fazer as fotos. Eu suspirei e fiquei tranquila que todos estavam dentro do estúdio. Olhei pela fresta da porta, e minha mãe estava sentada no sofá branco, já com seu bíquini sexy e uma multidão em cima da mesma, passando maquiagem. Seu salto de 1 metro já estava posto em seus pés e ela sorria se olhando no espelho. Ah, por favor! É minha mãe mesmo?
 — Um pouco mais de pó aqui, por favor. — Ela falou com um de seus maquiadores, apontando para seu ombro esquerdo. A mulher logo a obedeceu.
 — Você está linda, Sophia. Está maravilhosa. — Disse o fotógrafo enquanto sorria para ela.
 — Eu devia tomar um pouquinho mais de sol, não acha?
 — Não, não se preocupe com isso. Relaxa que eu cuido do resto.
 Ouviram-se gritos vindo de lá de baixo. Não posso esquecer de constar que foi uma missão quase impossível de chegar aqui, já que a rua está interditada por tantos fãs enlouquecidos lá embaixo. Quase tive que me disfarçar de power-ranger para conseguir entrar, sem exageros. De repente ouvi passos vindo para a porta da sala de fotografias, e rapidamente corri para a primeira pilastra que encontrei. Olhei pelo canto do olho e vi a assistente entrando rapidamente na sala, com uma garrafa de água em suas mãos. Ela entrou rápido e eu suspirei aliviada por não ter me visto. Com certeza estava me procurando até agora. Corri novamente para frente da porta e continuei olhando pela fresta.
 — Ah, que bom que chegou! — Disse minha mãe á assistente. — Me dá essa água! — Disse pegando a água.
 — Está todo mundo lá fora! — Disse a moça, com os olhos brilhando. — Você sabe, câmeras, fotógrafos, repórteres, fãs... Tudo perfeito, amiga.
 — E está tudo bem? — A assistente assentiu em resposta.
 Revirei os olhos. Eu estranhei minha mãe não ter colocado o FBI atrás de mim até agora. Eu já devia estar atrasada, a ponto de ela achar que eu havia sido sequestrada... Ou sequestrado alguém.
 — E sabe pra quê isso? Porque ser a artista mais importante do país tem o seu preço. — Falou novamente o fotógrafo.
 — Ah, fofo, você é um amor de pessoa. — Minha mãe sorriu. Aquele sorriso bem doce que me dava enjoô.
 — E sabe do que mais? A ideia de ter a sua filha nas fotos pra mim é sensacional. Vai ser um sucesso essa revista.
 Ah, até que enfim tocaram no meu nome!
 — Ok, mas cuidado com a Demi, porque ela é uma menina. — O sorriso de minha mãe sumiu ao falar de mim.
 — Não se preocupe, eu vou cuidar dela como se fosse minha própria filha.
 — É bom, porque senão eu acabo com a sua raça!
 — Eu juro, você vai ver. — Ele levantou as mãos, rendido.
 — A propósito, cadê ela? Está demorando! — Minha mãe "acordou".
 A cara da assistente havia mudado. Ela sabia muito bem o que eu tinha feito, e não queria contar de jeito nenhum. Sua cara vacilava, e ela olhou para baixo.
 — Ér... Acho que teve um probleminha com as roupas.
 — Com as roupas? — Minha mãe juntou as sobrancelhas.
 Hora de entrar em cena!
 Bufei e entrei na sala, fazendo todos me olharem. Eu ainda estava com o roupão rosa me envolvendo, e dei um sorriso venenoso. A assistente me olhou com desaprovação, e minha mãe se levantou louca do sofá.
 — Demi, minha filha! — Ela me apertou em seu abraço de urso, não se importando se sua maquiagem e seu glitter saíriam. — O que aconteceu com a roupa?
 — Ups! Eu doei para os ciganos na rua. — Dei um sorriso inocente.
 — Como assim doou? — Pude ver seus olhos se arregalando de surpresa. — É tudo versáti!
 — Ah, eles que usem aquilo. Porque eu não vou andar fantasiada.
 — Como fantasiada?
 — Além disso, eu botei outra coisa!
 — Que coisa?
 Desamarrei meu roupão, com um sorriso vitorioso. Tirei-o, e antes de o mesmo cair no chão, minha mãe já gritava de horror. Era uma arte no corpo, uma roupa desenhada, e devemos dizer que foi bem sexy.
 — DEMI, PELO AMOR DE DEUS, CUBRA-SE! — Ela gritou, pegando o roupão no chão e me cobrindo novamente. — Virem todos para lá! Eu proíbo você de posar assim, vai trocar de roupa agora!
 — Calma! Eu já ouvi, está bem?
 — Que absurdo...
 — Quer parar de falar comigo nesse tom de desesperada? Não faz sentido ficar toda nervosinha! — Bufei.
 — O que tem o tom a ver com isso, Demi? Para de fazer pirraça de menina idiota e vai trocar de roupa agora! Vai logo!
 — Mãe, chega! — Gritei, parando seus braços. — Eu me visto como eu quiser, está bem?
 Ela me olhou em silêncio por alguns segundos, talvez se perguntando de que mundo eu era.
 — Ah é? — Ela levantou as sobrancelhas. — Sou sua mãe, Demi, eu sei o que é conveniente.
 — Ah é, claro! Você vai sair linda, quase peladinha, e quer que eu saia vestida como uma menina recém saída do jardim de infância.
 — Você vai como uma menina. Linda, mas como uma menina. Vai trocar de roupa!
 — Menina é a vovózinha, ouviu?! — Tirei meu roupão com força, batendo-o no chão.
 Ela bufou, colocando as mãos na cabeça e fechando os olhos, tentando se acalmar.
 — Demi, meu amor, por favor, minha filha...
 — Minha filha nada! — Interrompi. — Vai ser assim ou nada. Decide, mamãe.

Salão
Highland Private School
Nova York
Selena's POV

 Saí do camarim e cheguei correndo até onde todas as outras garotas estavam reunidas. Cheguei a tempo de ouvir a secretária anunciar no púbito a nossa apresentação:
 — Agora, nossas lindas alunas que entram para o 4º ano, vão nos provilegiar com uma bela coreografia, dirigida pela aluna Selena Gomez. Aplausos, por favor.
 As palmas ecoaram, mas eu ainda não havia terminado. Me virei para ajeitar o CD que trazia em minhas mãos e já podia escutar as garotas reclamando de minha falta. Ao terminar, corri para o meio delas, que me olharam como se eu fosse muito retardada.
 — Onde você estava? — Isabella rangeu os dentes.
 — O meu pai já chegou? — Ignorei a pergunta dela. Ela suspirou.
 — Não, ainda não. Fiquei aqui olhando e ainda não vi.
 — Tudo bem. — Balancei a cabeça. Eu ainda tinha esperanças. — Olha só, quando eu der o sinal, você tira o CD e coloca esse. — Dei pra ela o CD que trazia em minhas mãos.
 Ela me olhou confusa.
 — O que é isso?
 — Quando eu avisar, faça o que eu mandei. Rápido, vai pro seu lugar!
 Isabella murmurou e foi para o seu lugar. Posicionei as garotas e entramos.
 A música que escolhemos foi uma música leve, algo como Run The World. Todas nós usavámos a mesma roupa, e eu já pude perceber os garotos já levantando os olhos para nós na plateia. Começamos a dançar, uma dança leve, ensaiada muito bem, e todos estavam satisfeitos, pelo que eu pude notar. Meu motorista batia palmas e sorria, o que me deixou feliz por alguns segundos, mas eu não me esquecia do que realmente estava fazendo ali.
  Logo quando a música já estava acabando, eu parei de dançar subitamente. As garota me olharam confusas, mas continuaram dançando. Fui para a frente do palco, olhando para Isabella, falando-a para trocar o CD. Isabella parou a música, fazendo todos olharem confusos e cochichos começaram a ecoar pelo salão. Logo começou a outra, que na verdade era uma música do Kanye West que eu escolhi, daquelas bem proibidas. Todos me olhavam, não estavam entendendo nada.
  Ao começo das primeiras notas, agaixei e me levantei, fazendo todos gritarem. Comecei a rebolar de todos os jeitos que eu sabia, e eu vi algumas garotas e garotos se levantando, me chamando de gostosa ou coisa do tipo. Eu ri e continuei a dançar. Tirei minha mini-blusa e depois meu short. Eu estava completamente sensual e pude ver o motorista começar a ficar pirado.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Depois da Chuva - 01

“Porque as pessoas machucam e dizem amar?” — Michael Jackson. 

Academia Yancy
Nova York
Estados Unidos
  
  Uma aglomeração de alunos começara a se juntar no corredor dos arredores da gloriosa Academia Yancy, a melhor escola — e também a mais cara — de todos o país do Estados Unidos, situado no estado de Nova York. Os alunos estavam entrando de férias, terminando mais um ano letivo, e com isso todos estavam radiantes. Iriam ficar um pouco longe dos cadernos, provas e trabalhos. No corredor, todos estavam postos devidamente em seus uniformes, conversando entre si em vários grupos abarrotados, em vários assuntos.
 Ao contrário de Selena, que não parava quieta em nenhum segundo. A garota mais popular da Academia Yancy — mais bonita, gostosa, inteligente, sexy, e etc —, não estava infiltrada em grupo nenhum como de costume. Selena vasculhava aquela área, andando sem parar para a entrada, parecendo procurar alguém. Ela cumprimentava algumas pessoas — ou muitas — que a paravam e se sentiam fascinados com apenas um olhar de Selena para eles. Sim, Selena Gomez era diva. Ela era "adorada", e de todas as formas. Tanto por meninos quanto por meninas, todos queriam que ela acenasse para eles enquanto passava no corredor. Pronto. O dia estava feito.
 Mas Selena naquele momento estava inquieta. Mal falava com todos — também mal falava com todos o resto do ano, mas sempre tinham aqueles que ela dava uma bola —, e parecia roer as unhas, apesar de estarem recém feitas. Ela claramente estava procurando alguém que não estava encontrando.
 De repente, ouviu-se um barulho na escada para onde dava o salão, que neste momento deveria estar lotado de pais e alunos. Uma garota, cabelos ruivos e olhos azuis — olhando parecia pesar uns 100 quilos —, desceu as escadas apressadamente, quase tropeçando e caindo no último degrau. Seu uniforme ficava apertado em seu corpo gordinho, mas apesar disso, era muito bonita.
 Ela correu até Selena, e pegou em seu braço.
 — Anda, vem rápido, só temos 10 minutos pra entrar! — gritou a garota, puxando Selena pelo mesmo lugar da onde tinha vindo, parecendo completamente exausta.
 Selena não deu um passo a frente, se soltando.
 — Não, Isabella, espera! O meu pai ainda não chegou e eu quero que pegue o melhor lugar quando chegar. — Selena suspirou, mais uma vez vasculhando o enorme corredor a procura do pai.
 Isabella Smith era a melhor amiga de Selena a anos. Apesar de terem suas diferenças, as duas se completavam de tal forma que mal dava para imaginar. Selena sempre fora glamurosa e singular, sempre chamava a atenção nos lugares que frequentava por sua beleza e carisma. Isabella já era bem tímida e não se envolvia bem em grupos. Era gordinha e estranha, com roupas ainda mais estranhas, e muito anti-social. Selena a "encontrou" e a "transformou", como gosta de dizer. Isabella era tão popular quanto Selena, elas eram uma dupla, nunca as via separadas. Eram coração e pulmão, unha e carne. E Isabella seria eternamente grata a Selena por tudo que ela fizera em sua vida.
 Isabella levantou os olhos e também vasculhou o corredor.
 — Eu não estou vendo ele. — disse ela.
 Selena bufou.
 — Eu também não, mas vou esperar aqui.
 — Ah, vamos logo! — Isabella resmungou.
 Selena e as garotas tinham um grupo de dança na escola. Não era nada oficial nem tão sério, mas era uma diversão que todas gostavam. Selena era a líder e coreógrafa, portanto ela quem geralmente fazia os "testes" para a entrada de novas integrantes, mas na verdade ninguém nunca entrava. Por mais que as garotas fossem ótimas, Selena não permitia outras integrantes em seu grupo. Para o fim de ano, ela e o diretor combinaram que naquela festa de boas-vindas, seu grupo apresentaria uma coreografia. Elas já haviam ensaiado, e estava tudo pronto, mas Selena insistia em esperar o pai.
 — Espere, Isabella...
 Disse Selena, mas foi interrompida por um garoto a dizendo "Oi" antes que ela pudesse sair do lugar. Ele era alto, cabelos escuros e estava na cara que estava morrendo de vergonha ao simplesmente chegar perto de Selena. Na mesma hora notava-se o brilho de seus olhos e ele continha uma margarida enorme nas mãos.
 Selena deu um sorriso cativante.
 — Olá.
 O coração do garoto pareceu ir a Saturno e voltar. Suas bochechas ficaram rosadas e percebia-se que ele só havia planejado a parte do "Oi", fora isso ele nem esperava que ela o respondesse.
 — O que vai fazer depois da festa de formatura? — ele disse após tropeçar em várias palavras. Suas pernas tremiam muito e ele não parava de mexer os braços.
 Selena deu um sorriso doce, como se já estivesse prevendo o resto da conversa.
 — Ah, eu vou sair com os meus amigos. — ela respondeu.
 O garoto lhe lançou um olhar decepcionado, mas ao mesmo tempo feliz. Seu coração estava explodindo de felicidade apenas por Selena ter dito mais que duas palavras com ele.
 — Am... Ér... E algum dia vai sair comigo? — ele perguntou, parecendo amassar o caule da flor com seus dedos.
 Selena deu um olhar sorrateiro para Isabella atrás dela, que só assistia. Isabella estava acostumada com aquele tipo de cena que Selena se envolvia, era como se fosse um filme que ela já havia assistido um milhão de vezes, mas que tivesse sempre a mesma empolgação.
 — Eu vou, um dia eu vou sair com você! — Selena riu — E aliás, porque você não me liga nas férias?
 Notou-se claramente o choque do garoto. Aliás, aquela era Selena Gomez. Se Selena houvesse dito mais alguma coisa depois disso, ele não teria escutado mais nada. Abriu um sorriso de orelha a orelha, maior do que seu próprio rosto podia suportar, e estendeu a enorme margarida para ela.
 — Aqui. Pra você. — seus dedos tremiam, e Selena pegou a flor.
 — Ah, obrigada. — ela abriu um sorriso doce.
 Inesperadamente, o garoto se inclinou para a frente e tascou um beijo no rosto de Selena rapidamente, como se tudo acontecesse em menos de 1 segundo. Selena arregalou os olhos, surpresa com a "coragem" do garoto, mas mesmo assim sorriu. Sorria para tudo e para todos, não importava a situação. O garoto pareceu ainda mais nervoso e já estava quase suando frio.
 — Então... Tchau. — disse ele, enquanto ia se afastando de Selena e Isabella, aos tropeços.
 — Tchau. — Selena acenou alegre enquanto o garoto seguia para a escada que ia para o salão.
 Ele parecia não saber para onde andar. Não queria perder Selena de vista nem por um segundo, e praticamente andava de costas até chegar a escada. Ele se virou para subi-la, mas nesse momento seus pés se desencontraram e ele levou o maior tombo na frente de todos ali. Isabella gargalhou alto, assim como todos. Selena também riu, mas não deixou transparecer. Tinha que ser "boazinha".
 O garoto logo se recuperou e terminou de subir as escadas. Mas claro, antes de dar um último aceno para Selena.
 — Coitadinho! Porque você pediu pra ele te ligar nas férias se você vai viajar? — perguntou Isabella, ainda rindo da cena anterior.
 Selena riu.
 — Foi por isso! Pra ele me ligar quando eu não estiver! — respondeu ela, agora dando um sorriso vitorioso.
 As duas riram. Agora estavam rindo como sempre. Selena sabia que devia se comportar como boazinha perto dos garotos, não os deixando tristes, ao olhar dela. Mas também não tem que sair e satisfazer todos que a queriam, isso era impossível. Ela não era nenhuma puta ou piranha, não era nenhuma vadia, não se entregava para qualquer um, tanto que ainda era virgem. Mas ela sabia muito bem quebrar o coração de um garoto.
 — Vamos, agora é sério, não temos tempo! — Isabella bufou e puxou Selena novamente para as escadas.
 Selena murmurou e tentou lutar para se soltar novamente.
 — Não, Isabella! Não! Espera o meu pai...
 Mas Isabella foi mais forte, e as duas subiram para o salão.

Flórida
Estados Unidos

 Uma tarde cinza e melancólica começava a se formar na cidade naquele dia. As pessoas estavam preferindo ficar em casa do que sair naquele frio horrendo, que estava prevendo cair neve. As crianças não estavam no Walt Disney World como de costume, não haviam casais se beijando na praça e nem turistas perdidos nos hoteis. Só havia Nick, que naquele momento parecia realmente perdido.
 Nick Jonas era um garoto de 19 anos que parecia uma das únicas almas a estar circulando pela Flórida naquele momento. Ele parecia inquieto, e na verdade seu coração estava inquieto. O barulho de sua moto era tão alto que podia se ouvir a várias distâncias, e ele parecia não ter medo de levar uma multa por excesso de velocidade.
 Nick queria sentir o vento na cara. Queria sentir a brisa, a maresia, queria elevar seus pensamentos, ou pelo menos parar de pensar. Apesar do frio, ele estacionou sua Honda no calçadão da praia, e por ali se sentou, apenas observando o mar e sentindo o vento. Olhando para a paisagem, Nick sabia que aquele lugar não era a mesma coisa. Não sabia para as pessoas, mas para ele aquilo sempre seria cinza e horrível. Ele não aguentava mais olhar para as pessoas felizes andando pelas ruas todos os dias e não perceberem o quanto aquele lugar havia ficado melancólico e fantasmagórico, aquele lugar estava morto.
 Desde a morte de seu pai, Nick passou a ver as coisas assim. Havia sido alguns anos antes, e a dor ainda era muito forte e recente em seu peito. Eram dois amigos, se pode resumir assim. Dois melhores amigos, pai e filho, inseparáveis. Ele era literalmente seu herói, e era sua inspiração para tudo. Mas até que um dia, um homem, fez tudo isso desmoronar.
 Nick cerrou os punhos ao pensar nisso. Sempre fora um garoto calmo e pacifíco, mas com a morte de seu pai isso havia mudado e muito nos últimos anos. Ele se estressava com qualquer coisa e nem sabe como conseguira terminar o segundo grau, já que fora expulso de 4 escolas diferentes por causa de briga. Mas seu ódio era por aquele homem. O homem que havia arruinado sua vida a e a vida de sua família... O autor da morte de seu pai.
 Nick vasculhou os bolsos e pegou a antiga câmera filmadora onde continham lembranças vivas de seu pai. Estava reproduzindo o mesmo vídeo de sempre. Nele via-se um homem alto, forte e de leves cabelos encaracolados e desgrenhados, com uma barba mal feita e roupas largadas. Seu pai. E também havia um garoto de 8 anos, parecido com o pai, correndo solto pelo galpão velho de onde eles brincavam naquela hora. Sorrisos estampavam seus rostos, enquanto o pai de Nick corria atrás dele, e ele pulava de madeira em madeira no chão. Seu pai o dava beijos e beijos no rosto, que eram doces e tinham tanta ternura. O que Nick mais queria era reviver esses momentos novamente, mesmo sabendo que era impossível.
 "Ele se foi", repetia a si mesmo em pensamentos. Não há mais jeito. Naquele momento ele só podia sonhar e querer ter o pai novamente ao seu lado.

Academia Yancy
Nova York
Estados Unidos

 Com ainda a aglomeração e confusão dos alunos no meio do corredor, naquele momento todos começavam aos poucos a subir para o salão para iniciar a grande apresentação de boas-vindas feita pelo diretor. Havia uma falação entre os alunos que era quase impossível de se escutar naquele lugar.
 Mais e mais pessoas esbarravam em Joe enquanto ele tentava chegar á entrada para ver os pais. O deputado o estava esperando impacientemente com sua esposa, a primeira dama. Algumas líderes de torcida acenavam para Joe impacientemente, pareciam querer sua atenção mais do que tudo; iriam morrer se não conseguissem. Joe apenas sorria forçado. Já havia pegado metade delas, e este ano não seria diferente. A "cota" de Joe Collins sempre aumentava a cada ano.
 Joe havia encontrado os pais na entrada. O deputado com seu inseparável charuto e sua mulher ao lado, a perua mais banhada em loja de Nova York. Joe já fora preparando os ouvidos, pois sabia que brigaria com eles.
 — Porque?! Ir pra Londres agora? — falou Joe após 10 minutos de conversa com seus pais. Ele já estava sentindo sua paciência se esvair.
 Sua mãe lhe lançou um olhar furtivo.
 — Joe! Por favor! — ela o repreendeu, cerrando os dentes. — Você vai poder ver seus irmãos, vai ficar com eles.
 — Mãe, vocês haviam dito que iríamos a praia! — Joe rangeu os dentes.
 — Ouve uma mudança de planos. — seu pai deu de ombros.
 Joe bufou. Ele queria dar um soco em alguma coisa. Não era a primeira vez que seu pai fazia isso, que ele completamente cortava seu barato ou suas festinhas... Ou simplesmente cortava um momento de diversão. Não era a primeira vez, e de qualquer jeito, Joe estava esperando por isso. Mas sempre havia aquele fiapo de esperança, de que se ele mudasse de ideia.
 Mas o que enfurecia Joe era o fato do pai não se importar com isso. Todos percebiam o quanto Joe estava nervoso pelo seu pai mais uma vez furar com ele, mas o deputado simplesmente não se importava. Parecia nem prestar atenção no próprio filho.
 — Agora nós vamos para a Europa, Joe. — disse ele, dando mais uma tragada no cigarro.
 Joe fechou os olhos, pensando nas palavras seguintes.
 — Eu prometi ao Jacob que iria comigo. — ele apontou para o melhor amigo ao seu lado, que havia chegado um pouco no meio da discussão. — Não foi? — Joe rangeu os dentes, olhando firmemente para Jacob, esperando que ele colaborasse com a mentira.
 Jacob Johnson era o melhor amigo de Joe Collins. Os dois eram inseparáveis, unha e carne, pareciam ter nascido juntos. Pareciam irmãos de pais diferentes. Tudo bem que Jacob também era um gato, mas nada comparado a Joe, ao ponto de vista das meninas. Jacob era sempre a "sobra", caso Joe não quisesse uma menina. Ele era o consolo. O garoto nunca havia visto problema nisso, pois ele se dava muito bem, até mais do que imaginava. Eles eram grandes parceiros, aprontavam juntos a mil, caso um se ferrasse, teria que levar o outro, e naquela situação não era diferente.
 Jacob olhou bem para Joe e hesitou ao responder. Sabia que se mentisse iria sobrar para ele. Apesar de isso nunca ter sido um problema, era o pai de Joe que estava ali, o deputado Collins! Ele poderia ferrar mais a Joe do que a ele.
 — Não, eu posso ir pra praia com os meus pais, não tem nada a ver! — Jacob respondeu, nervoso.
 Joe revirou os olhos, não acreditando que Jacob não havia colaborado com ele.
 — Ta bom, mas eu me importo! — falou ele. — Vai ser uma chatice!
 O deputado bufou, começando a se estressar com Joe.
 — Olha, Joe... Isso não está em discussão. Você vai conosco e está acabado.
 — O embaixador quer uma reunião com o seu pai. — completou a mãe de Joe, sempre ao lado do marido, não importa o que ele dissesse.
 — Ué, então vai sozinho! Você tem que estragar as minhas férias? — Joe rangeu os dentes para o pai, o que era perigoso, e ele sabia disso.
 — Olha, já chega! — o deputado bufou. — Eu vim ver você, apesar da campanha eleitoral. E não vou perder o meu tempo com as suas pirraças, entendeu?
 Joe baixou os olhos. Ele não poderia falar mais nada, e sabia disso. Seu pai sempre tinha a palavra final, e Deus que o livre de enfrentá-lo. Ele sabia muito bem que não tinha opinião, mas não conseguia aceitar isso. Não conseguia se contentar, mas devia.
 No momento em que disse isso, o telefone do deputado tocou e Joe viu uma chance de se livrar dos pais. No mesmo momento, uma garota loira e muito bonita abraçou Joe e o deu um beijo. Seu pai nem sequer viu enquanto ele a pegava pela cintura e a levava para longe. Jacob o seguiu, como sempre. Joe era o maior pegador de Yancy, e a cada semana estava com uma diferente. Mas sempre tinham aquelas que ele gostava de repetir.
 Ele saiu de perto dos pais, a todo momento querendo esquecer a conversa que tivera a 5 segundos antes.

Flórida
Estados Unidos

 Nick estava em seu quarto, mais uma vez vasculhando suas antigas lembranças. Haviam fotos e pedaços de filmes espalhados pela cama, todos de seu pai. Nick não se desprendia dessas pequenas coisas, pois sabia que seria ignorância. Ele não podia ignorar a saudade que seu pai lhe fazia, a falta tremenda e o vazio enorme no coração. Ele queria chorar, mas sabia que não iria adiantar em nada. Por mais que doesse, não iria trazer seu pai de volta. Mas haviam dias que ele mergulhava de cabeça nas lembranças, e não se importava com mais nada em sua volta.
 De repente, a porta de seu quarto abriu. Nick se levantou rapidamente, limpando as poucas lágrimas que haviam caído e abrindo os braços para que sua irmãzinha o abraçasse, com ternura.
 — Oi, linda! — ele deu um riso fraco, beijando seu rosto.
 — Porque pegou todas essas fitas? — ela perguntou, enquanto se sentava ao seu lado na cama.
 Nick suspirou.
 — Porque essas fitas tem imagens do papai. — ele respondeu, sorrindo. — Lembra?
 Ela sorriu ao lembrar-se também.
 — Sabia que você se parece muito com ele?
 — É... Eu sei. — ele sorriu.
 Nick adorava falar de seu pai com sua irmã. A garota era nova, tinha uns 8 anos, mas ele sabia que ela se lembrava perfeitamente do pai. Pra ela tudo era muito novo ainda, parecia não haver caído a ficha que havia perdido seu pai, e não qualquer pessoa, e Nick tinha inveja disso. Ela parecia ter escolhido ser feliz, mesmo quando tudo dizia para ela ser triste!
 — Ás vezes, quando está dormindo, venho aqui no seu quarto e fico um tempão te olhando. — ela falou, olhando o chão.
 — Ah é? — Nick juntou as sobrancelhas. — E pra quê?
 — É... Como se o papai tivesse voltado e estivesse dormindo. — ela respondeu, torcendo os dedos.
 Nick sentiu um tapa na cara. Na verdade, foi como se estivessem esmagando seu coração. A pequena não falava com raiva ou ódio de qualquer coisa, ela só falava com tristeza. Com saudade. Ele sabia que ela estava com saudades, mas não assim. De ficar lembrando dele, como Nick fazia. De ficar desejando sua volta, mesmo sabendo que isso nunca iria acontecer.
 Nick fechou os olhos, colocando a garota em seu colo.
 — O papai não está mais com a gente, baixinha. — ele sussurrou em seus cabelos.
 — Mas eu sinto falta dele. — ela respondeu, igualmente sussurrando.
 Nick bufou, virando a garota para si.
 — Eu também, mas... O papai morreu e já faz muito tempo.
 — Porque ele morreu? Se cansou de brincar com a gente?
 — Não, não! — Nick acariciou seu rosto. — O problema é que... Um senhor muito, muito mal jogou sujo.
 — Foi por isso que ficamos sem nada... E sem o papai?
 Nick fechou os olhos, controlando a raiva que subia por seu corpo naquele momento. Nick não gostava de lembrar do verdadeiro motivo que seu pai havia morrido, ele só gostava de lembrar dos momentos felizes e prazerosos que teve com ele ao longo de sua vida. Mas não se lembrar da verdadeira causa era inevitável. E também era inevitável não sentir ódio.
 — É... Foi por culpa desse homem. — ele suspirou.
 A pequena olhou para os lados, como se estivesse tentando colocar as peças no lugar.
 — Você conhece esse senhor? — perguntou ela.
 — Ainda não. — ele deu um sorriso fraco, colocando a cabeça da garota em seu peito.
 "Ainda não o conheço, mas vou matá-lo", pensou Nick. E inevitavelmente pensava nisso todos os dias.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Depois da Chuva - 04

“Não se aproxime muito. É escuro aqui dentro.” — Imagine Dragons.

   O quarto das meninas estava infestado de roupas, tanto em cima das camas quanto no chão, a medida que Selena escolhia e enfiava quase tudo na mala. Isabella tentava com esforço acompanhá-la, mas não fazia ideia do quanto Selena estava anciosa para sumir com tudo aquilo.
 O quarto estava vazio. Apenas Selena e Isabella estavam nele, arrumando a mala da garota. Por incrível que pareça, Selena não parecia se lembrar de nada do dia anterior. Não que não se lembrasse, mas aquilo parecia uma lembrança muito distante. Isabella também não tocava no assunto, apesar de estarem atentas que a escola inteira não falava em outra coisa. "A gostosa Selena Gomez finalmente se revelou."
 O dormitório de Selena e as outras era gigantesco, assim como todos os outros. O chão era revestido de madeira e haviam três camas muito grandes em cada canto. A primeira era de Isabella. Era grande e tinha um edredom branco. Na mesinha de cabeceira ao lado, havia uma foto dela com a mãe e a irmãzinha, e, comparada as outras fotos em sua parede atrás, essa era a única foto que ela tinha com a família. As gavetas do criado-mudo estavam abarrotadas de chocolate e doces, mas isso não era novidade pra ninguém. Na parede acima da cama, havia um mural com inúmeras fotografias coladas na parede. A maioria eram com Selena, em várias posições e nos mais admiráveis lugares. Embaixo de cada fotografia, se podia ler: "Minha amiga maluquinha", ou "Minha melhor amiga" em lugares como Suíça, Los Angeles e Índia. As demais fotografias eram com outras pessoas e também dos artistas favoritos de Isabella.
 A outra cama, na frente, era de Selena. Era um exagero de rosa. Sua cama parecia ser uma das maiores e com um edredom rosa claro, com algum detalhes de borboletas ao lado. Havia mesinhas de cabeceira dos dois lados de sua cama, e um armário branco ao lado, que estava infestado de livros nas prateleiras. Em uma mesinha, havia uma fotografia muito grande de seu pai, Jayden Gomez. E na outra, uma foto dos dois em Londres, na frente de um hotel muito chique. As gavetas estavam repletas de maquiagens, e de outras coisas, como acessórios postos em várias caixas e suas bolsas.
 A terceira e última cama, e a que estava mais distante, era igualmente bonita como as outras. Seu edredom era um toque de verde claro, igualmente a parede atrás. Aquela cama parecia ser um pouco melhor, mas parecia mais confortável. Em sua mesinha de cabeceira estava um abajur sofisticado e a cama estava em perfeitas condições, como se ninguém estivesse estado nela por um tempo muito longo. Havia um tapete felpudo a frente desta, muito branco. Não haviam fotos e nem nada na parede atrás, como se a pessoa que estivera ali tivesse ido embora.
 As paredes do quarto eram impressionantes. Havia apenas um papel de parede cobrindo tudo, e eram com o desenho de nuvens. Nuvens em um céu azul, e era muito decorado com pisca-piscas por toda parte, um verdadeiro varal de pisca-pisca. No lado direito do quarto, havia uma pequena escada em caracol que levava para outra parte de cima do quarto, igualmente com pisca-pisca e o papel de parede com nuvens. Os degraus eram brancos, assim como o corrimão. A parte de cima do quarto era pequena e nada comparada com a magnitude da parte de baixo, mas bastava para apenas 3 pessoas. Lá haviam um closet gigantesco, que empilhavam tantas roupas que era capaz de morrer axificiado lá dentro. A maioria eram de Selena, é claro. Haviam também outros armários, mas menores e feitos apenas para guardar malas e etc. Ao lado do closet, na beira do andar de cima, havia um espelho gigantesco na parede, que pegava do chão ao teto, enfeitados ao lado por mais pisca-pisca e sua borda era cor-de-rosa. A sua frente, havia uma mesa de madeira branca com muitos perfumes e maquiagens, junto com uma cadeira de veludo preto. Selena passava a maior parte do dia ali.
 Embaixo da escada, presa á parede, havia uma TV de 60 polegadas, mas quase nunca era usada pelos estudantes, e também servia para o diretor dar avisos sem ter de sair de seu gabinete.
 Todos os dormitórios eram iguais em sua planta, e os alunos agradeciam por poder decorá-los a sua vontade.
 Selena continuava colocando suas roupas delicadamente dentro de sua mala em cima da cama, como se fossem coisas de quebrar. Seu notbook da Apple branco estava aberto e ligado em de cima de sua cama, uma página aberta sobre as ilhas do Caribe.
 Selena parecia pronta pra sair. Usava uma calça jeans preta de cintura alta com uma blusa rosa solta de mangas. Calçava tênis vans vermelhos e seu cabelo solto leve.
 Isabella não parava de encarar a amiga. Selena não parava de sorrir, só de imaginar que veria o pai. Ela agora arrumava a mala mais depressa, pois já estava sabendo que o pai estava ali na escola naquele momento, na sala do diretor. Selena sabia que era sobre ela que eles conversavam, sua travessura do dia anterior, mas não deixou isso abater sua excitação da viagem de férias.
 Isabella também estava pronta pra sair. Usava uma camiseta cinza de mangas e shorts jeans, com seu cabelo ruivo preso em uma presilha atrás da cabeça. Seus olhos azuis pareciam mais fortes naquele momento, sob a luz dos pisca-piscas.
 Isabella pigarreou, se virando para Selena.
 — Você não acha estranho o seu pai ter vindo falar com o diretor e não ter passado aqui pra te ver? — falou, dando de ombros.
 Selena sorriu.
 — Não. — respondeu ela.
 Ela pegou a fotografia do pai em cima de sua mesinha de cabeceira e deu um beijo.
 — Esse é o jeito dele de me dizer que está zangado. Mas eu acho que no avião eu vou levar uns 2 minutinhos pra ele ficar calminho. — as duas riram enquanto Selena se sentava em sua cama bagunçada de roupas.
 De repente a porta se abriu num baque, e Selena e Isabella arregalaram os olhos. Joe e uma garota estavam atracados aos beijos como dois leões ferozes. Ele segurava a cintura da garota com força enquanto apertava sua bunda com a outra mão. A garota era uma loira colossal com olhos muito azuis, e Selena a reconheceu na hora. Ela vestia um vestido roxo curto e soltinho, com uma blusinha de frio branca que estava puxada até os cotovelos. Joe parecia colocar as mãos por baixo do vestido da garota.
 Quando finalmente notaram que não estavam sozinhos, a garota olhou constrangida para Selena e Isabella, que continuavam imóveis e se seguravam para não rir. Joe coçou a cabeça. Não parecia nada envergonhado com tudo aquilo.
 A garota rolou os olhos pelo quarto e juntou as sobrancelhas.
 — Quem fez isso no meu quarto?! — ela arfou, vendo que haviam roupas de Selena espalhadas por toda parte — Deve ter sido você, não é? — ela apontou para Selena, com desprezo.
 — Ai, calma! Não se estressa. — Selena mal parecia ouvi-la, estava ocupada demais com sua mala — Olha, em vez de ficar reclamando, porque você não dá um trato no seu cabelo? Porque, me desculpe, mas essas pontas estão horríveis. — ela soltou uma risada — Não fica zangada.
 A garota olhou para Selena com profundo ódio.
 — Sabe que eu não te suporto? Eu vou agora mesmo pedir que me mudem de quarto!
 E ela saiu, batendo os pés e bufando de raiva, tanto que nem percebeu que Joe continuava parado a porta, apenas observando a cena.
 — Espera aí... — tentou Isabella, mas a garota já tinha ido.
 Selena parecia ter uma expressão de choque.
 — Você viu? Que garota estranha. — ela levantou o cenho.
 — É, Selena, exagerou. — falou Joe, pela primeira vez. Ele cruzou os braços e se aproximou da cama de Selena — Sinceramente, eu acho que não é bom você armar um escândalo depois do que fez ontem.
 Selena deu um sorriso sarcástico ao garoto, e se levantou.
 — Quer saber de uma coisa? Acho bom não esquecer que estou acima do bem e do mal. — ela piscou, ficando de frente pra Joe.
 — É mesmo? — ele deu de ombros, se aproximando mais de Selena. Ou melhor, de seus lábios — Mas se você for expulsa, como é que nós vamos ficar juntos?
 Selena soltou uma gargalhada e se virou para Isabella.
 — Que lindo, não é? — ela apontou para Joe — Sabe qual é o problema, fofinho? Eu não tenho vocação pra babá. Entendeu, bebezinho?
 — Bebê? — ele fez uma expressão sem entender enquanto Isabella ria da cena.
 Antes de Selena falar algo, seu próprio pai entrou no quarto. A garota soltou um gritinho e correu até ele.
 — Papai! — ela o abraçou — Eu pensei que era o William que viria!
 Jayden olhou para os outros no quarto.
 — Podem nos deixar a sós, por favor? — pediu ele, em tom seco.
 Joe rapidamente disse "É claro, com licença" e se retirou do quarto, lançando um último olhar sedutor para Selena. Isabella largou as roupas de Selena em um canto e deu um abraço em Jayden antes de sair.
 — Pai, que bom que você veio! — Selena estava vibrando de felicidade — O que aconteceu?
 — Aconteceu uma coisa muito grave, filha.
 O sorriso de Selena murchou por alguns segundos, tentando assimilar a situação.
 — Ai, que cara séria é essa? — falou ela, pensando que era uma bobagem — Porque você não me ajuda a arrumar a minha mala? — ela foi até a cama novamente, sorrindo — E na viajem você me conta tudo com calma, vamos ter muito tempo...
 — Não vai ter mais viajem, Selena!
 Selena parou abruptamente, piscando os olhos.
 — Esqueça as férias. — Jayden suspirou.
 Selena continuava chocada. Era como se o pai tivesse dito que iria cancelar seus cartões de crédito pra sempre, mas muito pior do que isso.
 — Como assim? — a voz da garota falhou.
 Jayden olhou para a filha com certa pena, mas logo essa expressão passou. Ele era bom quando se tratava de ser duro com Selena na hora certa, não importava a cara de choro que a garota fizesse.
 — É o castigo pelo que você fez. — explicou Jayden.
 Selena torceu os dedos, ainda encarando o pai. Ela não viu nenhuma compaixão ou pena, e sua desconfiança de que ele nunca quisera passar o tempo dele com ela só crescia. Ela sabia que havia feito uma burrada na noite anterior, mas acreditava que o pai havia pedido aquilo, por não cumprir sua promessa.
 Seus olhos começaram a ficar marejados. Ela simplesmente não sabia o que dizer.
 — Mas... — ela balançava a cabeça — Pai, mas... Eu nunca vejo você, pai. — ela se aproximou dele — Nem nos fins de semana você está comigo. — ela soluçou — Pai, porque não amarra um lacinho em mim e me dá de presente?
 Jayden suspirou. Ele já previa a reação de Selena antes mesmo de pronunciar as palavras.
 — Não. — ele balançou a cabeça negativamente — Faço isso pro seu bem. Você tem que aprender a respeitar as normas.
 Uma lágrima rolou de seu rosto. Ficar na escola durante as férias? A viajem tão esperada as ilhas do Caribe não aconteceriam mais? Era isso?
 — Se não me levar... — sua voz estava completamente embargada — Eu não vou te perdoar nunca. — ela trincou os dentes.
 Jayden baixou os olhos, como se a conversa já tivesse acabado pra ele.
 — Eu sinto muito. — ele sussurrou — É uma lição que eu tenho que te dar, ainda que me doa. O que você fez foi demais, Selena. Fez um papel ridículo no colégio, deixou o diretor com vergonha, e...
 — Ok, ok, eu sei! Isso importa muito. — ela enxugou o rosto com as costas da mão — Mas eu fiquei te esperando, pai. Eu preparei uma coreografia pra você. Eu estava esperando você chegar pra me ver e você não chegou. — ela bufou, agora chorando alto — Mas você se importa mais com o ridículo, não é? Se importa mais com o ridículo do que com os sentimentos da sua filha! — ela aumentou o tom de voz.
 Jayden permanecia quieto. Não sabia o que dizer, mas o que mais diria? Pra ele, o assunto já estava encerrado.
 — Você sabe o que eu senti? — continuou Selena — Eu te esperei horas, pai, e você nem apareceu!
 Selena agora sentia raiva. Ela sabia exatamente que aquela não era a primeira vez, ela já até perdera as contas de quantas vezes seu pai já havia lhe dado esse tipo de furo. A garota enxugou o rosto mais uma vez e saiu do quarto o mais rápido possível.

 Demi saiu do táxi na Brentwood, perto da Getty Center, já que ela e a mãe ainda estavam em Los Angeles. Ela pagou algumas notas para o motorista, que se mandou rapidamente. Demi inspirou e colocou seus óculos escuros, se sentando em um banco verde de mármore em uma das calçadas. Demi vestia uma blusa azul-marinho sem mangas com um colete azul-claro preso, com uma calça jeans clara e sapatilhas.
 Ela não parecia ser uma turista naquela região da cidade, parecia mais estar esperando uma pessoa.
 Demi verificava o celular constantemente, e também olhava para os lados como se estivesse sendo observada. Quem olhasse, achava que estava fugindo de algo.
 De repente, no final da rua estreita, um carro apareceu. Era um carro incrível, totalmente do ano e com certeza chamava a atenção pra quem o visse. Parecia um dos carros caros das propagandas da TV, mas Demi não pensou nisso quando ele estacionou bem a sua frente.
 A porta de trás abriu e uma figura apareceu. Uma figura de barba rala e cabelos levemente cacheados, posto num terno de grife. O pai de Demi.
 Ao vê-lo, Demi se levantou entediada.
 — Queria falar comigo? — disse ele, se aproximando da menina — Bem, eu estou aqui.
 Demi não sabia como cada palavra que saía da boca daquele homem pudesse irritá-la tanto, então não fez esforço algum para parecer gentil.
 — Escuta aqui...
 — Por favor, filha. — ele suspirou, se arrependendo de ter pensado por um segundo que Demi o trataria bem — Não faz assim. Eu sou o seu pai.
 — Ah, é? Não me diga. — ela deu uma risada irônica — Já tinha esquecido, eu não vejo você.
 — Minha filha, por favor...
 — Me chame de Demi, os estranhos me chamam assim! — ela bufou, não vendo a hora de se mandar daquele lugar — E se quer que eu vire freira, deixa eu te dizer que...
 O homem olhou para Demi confuso.
 — Não, não. — ele balançou a cabeça — É um internato, não é um convento.
 — Pra mim dá na mesma, ok? Esquece! Não vou aceitar.
 — Olha, você é muito nova pra entender, mas quando for adulta vai entender e me agradecer. — ele deu um sorriso fraco.
 Demi revirou os olhos. Não chegariam a lugar algum com aquela conversa. Aquele sujeito não iria se opôr tão fácil, e se ele desistisse, ela teria que ir pra Europa, custe o que custar, com aquele mesmo sujeito. Ela não podia acreditar no que aquilo estava se transformando.
 Demi estava tão atônita que não havia percebido uma pequena confusão com os policiais bem na frente do carro do pai. O motorista, um homem jovem bonitão e musculoso de cabelos negros, discutia com dois policiais a sua frente. Um deles era alto e magro, com cabelos claros e olhos azuis. O outro era moreno, com a pele escura e cabelos black-power. Ambos discutiam com o motorista bonitão que parecia ser cego para não enxergar a placa de "não estacione" bem em frente a calçada.
 Seu pai não parecia estar percebendo nada daquilo, mas Demi teve uma repentina ideia. Seria loucura, é claro. E por isso mesmo ela iria colocar em prática.
 — Tem razão. — ela disse repentinamente, se virando para o pai, em um tom doce e meigo — Pai... — ela o abraçou forte pelo pescoço, enterrando o rosto em seu peito — Senti muito a sua falta, pai!
 O homem não sabia o que fazer, mas não podia esconder que estava feliz. Abraçou Demi imediatamente, com um sorriso no rosto.
 — Eu também, minha filha. — ele sorriu, acariciando os cabelos de Demi.
 — Me abraça forte. — Demi pareceu esganar o homem, que pareceu não sentir nada, tamanha era a felicidade — Me dá um beijo. — ela choramingou.
 — Claro! — ele sorriu, dando um beijo em sua testa — Eu te amo, meu amor!
 E de repente, Demi fez algo inacreditável.
 — Ai, me solta! — ela berrou, empurrando o homem com tudo pra longe com um grande soco.
 Seu pai a olhou espantado.
 — Seu velho, safado, imundo! Seu estúpido! ME SOLTA, ME SOLTA!
 Ela berrava, e o homem não sabia o que fazer. Como previsto em seu plano, os policiais rapidamente apareceram a seu lado, deixando o motorista do senhor Lovato muito aliviado por não receber uma multa.
 — O que está havendo aqui? — perguntou o policial de olhos azuis. Ele olhava de Demi para o pai, com uma expressão confusa.
 — Nada, eu não fiz... — tentava dizer o senhor Lovato.
 — Esse velho queria abusar de mim! Seu estúpido! — Demi gritou, apontando para o pai, a raiva espumando dentro de si.
 Um dos policiais, o mais escuro, por um momento olhou espantado para o homem e depois para Demi. Pela sua expressão, até ele não sabia o que fazer nem dizer naquele momento. Demi estava histérica, nada parecia muito nexo.
 — Ér... Vamos, senhor. — disse o policial, pegando em um braço do senhor Lovato.
 — Esperem, eu posso explicar! Não é nada disso, ela é minha filha! — ele falou alto, ainda chocado pela atitude de Demi, enquanto ia sendo arrastado para uma viatura na esquina — Demi, explica pra eles... DEMI!
 Só que Demi não estava mais lá para escutar nada. A garota já havia entrado no primeiro táxi que passara pela rua, e estava gargalhando. Sabia que seu pai não chegaria nem perto da delegacia, ele tinha os melhores advogados do mundo, mas além disso ele tinha dinheiro. Mesmo assim, a ideia da tremenda diversão não saía da cabeça da garota.

 A Academia Yancy estava cheia naquele momento. Todos os alunos que sairiam de férias com os pais começavam a se retirar da escola naquele momento, o que era uma multidão. Vários carros esperavam nos portões da instituição naquele momento, vários pais esperando os filhos com malas e sorrisos no rosto.
 A secretária, a loira dos óculos enormes, andava pela escola na multidão com uma mulher a seu lado. Hoje ela vestia calças jeans e uma blusa de mangas compridas, as quais ela havia enrolado até os cotovelos. Estava com os cabelos presos em um rabo-de-cavalo e seus olhos pareciam mil vezes maiores daquele jeito.
 A mulher a seu lado era alta e magra, com cabelos pretos cheios e olhos azuis. Ela era linda, e traços em seu rosto mostravam que ela se aproximava da velhice. Mesmo assim, a mulher vestia um vestido preto de alcinhas com a parte inferior florida, com sapatilhas pretas. Parecia bem humilde, a julgar que ficava impressionada a cada coisa que a secretária lhe apontava.
 As duas andavam pela escola vagamente, a secretária parecia muito bem estar apresentado a escola para a mulher, que como disse, ficava impressionada a cada detalhe.
 — E este corredor vai dar numa área dos dormitórios. — ela apontou para um corredor largo e estreito — É claro, as mulheres e os homens estão bem separados, como deve ser. — ela deu um sorriso simpático — Na Academia Yancy temos três objetivos fundamentais: disciplina, excelência acadêmica e respeito.
 Agora as duas se aproximavam do corredor central. Era uma área bastante larga. As paredes eram revestidas de pedra rústica. No meio do corredor havia uma estrutura de mármore negro colada ao chão, como um retângulo aberto. Vários alunos se sentavam ali nos intervalos das aulas, sua espessura era do tamanho de uma pessoa, assim tinham uns que até se deitavam no mármore gelado.
 Para todo lado que se olhava, viam-se corredores para as diversas direções. Para as salas de aula, os dormitórios ou para sair da escola. Haviam banquinhos de veludo vermelho presos ás paredes em toda parte, e as janelas de vidro eram gigantescas, o que dava para ver o campus lá fora. No lado direito, havia uma escada enorme e branca, que levava para outras salas de aula e dormitórios no segundo andar. Havia escadas espirais dos dois lados, cada uma levando para mais salas e dormitórios diferentes. Colados ás paredes tinham os armários, todos em um tom forte de azul.
 A mulher ao lado da secretária ficava impressionada com tudo, parecia uma criança entrando na Disneylândia pela primeira vez.
 — Escute, eu quero perguntar uma coisa. — a mulher falou pela primeira vez — O que me interessa saber sobre a bolsa?
 A secretária abriu um sorriso alegre, como se tivesse prazer ao falar daquele assunto.
 — Ah sim. A cada ano, um grupo de jovens de poucos recursos tem a oportunidade de entrar pro nosso colégio. Eles fazem uma prova muito rigorosa, porque temos de ter certeza de que tem o nível intelectual adequado. — ela disse, ajeitando os óculos enormes.
 — Na realidade, eu não tenho...
 — Emma! — gritou uma voz feminina.
 A secretária rapidamente se virou ao ouvir seu nome. Uma garota loira descia as escadas em passos pesados, usando um vestido roxo, com a expressão de tremenda. Era a garota do quarto de Selena.
 — Eu quero que você me mude de quarto! — ela falou alto ao chegar perto de Emma com a mulher — Eu não suporto a Selena! Quem ela pensa que é, aquela vadiazinha? A rainha da Inglaterra?
 Emma colocou as mãos na testa, entediada. A garota ainda a olhava com raiva, esperando uma resposta. Emma olhou de soslaio para a mulher a seu lado, que permanecia calada, e ficou completamente constrangida.
 — Tudo bem, minha querida, arrume suas coisas, depois conversamos. — ela deu um sorriso forçado para a garota, como se a mandasse embora só com a força dos olhos.
 — Acho isso o cúmulo, sabia?! — ela gritou pela última vez antes de se retirar.
 Emma deu um riso sem graça ao se voltar para a mulher.
 — Aqui os alunos se sentem como se estivessem na casa deles. — ela deu um sorriso amarelado.
 — Tudo bem. — a mulher riu.
 — Além disso, nas férias oferecemos aos alunos o Club de Vacaciones. — ela sorriu.
 A mulher a olhou confusa.
 — O que é isso?
 — É o nosso clube de férias. É um lugar onde os alunos descansam e vão se conhecendo uns aos outros antes de começarem o ano letivo. — a mulher assentiu — Eu me refiro aos alunos novos, como a sua filha.
 A mulher hesitou, como se estivesse incomodada.
 — Bom... Ela não é minha filha. — ela deu um sorriso fraco — É minha sobrinha, mas eu a amo como se fosse minha filha realmente.
 — Sim, claro. — Emma assentiu — Bom, venha por aqui.
 As duas seguiram por mais um corredor estreito, quando pararam no meio do caminho.
 As duas deram de cara com o deputado Collins e sua esposa, que como sempre, estavam cercados por no mínimo dois seguranças. Emma sentiu náuseas. O senhor Collins estava como sempre: barrigudo e carrancudo, com seu inseparável charuto. Sua mulher, uma jovem alta e escultural loira de cabelos encaracolados e olhos azuis com metade de sua idade, estava usando um vestido caro preto de setim, com seu inferior florido de verde. Seu salto era enorme.
 Ela também fumava um cigarro, o que fez Emma se controlar para não mandá-los pro inferno.
 — Com licença, Emma. — disse a mulher, dando um sorriso animado que não foi correspondido pela secretária — Onde podemos encontrar o Joezinho?
 Ah, claro, estavam procurando o filho. Não pisavam no colégio para fazer outra coisa, afinal.
 — Acredito que esteja no quarto dele terminando de arrumar as coisas. — respondeu Emma educadamente.
 — Que sapatos lindos! — exclamou a mulher com Emma, falando pela primeira vez. Ela apontou para os sapatos da primeira-dama, como se estivesse se segurando desde que a vira.
 A mulher deu um sorriso anormalmente largo.
 — Muito obrigada! — ela piscou para a mulher, com certeza mostrando bem sua capacidade e condição de comprar sapatos caros.
 Emma bufou.
 — Podem ir ao quarto, por favor! — ela interrompeu o começo de um diálogo chato e melancólico sobre os sapatos italianos da esposa de Collins e apontou para a escada da esquerda — Já sabem onde é.
 — Com licença. — disse o senhor Collins, puxando a mão da esposa e desaparecendo escada acima.
 A mulher ainda parecia atônita com os sapatos da primeira-dama, e os seguiu com os olhos até desaparecerem na escada.
 — Aquele não é Michael Collins, o deputado? — ela pareceu "acordar" de repente.
 Emma revirou os olhos.
 — Ér... Venha por aqui, por favor. — ela puxou o braço da cliente, que ainda virava o pescoço para poder olhar melhor o deputado.
 — Como é lindo, não é? — ela murmurava enquanto seguia Emma pelos corredores.

 O deputado e sua esposa se aproximavam do quarto de Joe, mas o local estava completamente vazio. Naquele mesmo momento, Joe atropelava algumas pessoas no caminho enquanto praticamente corria para a saída da escola. Sabia que iria ter que viajar para não sei onde com o pai para mais uma campanha eleitoral, e ele de repente ficara apavorado com a ideia de perder suas férias com coisas tão fúteis. Isso não entrava em sua cabeça.
 Ao chegar no estacionamento, Jacob já estava lá, encostado na porta do táxi que os esperava. Joe ajeitou a mochila nas costas e correu até o amigo.
 — Ninguém me viu. — ele disse, arfando.
 Jacob sorriu.
 — Muito bem, vamos nessa. — ele abriu a porta do carro, entrando no táxi pela porta do carona. Joe rapidamente entrou no banco de trás e o motorista cantou pneu no estacionamento.

 O dormitório de Joe estava intacto, como se ninguém nunca tivesse pisado nele. O dormitório tinha a mesma planta que todos os quartos do colégio, com a mesma escada no fundo que leva aos closets e a TV enorme. A diferença era apenas a decoração. As três camas tinham o mesmo edredom azul-marinho, e uma mesinha-de-cabeceira ao lado de cada cama. As paredes eram pintadas de preto, com vários postêrs de carros e mulheres colado e o teto era branco, pendendo uma luminária gigantesca. A primeira da frente sem dúvida era a de Joe. Em sua mesa, havia apenas um abajur. Na parede acima da cama havia apenas um retrato de Joe segurando um violão nas costas, e em outro havia ele e Jacob segurando pranchas de surf na praia de Malibu. Nada de retratos de família.
 A outra cama, na frente da primeira, era a de Jacob. Em sua mesinha estava um notbook fechado e uma luminária pequena. Em uma das gavetas havia uma revista da Playboy, mas isso não era novidade pra ninguém. Ao contrário de Joe, no mural de fotos de Jacob haviam várias. Fotos com a família e muitas com Joe. Retratos de shows e eventos musicais ao qual ele havia ido, shows como de Beyoncé e Maroon 5 enfeitavam a parede, vários com sorrisos do garoto estampado.
 A terceira cama, a mais distante, estava vazia. Não havia nada na mesa e nada nas paredes. Se alguém ocupava aquele lugar, aparentemente não ocupava mais.
 No armário gigante perto da cama de Joe, havia uma fila de CDs e um iPod jogado. Havia um aparelho de som um pouco velho, e uma das extremidades do armário havia um papel colado escrito em letras exasperadas: vote em Collins!
 Michael ficou apreensivo ao ver o quarto vazio. Podia ver a mala de Joe em cima da cama do garoto, mas onde ele estava?
 Antes de ter tempo para se irritar, um garoto chegou até ele. Ele tinha os cabelos muito loiros espichados e olhos castanhos. Era magrelo e desengonçado. Parecia apavorado de estar chegando perto do deputado.
 — Senhor Collins? — ele murmurou.
 Michael olhou pro garoto.
 — Sim?
 — Aqui tem um recado. — o garoto estendeu um fino pedaço de papel — O Joe que deixou.
 Michael pegou o papel confuso, como se fosse uma bomba.
 — O Joe que deixou? — ele disse, ainda confuso. O garoto apenas assentiu, e foi se afastando — Que estranho.
 Michael deu mais uma tragada no charuto antes de ler o bilhete. Ao terminar, sua expressão era de raiva e completa decepção. Sua mulher olhava o marido, esperando uma resposta.
 — É o cúmulo. — ele bufou, apertando o papel com tanta força que quase o amassou.
 — O que? O que ele escreveu? — perguntou ela, ansiosa.
 Ele a encarou, como se quisesse matá-la só por fazer ele ter que ler o maldito recado de novo. Por fim, ele recitou:
 — "Pai, mãe... Eu fui embora. Não importa pra onde. Não se preocupem, eu sei me virar sozinho. Depois eu ligo." — Michael bufou, amassando o papel.
 Sua esposa estava de olhos arregalados.
 — Ele fugiu! — disse ela, com a voz falha — Ah não...
 — Calma, não se preocupe. — ele tentou acalmá-la, olhando para o bilhete amassado em suas mãos. Pensava em todas as maneiras possíveis de matar Joe, porque ele com certeza estava muito encrencado.

 Em algumas horas, Joe e Jacob estavam na Califórnia. Pra ser exato, estavam em Salinas, uma cidadezinha do estado meio parada e monótona. Eles não queriam saber, só queriam passar um tempo fora da Yancy e daqueles rostos que estavam enjoados de ter que encarar. Joe sabia que estava encrencado até o pescoço, mas naquele momento aquilo era o de menos.
 Finalmente, haviam chegado a seu destino. A casa de Jacob já estava sem graça pra Joe, de tanto que estivera ali, mas estava vazia, o que tornava tudo melhor.  (casa)
 Eles entraram e se acomodaram. A casa estava vazia, exceto pela empregada, que delas eles não poderiam fugir.  Ela era uma mulher jovem com cabelos lisos até os ombros cor de caramelo e uma pele bronzeada. Na opinião dos garotos, sim, era bastante gata. Mas não se atreveriam.
 A tarde se arrastava devagar. Joe e Jacob já haviam curtido na piscina, bebido tudo que tinham direito, e não podiam deixar de fora a diversão principal. Joe e Jacob eram amigos desde sempre, por isso não tinham segredos. Joe pegou a maconha da mochila, uma coisa que ele usava de vez em quando, já que passava a maior parte do tempo em uma prisão. Ele e Jacob "usavam" a pouco tempo, aquilo os ajudava a relaxar, ao que diziam.
 Os garotos estavam sentados nas cadeiras da varanda principal da casa quando a empregada foi até eles, com o telefone na mão.
 — Ér... É do colégio. — ela colocou o telefone em cima da mesa — Com licença.
 A empregada se retirou e o coração de Jacob pareceu virar chumbo. Ele e Joe se entreolharam, parecendo pensar a mesma coisa. Eles estavam na Califórnia, como os haviam descobrido?
 Joe rapidamente pegou o telefone, colocando as mãos no lugar onde podiam os ouvir.
 — Ah, não, cara. Agora vai dar merda! — Jacob sussurrou, começando a ficar nervoso.
 — Atende você. — falou Joe, estendendo o telefone para Jacob.
 — Como assim, cara? Não!
 — Jacob, por favor! — Joe trincou os dentes. Jacob continuava relutando — Jacob, por favor, é o meu pai, ele quer saber onde eu estou!
 Jacob olhou do telefone para Joe, e em seguida pegou o objeto da mão do garoto, relutante.
 — Cara, isso vai dar a maior merda da história. — ele pegou um guardanapo das mesas na beira da piscina e abafou a entrada de som. Em seguida, ele deu umas tossidas e falou em uma voz grossa e diferente: — Alô, boa tarde... É, sim, ele não se encontra... Não, ele não está aqui... Jacob chegou aqui a umas 4 horas... Sim, com muito prazer... Boa tarde. — Jacob desligou o telefone, mas não o tirou da orelha — Sim... Joe Collins está aqui, quer que eu passe pra ele?
 Joe escancarou a boca e deu um empurrão em Jacob, completamente apavorado.
 — O que está fazendo?! — ele "gritou" em sussurros.
 Jacob retirou o telefone do ouvido e explodiu em risadas. Joe entendeu a brincadeira e o olhou sério, com a mão no peito, dizendo o quanto Jacob fora sem graça e assustador com a brincadeira.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Depois da Chuva - 03

“Eu ligo. Ela atende. Eu quase choro de gratidão do meu lado da linha. Ela gentilmente sugere que eu morra.” — Gabito Nunes.

  Sophia parecia ainda mais aturdida com Demi. Achava que já estava acostumada com esse comportamento rebelde da filha, mas percebia que ela só se surpreendia.
Mesmo sem querer, todos do estúdio já acompanhavam a discussão das duas. Demi, vestida em um roupão rosa, enquanto o rosto de Sophia ficava cada vez mais vermelho.
— Vai botar uma roupa. — Sophia mandou mais uma vez, dessa vez trincando os dentes.
Demi agiu como se não tivesse escutado.
— Eu já disse que não vou, mãe. — ela jogou o roupão no chão e cruzou os braços, decidida a não obedecer.
Sophia colocou as mãos na cabeça. Seu rosto transparecia o próprio desespero.
— Você quer acabar com a minha carreira. — ela arfou — Com a minha vida inteira, filha. — ela olhou para o fotógrafo e imediatamente correu até ele — Fofo, por favor, diz pra ela que não pode sair assim como uma ordinária! Isso vai ser um escândalo! — ela deu bastante destaque á palavra "escândalo".
— Ah, fala sério. — Demi resmungou.
Para surpresa de Sophia, o fotógrafo sorriu.
— Vai ser um escândalo, o que nos daria muito dinheiro! — os olhos dele pareceram ganhar um brilho diferente, muito ambicioso — Eu acho que devemos fazer as fotos.
Sophia ficou boquiaberta, completamente pasma. Demi murmurou um "Está vendo, mãe?" e riu da situação. Sophia olhou em volta pela primeira vez e viu que todos sorriam, provavelmente concordando com o fotógrafo. Estiveram se divertindo com a situação o tempo todo.
— Como você quer que eu pose? — disse Demi após se sentar na poltrona onde sua mãe estava, fazendo várias poses mal feitas e biquinhos para o fotógrafo.
— Eu quero você bem natural, Demi. — ele sorriu, parecendo achar aquilo o máximo — Vamos fazer uma coisa com as duas, vão ficar lindas!
Ele começava a ajeitar a câmera em seu pescoço enquanto Sophia continuava imóvel.
— Lindas e sorrindo pra câmera. — ele disse mais uma vez.
Depois de algum tempo, Sophia finalmente se moveu e se livrou do choque de ser contrariada. Ela se sentou na poltrona branca com Demi atrás do cenário e, aos poucos, as duas se soltaram e fizeram fotos realmente magnificas. Apesar de serem bastante diferentes, não se podia negar algumas semelhanças entre as duas. O mesmo nariz, o mesmo sorriso contagiante, e as duas eram extremamente lindas, apesar de Demi ser um pouco "da pesada".
A tarde que se seguiu arrancou muitas risadas das duas, que souberam conviver bem sem mais nenhuma briga. E, de acordo com todos do estúdio, as fotos estavam belíssimas. Com o tempo, Sophia havia esquecido completamente de como Demi estava vestida.

  O clima estava meio tenso para Nick após ele saber que sua casa finalmente fora vendida. Apesar de saber que se mudariam para um apartamento pequeno e que suas dívidas seriam pagas, ele já perdera as contas de quantas vezes havia andado sobre aqueles cômodos nas horas que se seguiram, tentando absorver cada detalhe que ela lhe dava, cada lembrança de tudo que havia passado ali. Não seria fácil esquecer, não estava sendo fácil deixar tudo.
Já era quase noite quando Nick estava na garagem, sentado em cima da moto de seu pai, que agora era sua. Era uma moto belíssima, não era de última geração, mas tinha uma beleza incrível. Ele e o pai a haviam consertado juntos, para que fosse de Nick no futuro. Isso já faz tempo, mas a memória ainda continuava viva.
Ele examinava a corrente de prata que havia na moto. Não era bem uma corrente, na verdade era um cordão que era de seu pai, que agora estava no chaveiro. O cordão era de prata e havia um pingente nele, como uma esfera prateada com algumas linhas que passavam por ela. Era raro os dias que Nick andava sem ela no pescoço.
Absorto demais em seus pensamentos, Nick não percebeu a chegada de sua mãe a seu lado.
— Lembra muito do seu pai, não é? — falou ela.
Nick não se assustou e nem se mexeu ao ouvir sua mãe. Parecia hipnotizado olhando a correntinha.
— Vou vender a moto. — disse ele finalmente.
A sra. Jonas cruzou as sobrancelhas, como se Nick tivesse falado outro idioma.
— Não, meu filho, você não precisa vender a moto. Com o que recebi pela casa, temos dinheiro suficiente pra pagar as coisas aos poucos. — sua voz não era convincente, mas foi bem objetiva.
Nick bufou, e se virou para olhar a mãe pela primeira vez.
Nick tinha a expressão cansada, como se estivesse naquela garagem o tempo todo sem comer.
— Eu vou estudar em Nova York, mãe. — disse ele, em tom completamente firme.
A mulher revirou os olhos, como se já tivesse escutado aquilo mil vezes.
— Você insiste nisso. — ela suspirou — Nick, agora eu não posso pagar uma universidade, mas também não vou poder se você for embora!
— Mãe, com o dinheiro que eu receber pela moto, posso conseguir uma bolsa. — seus olhos brilhavam, parecia que ele pensava em tudo imediatamente, como se tivesse pensado naquilo a tarde toda.
A sra. Jonas bufou com certa impaciência.
— Meu filho, entenda, mesmo se você vender a moto, isso não vai solucionar nenhum problema. Nova York é um lugar perigoso, eu não quero que...
— Mãe, já falamos sobre isso mil vezes! — Nick aumentou o tom de voz, se levantando da moto.
A sra. Jonas pareceu avaliar o rosto do filho. Raramente havia visto Nick tão determinado a fazer algo, principalmente nos últimos anos.
— É por isso, filho. Porque já falamos sobre isso mil vezes, e eu não entendo porque insiste em ir embora! — disse ela. Nick bufou — E já tinha me falado que queria estudar em Harvard, você recebeu a carta, porque de repente mudou de ideia e quer ir pra Nova York?
Nick apertou os lábios e pensou nas próximas palavras a dizer. Ele não sabia ao certo. Só conseguia pensar que algo muito mais forte o perigoso o puxava a Nova York, além de simplesmente estudar. Mas ele queria ir, estava tão motivado a isso que era capaz de passar por cima de todos!
— Mãe... A gente muda de opinião. — Nick deu de ombros, como se aquilo fosse a coisa mais óbvia do mundo — Eu já disse que posso conseguir uma bolsa.
— Mas você já está praticamente dentro da Universidade de Harvard. E também, se quiser, pode conseguir uma bolsa aqui. — ela deu um sorriso fraco, que logo sumiu, enquanto passava os dedos no rosto do filho — É muito mais fácil.
Nick abaixou a cabeça. Não pensou que seria fácil. Mais um sofrimento a sua frente não seria fácil, mas ele só sabia de uma coisa: estava determinado. Estava decidido. E mais do que nunca, estava pronto.
— Então ainda não concorda comigo? — disse ele, olhando diretamente nos olhos da mãe.
— É. — ela assentiu com a cabeça — E tenho certeza de que seu pai também discordaria.
Nick sentiu como se novamente apertassem seu coração. A sra. Jonas nada mais falou e subiu novamente para casa, deixando Nick novamente sozinho.
Mas agora ele não queria pensar em mais nada. Ele sabia exatamente o que fazer. Parecia que tudo o que havia pensando passava por sua mente naquele momento, como se seu plano fosse o mais perfeito de todos. Sua mente se aguçou de forma impressionante e ele de repente tinha um caminho a seguir. Pela primeira vez em muitos anos, ele sabia pra onde ia.
Ele ia pra Nova York. Nada o impediria, nem mesmo sua mãe. Era lá. Era lá que ele estava. Era lá que o assassino que arruinou a vida de Nick e sua família estava.

Demi e Sophia pareciam esgotadas depois de tantos sorrisos e flashes. Demi mais do que Sophia, é claro. As duas ainda riam ao final do ensaio, e todos pareciam bem satisfeitos com o desempenho das duas. O fotógrafo estava mais feliz do que nunca, ele não parava de olhar a câmera e admirar as duas divas que havia fotografado.
Demi se virou para Sophia enquanto esta se olhava no espelho mais uma vez e perguntou:
— Mãe, será que podem me trazer um refrigerante?
— Xiu! Fica quietinha, criança, a estrela aqui sou eu. — respondeu Sophia, mexendo nos cabelos loiros em tom de deboche para a filha.
Demi apenas riu e se sentou na outra poltrona, achando tudo aquilo mais divertido do que pensava.
De repente, a morena assistente de Sophia entrou outra vez no estúdio, a qual havia sido. Ela foi diretamente ao fotógrafo, com uma expressão não muito boa.
— Com licença, desculpe interromper. — ela falou baixo, apenas para que o fotógrafo a olhasse — Temos problemas.
Ele revirou os olhos, claramente seu sorriso desaparecera e seu tom se tornava quase raivoso.
— Eu já disse que quando estou trabalhando, não me interrompa. — ele falou entredentes.
— É que... Tem um homem que insiste em entrar.
— E quem é?
— Eu sou o pai da Demi!
Todos se viraram ao ouvir a voz grave do homem de terno que acabava de entrar. Ele era forte e parecia ter uns 40 anos de idade. Seus cabelos eram baixos, mas percebia-se cachos tentando saltar para cima, exatamente como os cachos de Demi. Ele parecia estar em forma para um homem de sua idade, e não se podia negar que era bonitão.
A primeira a se manifestar foi Demi, que se levantou da poltrona completamente enraivecida.
— Quem doou o espermatozóide, melhor dizendo! — ela disse, com a cara emburrada.
A expressão no rosto do homem era indescritível. Não sabia se dizer se estava mais chocado por ver a roupa de Demi ou pelo que ela havia dito.
Sophia rapidamente se levantou, e não parava de encarar o homem a sua frente.
— Demi, deixa isso comigo, ok? — ela disse, se virando um pouco para a filha — Cuida dela pra mim, por favor.
Sophia não tirava os olhos do homem até ir ao seu encontro. Ela gesticulou para que fossem a um canto afastado no estúdio, e suas mãos pareciam já estar fechadas em punho.
O pai de Demi foi o primeiro a falar:
— Não vou permitir que a minha filha viva essas experiências imorais. — ele disse, com certo tom de desprezo.
— Imoral aqui é você! — Sophia disse entredentes — Você sumiu pouco depois que a garota nasceu, e nunca mais sequer telefonou. Isso eu não vou permitir, você não tem nenhum direito de estar aqui!
— Essa menina tem o meu sobrenome! — ele disse, com certo tom de autoridade — E lembre-se que nunca lhe faltou um centavo.
Sophia encarou-o, como se tivesse ouvido uma ofensa.
— O seu dinheiro nunca foi tocado. — ela disse, já com a voz falha — Está numa conta, e se quiser, eu te devolvo agora mesmo. Mas some daqui!

O diretor Ethan ajeitou a gravata antes de entrar em seu gabinete, já encontrando seu convidado posto em uma cadeira a frente de sua mesa, não despregando os olhos do celular.
O gabinete do diretor era um local confortável. Era pequeno, comparado a magnitude da escola. Sua mesa era de vidro e em cima dela continham sempre um computador e vários papéis espalhados. O piso era de madeira, mas era escondido por um tapete enorme que cobria quase toda a sala. O teto era extremamente alto, com um lustre pendendo incrivelmente lindo. Em toda parte haviam arranjos de flores, e uma parede da direita era revestida totalmente por retratos dos antigos diretores da Yancy. Haviam duas poltronas a frente de sua mesa, que era de um veludo vermelho vivo. A sua poltrona, a maior e mais magnifíca, era grande e preta, e se podia notar o quanto ele se orgulhava só de sentar nela. Coladas ás paredes, atrás das poltronas, havia um pequeno sofá, também de veludo vermelho vivo.
Ethan pigarreou, como um aviso de que havia chegado, e o convidado se levantou.
— Senhor Gomez. — Ethan sorriu, cumprimentando o homem a sua frente.
— Como vai? — eles trocaram um aperto de mãos, enquanto Ethan indicava a poltrona vermelha a frente de sua mesa.
Era sem dúvida que Jayden Gomez era pai legítimo de Selena. As semelhanças entre os dois eram completamente impressionantes. Jayden tinha um cabelo castanho escuro, parecido com o da filha, e era cortado bem baixo, o deixando ainda mais sério, e estava recentemente nascendo cabelos brancos. Estava posto em um terno cinza, e sua carranca era tão séria que desmanchou o sorriso alegre do diretor. Não se podia negar que sua figura era totalmente autoritária, então o desejo do diretor de agradar ao seu convidado podia até ser entendido.
Os dois se sentaram, cada um em sua cadeira, e a expressão do diretor já não era das melhores. É claro que Jayden já estava ciente do motivo pelo qual estava ali, sabia que Selena aprontara. Na verdade ele já sabia de tudo, tanto que estava tão entediado que não conseguia pensar em porque estava ali.
Ethan bufou, antes de continuar.
— Eu quero pedir que... o senhor me entenda. Isso foi mais do que uma travessura, foi... Vergonhoso. E ela fez na frente dos pais de todos os alunos.
Ethan parecia estranhamente constrangido ao falar. Ele sabia que Jayden já estava ciente do que Selena fizera no dia anterior, mas mesmo assim, aquilo o estava incomodando, pois Jayden não demonstrava expressão alguma. Raiva, decepção, alegria, nada.
Por fim, ele suspirou e disse:
— Eu entendo, Ethan. Pode dar a ela o castigo que quiser e pronto.
— Bem, foi justamente por isso que mandei chamá-lo. — ele deu um sorriso tão fraco que sumiu imediatamente, enquanto se recostava na poltrona — Eu acho que é o senhor quem deve chamar a atenção da sua filha.
Uma coisa pareceu se acender no rosto frio de Jayden pela primeira vez. Surpresa, talvez?
— Mas trata-se de uma questão disciplinar dentro do colégio. — ele disse como se fosse óbvio.
Ethan bufou e colocou as mãos no tampo da mesa.
— Olha, Jayden... Sinceramente, a sua filha tem que ter um limite. — falou Ethan, parecendo reunir toda a sua coragem. Na presença do milionário, ele parecia não saber o que fazer.
Jayden bufou, agora parecendo menor entediado na conversa com o diretor. Dessa vez sua expressão tomou uma nova forma, ele parecia estranhamente aborrecido.
— Perdão, senhor? — arriscou Ethan — Disse alguma coisa inconveniente?
— Não, não. — Jayden respondeu rapidamente, balançando a cabeça — Ao contrário. É verdade que eu sou muito bonzinho com ela. Mas como não tem mãe, eu estou sempre viajando... — ele deu de ombros, parecendo dizer que só aquilo bastava para compreender tudo.
Ethan deu um pequeno sorriso, mostrando certa compaixão.
— Mas faça isso por ela. Mais cedo ou mais tarde, senhor, sua filha vai entender.
Jayden encarou o diretor. O milionário tinha um ego muito orgulhoso, e parecia não ter se deixado abater pelas palavras de Ethan e que não pretendia mudar de ideia. Mas disse:
— Tem razão. — ele comprimiu os lábios, como se fosse duro estar tendo que se render a opinião de alguém que não fosse a dela — O que ela tem que entender agora é que tudo tem limite.

Um vento gelado empapava os cabelos de Nick naquela tarde fria na Flórida. A conversa com sua mãe sobre Nova York ainda pairava em sua mente e o jantar naquela mesma noite não foi um dos melhores. Mas como antes, Nick estava decidido. Nada tiraria aquela ideia de sua cabeça, não adiantava o quanto insistissem. Aquilo poderia não melhorar em nada sua situação e a sua família, mas com certeza iria retirar um peso de 100 toneladas das costas e da mente de Nick. Ele não aguentava mais ter de ficar imaginando onde aquele homem estava e o que faria se o visse, ele iria partir pra ação. Iria fazer.
Na tarde cinzenta e chuvosa, Nick subiu na sua moto e pisou fundo. Não sabia para onde estava indo naquele momento. Ele só queria espairecer, esfriar um pouco as ideias e parar de pensar. Não era fácil, claro. Como não parar de pensar quando tudo que sua mente queria fazer era arquitetar um plano ou qualquer coisa? Fazê-lo lembrar o que devia fazer. O que ele queria fazer.
Então ele se decidiu. Em menos de 20 minutos, ele estava parado a frente da concessionária de motos, pronto a vender uma de suas últimas lembranças com o pai.
E depois ele voltava para casa, mais uma vez pelas ruas cinzentas e com o vento gelado soprando em seu rosto, mas dessa vez estava a pé. Seu bolso mostrava um volume, o que significava o cheque que estava carregando. Suas mãos não saíam do colar em seu pescoço, parecendo que ele o estava sufocando. Nick sabia como aquilo era importante, uma parte de seu plano estava concluída. Aquele dinheiro seria mais importante do que nunca.

Sophia havia decidido repentinamente ficar em Los Angeles aquela noite. Depois da sessão de fotos da tarde anterior, parecia mais seguro não pegar um avião imediatamente pra casa. Certamente já havia um quarto no melhor hotel da cidade quando ela se apresentou, tentando ser discreta, com a filha e a assistente. Mas ela também havia ficado por outros motivos.
Era quase meia noite quando ela finalmente chegara ao quarto de hotel, parecendo extremamente cansada. Seus cabelos loiros estavam soltos, com os cachos teimosos rebeldes e vestia um vestido verde solto, que pegava até metade das coxas. Ele tinha um cinto no meio, deixando o vestido mais largo, e suas mangas eram grandes, quase até os cotovelos e Sophia estava incrivelmente linda.
Demi estava sentada em frente ao espelho, passando algo nos olhos como rímel e sombras. Ela havia prendido os cabelos negros atrás da cabeça com alguma pregadeira que havia encontrado por aí e vestia um vestido rosa de alcinhas florido. Era uma roupa "alegre" demais para o tipo de Demi, que era meio do "mal". Mas Solphia sabia bem que ela nunca sairia de casa assim.
Demi nem pareceu notar quando a mãe chegara.
— Demi, para de usar as minhas coisas, ok? — Sophia bufou ao ver que Demi usava suas maquiagens.
Ela jogou sua bolsa na cama, bufando de cansaço.
— Como foi com o velhinho? — perguntou Demi enquanto fechava um tubo de rímel.
— Mais respeito, mocinha. — Sophia franziu as sobrancelhas — É o seu pai.
Demi deu uma risada irônica.
— Querida, se ele pareceu meu avô, a culpa é sua, não minha. — ela deu um enorme sorriso falso para Sophia enquanto se levantava do espelho — O que ele quer agora?
Ela foi até a mini-cozinha que havia no gigantesco quarto e pegou uma lata de red bull, sua bebida favorita.
— Agora ele veio dizer que... Eu não sou boa mãe. — suspirou Sophia enquanto seguia Demi até a cozinha.
Sophia olhava Demi de modo estranho, como se toda vez que fosse falar algo tinha que pensar muito bem nas palavras certas, como se Demi fosse uma bomba prestes a explodir. Tudo o que conseguia pensar era no jantar que tivera com o pai da menina a algumas horas atrás.
A garota pareceu não perceber isso e se sentou no sofá vermelho ali mesmo, ainda com sua latinha de red bull.
— Bom, nisso ele tem razão. — ela revirou os olhos.
Sophia abriu a boca, meio chocada.
— Como pode dizer uma coisa assim, Demi? — sua voz falhou.
— Mãe, deixa de ser tão sensível! — Demi se levantou e abriu a geladeira, pegando uma taça repleta de chocolates — Olha, por sorte eu sei sobreviver a você, então diz pra esse velho que pode voltar sossegado pra Europa e parar de amolar.
Sophia suspirou.
— É isso que ele vai fazer. Mas impões certas condições...
— O que ele quer que você faça? — disse a menina, com a boca cheia de chocolates.
— A coisa é... É com você, filha. — a voz dela pareceu sumir.
Demi a olhou intrigada e Sophia deu as costas, voltando para a cama.
— Comigo? — Demi largou a taça de chocolates e correu até Sophia — O que esse homem quer comigo?
Sophia bufou. Não sabia o que dizer a Demi. De algum modo, sabia que a filha surtaria, mas não podia esconder isso dela.
— Ele... Tem certos direitos. É seu pai, não é? — ela fungou — Apesar de ter sumido tantos anos, a lei o protege e... Ele pode reclamar a sua guarda, Demi.
Para surpresa de Sophia, Demi soltou uma gargalhada.
— Mãe, se é isso, não se preocupe. — ela continuava rindo — Mandamos os melhores advogado e em um dia teremos um dinossauro fora da nossa vida. — ela se jogou na cama, sorrindo.
— Não, não. — Sophia balançou a cabeça, parecendo perturbada — Não quero problemas com advogados. Com essas fotos que vão sair na revista, e com os juízes que temos, corro o risco de te perder, Demi. — sua voz ficou embargada, e ela estava a ponto de chorar — Prefiro... Fazer o que ele pede.
Demi olhou para a mãe séria. Sabia que Sophia Jones era uma manteiga derretida e que chorava por qualquer coisa, mas ela sempre tinha um motivo para cair no choro.
— O que ele pede? — perguntou ela.
— Quer que... Você tenha uma melhor educação, Demi.
Demi deu mais uma risadinha irônica.
— Diz pra esse homem que eu já sou bem educadinha. E sei muito mais da vida do que qualquer menininha da minha idade. — ela deu de ombros.
Sophia tentava segurar seu nervosismo. Não estava chegando a lugar algum com aquela conversa.
— Ele fala de outro tipo de educação. — disse ela.
Demi juntou as sobrancelhas, confusa.
— Ele quer que eu te matricule num internato. — Sophia bufou.
A latinha de red bull caiu da mão de Demi.
— O que?! — ela gritou, sem se importar com as lágrimas da mãe. Havia levantado da cama em um salto, o choque em seu rosto — É brincadeira, não é?!

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Depois da Chuva - 02

“Se eu te troquei, não foi por maldade. Amor, veja bem, arranjei alguém, chamado saudade.” — Los Hermanos.  

Flórida
Nick's POV

 Passado algum tempo, nós dois deitamos na cama, apenas conversando sobre assuntos aleatórios. Conversar com ela é muito bom, pois nós nos entedíamos. Ela me contava sobre a escola, e também tinha uma dor enorme de deixar a nossa casa. Mas eu tentava afastar esses pensamentos, ela é só uma criança.
 A porta se abriu, e dali vimos o sorriso que minha mãe deu ao nos ver. Nos sentamos na cama, e ela veio até nós.
 — Estavam aqui, não é? — Ela sorriu.
 — Como foi? — Perguntei, com expectativa.
 Percebi que seu sorriso havia sumido no momento em que eu havia acabado de perguntar. Abaixando a cabeça, ela deu um sorriso forçado.
 — Bem. — Respondeu com a voz embargada. — A casa já está vendida.
 — Am... Que bom. — Não, não estava nada bom. — Assim podemos pagar todas as nossas dívidas.
 Talvez eu tenha piorado o psicológico dela, porque nada estava bem. Estávamos saindo de nossa casa, a casa que eu havia crescido, que já fazia parte de minha irmã também, a casa que meus pais passaram seus melhores momentos... A casa tinha ELE, e agora ela estava escapando entre nossos dedos assim. Não, aquilo não podia ter um lado positivo.
 Ela se sentou entre eu e minha irmã na cama, e já estava vendo seus olhos meio marejados. Ela suspirou:
 — É que essa casa aqui... Me traz tantas lembranças do pai de vocês que a comprou. — Ela acariciou os nossos rostos. — Tão cheio de sonhos... E agora não acredito que tivemos que vender quase tudo. — Suas mãos foram para o rosto, e agora ela começara a soluçar. Olhei para a baixinha e ela parecia não estar entendendo muita coisa, mas pude ver a tristeza em seus olhos.
 Abracei minha mãe com toda força que pude. Esperava que o carinho e afeto que emanava de mim naquele momento pudesse passar para ela. Sabia que era um momento difícil, nada era fácil naquele momento. Eu podia ver e sentir a dor dela, porque era a mesma que a minha.

Salão
Highland Private School
Nova York
Selena's POV

 Coreografia pronta e cenário pronto. Tudo estava pronto. As meninas saltitavam animadas para entrar, não viam a hora de aparecerem com aquelas saias mínimas e blusinhas sexys. Acredito que todos na platéia só estavam esperando isso. Tudo estava perfeito, tudo iria dar certo, exceto por uma coisa...
 Fui olhar para fora, para o palco, e via que o salão estava lotado. Havia uma faladeira danada uns entre outros, e eu não conseguia entender muito bem o que estava acontecendo. Em um canto vi o diretor e a secretária conversando, e em seguida a mesma foi para o palco, ajeitando o microfone para começar a faladeira. Meus vagavam incansavelmente pela plateia, procurando uma única pessoa. Onde ele estava? Prometera que viria, mas onde ele estava?!
 — Bom dia professores, alunos e pais de alunos. — Começou a secretária, dando seu formal sorriso que até parecia verdadeiro. — Esta é uma ocasião muito especial, porque nós temos a festa de formatura do nosso querido Highland Private School. É uma honra para mim apresentar o nosso senhor diretor, o professor Ethan Williams. Aplausos, por favor.
 As palmas ecoaram enquanto o diretor entrava no palco, e a secretária tomava seu lugar ao seu lado. Era um homem com uma aparência meio jovial, mas nem tanto assim. Sua mente era horrível, e percebia-se logo de cara. Ele tomou seu lugar no púbito e deu um enorme sorriso.
 — Obrigado, obrigado. Muito obrigado. Antes de começar, eu quero dar as boas vindas, porque temos o orgulho de contar com a presença do senhor secretário Collins. Bem vindo, secretário. — Ethan apontou para o pai de Joe na platéia, e mais uma vez as palmas ecoaram. Eu apenas revirei os olhos com isso. Não é de hoje que Ethan baba o ovo da família Collins. Ele continuou: — Senhores professores, familiares e amigos, alunos... Um novo ciclo escolar chega ao fim... — Pelo canto do olho, pude ver a filha do diretor, sentada no meio da platéia, olhar com desprezo para o pai em cima do palco e colocar seus inseparáveis fones de ouvidos e abaixar a cabeça, meio revoltada. A garota ao seu lado a cutucou e tentou tirar seus fones, mas foi em vão. — ... Do Highland Private School. E aqui encerramos satisfatoriamente outro capítulo mais da história da nossa escola, a serviço da comunidade. — Mais palmas.
 Meus olhos ecoaram novamente. Eu não o encontrava. Que droga, porque eu não o encontrava? Ele me prometeu.
 — O que está fazendo aqui? — Isabella me cutucou, chegando ao meu lado. — Vão te ver!
 — Eu ainda não encontrei o meu pai. — Respondi, quase sussurrando.
 — Ele ainda não deve ter chegado.
 — Não. E eu não vou começar sem ele.
 — Amiga, ele pode ter se atrasado. — Ela suspirou. — Só isso.
 — Isabella, ele me disse que não ia faltar! — Engoli o choro o máximo que eu pude. — Ele não pode faltar hoje, Isabella...
 — Selena, não fica assim! — Ouvi outra voz atrás de mim, de uma outra garota de nosso grupo. Não me virei. — O motorista deve vir. Não é sempre ele que vem e nunca o seu pai?
 Rangi os dentes.
 — Garota, porque você não se mete na sua vida?! — Gritei, cerrando os punhos para não fazer merda.
 — Falei mentira? — Ela levantou as sobrancelhas.
 Balancei a cabeça e voltei a olhar para o púbito, enquanto o diretor Ethan ainda falava.
 — As melhores famílias, os melhores nomes do nosso amado país, aproximam o nosso templo do saber aos seus filhos. — Ele sorriu, totalmente orgulhoso. — Confiando que faremos dele homens e mulheres de bem. Pessoas importantes para toda a sociedade...
 Meu coração disparou ao olhar para a entrada. Uma pessoa nada estranha vinha entrando por ela, e se sentando em uma das cadeiras do corredor. Um alívio e ao mesmo tempo uma tristeza profunda. Não era o meu pai, e sim nosso motorista. Uma fúria tremenda subiu em meu coração. Ele realmente mandou o nosso motorista, e nem se deu ao trabalho de usar as pernas e vir! Senti minha garganta queimar, e meus olhos também.
 — Selena, não fica assim por causa dessa idiota. — Falou Isabella.
 — Não. — Balancei a cabeça, me virando para ela. — Não, Isabella. Quem tá me deixando assim é o meu pai. Mas se é isso que ele quer, ele vai me pagar. — Olhei para o motorista e para Isabella de novo. — Eu volto, já já.
 — Aonde você vai? — Isabella murmurou, me segurando antes que eu saísse.
 — Eu vou me arrumar.
 — Mas você já está arrumada!
 — Ainda não. Mudança de planos.
 Soltei-me de Isabella e segui para o camarim, ainda com muita raiva.

Estúdio Fitz'Burn
Nova York
Demi's POV

 Cheguei correndo ao estúdio, ainda com o roupão. Eu desconfiava que a assistente de minha mãe contaria o que eu fiz, mas na hora eu não me preocupava com isso. Não entrei de imediato, pois ela ainda podia estar se aprontando para fazer as fotos. Eu suspirei e fiquei tranquila que todos estavam dentro do estúdio. Olhei pela fresta da porta, e minha mãe estava sentada no sofá branco, já com seu bíquini sexy e uma multidão em cima da mesma, passando maquiagem. Seu salto de 1 metro já estava posto em seus pés e ela sorria se olhando no espelho. Ah, por favor! É minha mãe mesmo?
 — Um pouco mais de pó aqui, por favor. — Ela falou com um de seus maquiadores, apontando para seu ombro esquerdo. A mulher logo a obedeceu.
 — Você está linda, Sophia. Está maravilhosa. — Disse o fotógrafo enquanto sorria para ela.
 — Eu devia tomar um pouquinho mais de sol, não acha?
 — Não, não se preocupe com isso. Relaxa que eu cuido do resto.
 Ouviram-se gritos vindo de lá de baixo. Não posso esquecer de constar que foi uma missão quase impossível de chegar aqui, já que a rua está interditada por tantos fãs enlouquecidos lá embaixo. Quase tive que me disfarçar de power-ranger para conseguir entrar, sem exageros. De repente ouvi passos vindo para a porta da sala de fotografias, e rapidamente corri para a primeira pilastra que encontrei. Olhei pelo canto do olho e vi a assistente entrando rapidamente na sala, com uma garrafa de água em suas mãos. Ela entrou rápido e eu suspirei aliviada por não ter me visto. Com certeza estava me procurando até agora. Corri novamente para frente da porta e continuei olhando pela fresta.
 — Ah, que bom que chegou! — Disse minha mãe á assistente. — Me dá essa água! — Disse pegando a água.
 — Está todo mundo lá fora! — Disse a moça, com os olhos brilhando. — Você sabe, câmeras, fotógrafos, repórteres, fãs... Tudo perfeito, amiga.
 — E está tudo bem? — A assistente assentiu em resposta.
 Revirei os olhos. Eu estranhei minha mãe não ter colocado o FBI atrás de mim até agora. Eu já devia estar atrasada, a ponto de ela achar que eu havia sido sequestrada... Ou sequestrado alguém.
 — E sabe pra quê isso? Porque ser a artista mais importante do país tem o seu preço. — Falou novamente o fotógrafo.
 — Ah, fofo, você é um amor de pessoa. — Minha mãe sorriu. Aquele sorriso bem doce que me dava enjoô.
 — E sabe do que mais? A ideia de ter a sua filha nas fotos pra mim é sensacional. Vai ser um sucesso essa revista.
 Ah, até que enfim tocaram no meu nome!
 — Ok, mas cuidado com a Demi, porque ela é uma menina. — O sorriso de minha mãe sumiu ao falar de mim.
 — Não se preocupe, eu vou cuidar dela como se fosse minha própria filha.
 — É bom, porque senão eu acabo com a sua raça!
 — Eu juro, você vai ver. — Ele levantou as mãos, rendido.
 — A propósito, cadê ela? Está demorando! — Minha mãe "acordou".
 A cara da assistente havia mudado. Ela sabia muito bem o que eu tinha feito, e não queria contar de jeito nenhum. Sua cara vacilava, e ela olhou para baixo.
 — Ér... Acho que teve um probleminha com as roupas.
 — Com as roupas? — Minha mãe juntou as sobrancelhas.
 Hora de entrar em cena!
 Bufei e entrei na sala, fazendo todos me olharem. Eu ainda estava com o roupão rosa me envolvendo, e dei um sorriso venenoso. A assistente me olhou com desaprovação, e minha mãe se levantou louca do sofá.
 — Demi, minha filha! — Ela me apertou em seu abraço de urso, não se importando se sua maquiagem e seu glitter saíriam. — O que aconteceu com a roupa?
 — Ups! Eu doei para os ciganos na rua. — Dei um sorriso inocente.
 — Como assim doou? — Pude ver seus olhos se arregalando de surpresa. — É tudo versáti!
 — Ah, eles que usem aquilo. Porque eu não vou andar fantasiada.
 — Como fantasiada?
 — Além disso, eu botei outra coisa!
 — Que coisa?
 Desamarrei meu roupão, com um sorriso vitorioso. Tirei-o, e antes de o mesmo cair no chão, minha mãe já gritava de horror. Era uma arte no corpo, uma roupa desenhada, e devemos dizer que foi bem sexy.
 — DEMI, PELO AMOR DE DEUS, CUBRA-SE! — Ela gritou, pegando o roupão no chão e me cobrindo novamente. — Virem todos para lá! Eu proíbo você de posar assim, vai trocar de roupa agora!
 — Calma! Eu já ouvi, está bem?
 — Que absurdo...
 — Quer parar de falar comigo nesse tom de desesperada? Não faz sentido ficar toda nervosinha! — Bufei.
 — O que tem o tom a ver com isso, Demi? Para de fazer pirraça de menina idiota e vai trocar de roupa agora! Vai logo!
 — Mãe, chega! — Gritei, parando seus braços. — Eu me visto como eu quiser, está bem?
 Ela me olhou em silêncio por alguns segundos, talvez se perguntando de que mundo eu era.
 — Ah é? — Ela levantou as sobrancelhas. — Sou sua mãe, Demi, eu sei o que é conveniente.
 — Ah é, claro! Você vai sair linda, quase peladinha, e quer que eu saia vestida como uma menina recém saída do jardim de infância.
 — Você vai como uma menina. Linda, mas como uma menina. Vai trocar de roupa!
 — Menina é a vovózinha, ouviu?! — Tirei meu roupão com força, batendo-o no chão.
 Ela bufou, colocando as mãos na cabeça e fechando os olhos, tentando se acalmar.
 — Demi, meu amor, por favor, minha filha...
 — Minha filha nada! — Interrompi. — Vai ser assim ou nada. Decide, mamãe.

Salão
Highland Private School
Nova York
Selena's POV

 Saí do camarim e cheguei correndo até onde todas as outras garotas estavam reunidas. Cheguei a tempo de ouvir a secretária anunciar no púbito a nossa apresentação:
 — Agora, nossas lindas alunas que entram para o 4º ano, vão nos provilegiar com uma bela coreografia, dirigida pela aluna Selena Gomez. Aplausos, por favor.
 As palmas ecoaram, mas eu ainda não havia terminado. Me virei para ajeitar o CD que trazia em minhas mãos e já podia escutar as garotas reclamando de minha falta. Ao terminar, corri para o meio delas, que me olharam como se eu fosse muito retardada.
 — Onde você estava? — Isabella rangeu os dentes.
 — O meu pai já chegou? — Ignorei a pergunta dela. Ela suspirou.
 — Não, ainda não. Fiquei aqui olhando e ainda não vi.
 — Tudo bem. — Balancei a cabeça. Eu ainda tinha esperanças. — Olha só, quando eu der o sinal, você tira o CD e coloca esse. — Dei pra ela o CD que trazia em minhas mãos.
 Ela me olhou confusa.
 — O que é isso?
 — Quando eu avisar, faça o que eu mandei. Rápido, vai pro seu lugar!
 Isabella murmurou e foi para o seu lugar. Posicionei as garotas e entramos.
 A música que escolhemos foi uma música leve, algo como Run The World. Todas nós usavámos a mesma roupa, e eu já pude perceber os garotos já levantando os olhos para nós na plateia. Começamos a dançar, uma dança leve, ensaiada muito bem, e todos estavam satisfeitos, pelo que eu pude notar. Meu motorista batia palmas e sorria, o que me deixou feliz por alguns segundos, mas eu não me esquecia do que realmente estava fazendo ali.
  Logo quando a música já estava acabando, eu parei de dançar subitamente. As garota me olharam confusas, mas continuaram dançando. Fui para a frente do palco, olhando para Isabella, falando-a para trocar o CD. Isabella parou a música, fazendo todos olharem confusos e cochichos começaram a ecoar pelo salão. Logo começou a outra, que na verdade era uma música do Kanye West que eu escolhi, daquelas bem proibidas. Todos me olhavam, não estavam entendendo nada.
  Ao começo das primeiras notas, agaixei e me levantei, fazendo todos gritarem. Comecei a rebolar de todos os jeitos que eu sabia, e eu vi algumas garotas e garotos se levantando, me chamando de gostosa ou coisa do tipo. Eu ri e continuei a dançar. Tirei minha mini-blusa e depois meu short. Eu estava completamente sensual e pude ver o motorista começar a ficar pirado.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Depois da Chuva - 01

“Porque as pessoas machucam e dizem amar?” — Michael Jackson. 

Academia Yancy
Nova York
Estados Unidos
  
  Uma aglomeração de alunos começara a se juntar no corredor dos arredores da gloriosa Academia Yancy, a melhor escola — e também a mais cara — de todos o país do Estados Unidos, situado no estado de Nova York. Os alunos estavam entrando de férias, terminando mais um ano letivo, e com isso todos estavam radiantes. Iriam ficar um pouco longe dos cadernos, provas e trabalhos. No corredor, todos estavam postos devidamente em seus uniformes, conversando entre si em vários grupos abarrotados, em vários assuntos.
 Ao contrário de Selena, que não parava quieta em nenhum segundo. A garota mais popular da Academia Yancy — mais bonita, gostosa, inteligente, sexy, e etc —, não estava infiltrada em grupo nenhum como de costume. Selena vasculhava aquela área, andando sem parar para a entrada, parecendo procurar alguém. Ela cumprimentava algumas pessoas — ou muitas — que a paravam e se sentiam fascinados com apenas um olhar de Selena para eles. Sim, Selena Gomez era diva. Ela era "adorada", e de todas as formas. Tanto por meninos quanto por meninas, todos queriam que ela acenasse para eles enquanto passava no corredor. Pronto. O dia estava feito.
 Mas Selena naquele momento estava inquieta. Mal falava com todos — também mal falava com todos o resto do ano, mas sempre tinham aqueles que ela dava uma bola —, e parecia roer as unhas, apesar de estarem recém feitas. Ela claramente estava procurando alguém que não estava encontrando.
 De repente, ouviu-se um barulho na escada para onde dava o salão, que neste momento deveria estar lotado de pais e alunos. Uma garota, cabelos ruivos e olhos azuis — olhando parecia pesar uns 100 quilos —, desceu as escadas apressadamente, quase tropeçando e caindo no último degrau. Seu uniforme ficava apertado em seu corpo gordinho, mas apesar disso, era muito bonita.
 Ela correu até Selena, e pegou em seu braço.
 — Anda, vem rápido, só temos 10 minutos pra entrar! — gritou a garota, puxando Selena pelo mesmo lugar da onde tinha vindo, parecendo completamente exausta.
 Selena não deu um passo a frente, se soltando.
 — Não, Isabella, espera! O meu pai ainda não chegou e eu quero que pegue o melhor lugar quando chegar. — Selena suspirou, mais uma vez vasculhando o enorme corredor a procura do pai.
 Isabella Smith era a melhor amiga de Selena a anos. Apesar de terem suas diferenças, as duas se completavam de tal forma que mal dava para imaginar. Selena sempre fora glamurosa e singular, sempre chamava a atenção nos lugares que frequentava por sua beleza e carisma. Isabella já era bem tímida e não se envolvia bem em grupos. Era gordinha e estranha, com roupas ainda mais estranhas, e muito anti-social. Selena a "encontrou" e a "transformou", como gosta de dizer. Isabella era tão popular quanto Selena, elas eram uma dupla, nunca as via separadas. Eram coração e pulmão, unha e carne. E Isabella seria eternamente grata a Selena por tudo que ela fizera em sua vida.
 Isabella levantou os olhos e também vasculhou o corredor.
 — Eu não estou vendo ele. — disse ela.
 Selena bufou.
 — Eu também não, mas vou esperar aqui.
 — Ah, vamos logo! — Isabella resmungou.
 Selena e as garotas tinham um grupo de dança na escola. Não era nada oficial nem tão sério, mas era uma diversão que todas gostavam. Selena era a líder e coreógrafa, portanto ela quem geralmente fazia os "testes" para a entrada de novas integrantes, mas na verdade ninguém nunca entrava. Por mais que as garotas fossem ótimas, Selena não permitia outras integrantes em seu grupo. Para o fim de ano, ela e o diretor combinaram que naquela festa de boas-vindas, seu grupo apresentaria uma coreografia. Elas já haviam ensaiado, e estava tudo pronto, mas Selena insistia em esperar o pai.
 — Espere, Isabella...
 Disse Selena, mas foi interrompida por um garoto a dizendo "Oi" antes que ela pudesse sair do lugar. Ele era alto, cabelos escuros e estava na cara que estava morrendo de vergonha ao simplesmente chegar perto de Selena. Na mesma hora notava-se o brilho de seus olhos e ele continha uma margarida enorme nas mãos.
 Selena deu um sorriso cativante.
 — Olá.
 O coração do garoto pareceu ir a Saturno e voltar. Suas bochechas ficaram rosadas e percebia-se que ele só havia planejado a parte do "Oi", fora isso ele nem esperava que ela o respondesse.
 — O que vai fazer depois da festa de formatura? — ele disse após tropeçar em várias palavras. Suas pernas tremiam muito e ele não parava de mexer os braços.
 Selena deu um sorriso doce, como se já estivesse prevendo o resto da conversa.
 — Ah, eu vou sair com os meus amigos. — ela respondeu.
 O garoto lhe lançou um olhar decepcionado, mas ao mesmo tempo feliz. Seu coração estava explodindo de felicidade apenas por Selena ter dito mais que duas palavras com ele.
 — Am... Ér... E algum dia vai sair comigo? — ele perguntou, parecendo amassar o caule da flor com seus dedos.
 Selena deu um olhar sorrateiro para Isabella atrás dela, que só assistia. Isabella estava acostumada com aquele tipo de cena que Selena se envolvia, era como se fosse um filme que ela já havia assistido um milhão de vezes, mas que tivesse sempre a mesma empolgação.
 — Eu vou, um dia eu vou sair com você! — Selena riu — E aliás, porque você não me liga nas férias?
 Notou-se claramente o choque do garoto. Aliás, aquela era Selena Gomez. Se Selena houvesse dito mais alguma coisa depois disso, ele não teria escutado mais nada. Abriu um sorriso de orelha a orelha, maior do que seu próprio rosto podia suportar, e estendeu a enorme margarida para ela.
 — Aqui. Pra você. — seus dedos tremiam, e Selena pegou a flor.
 — Ah, obrigada. — ela abriu um sorriso doce.
 Inesperadamente, o garoto se inclinou para a frente e tascou um beijo no rosto de Selena rapidamente, como se tudo acontecesse em menos de 1 segundo. Selena arregalou os olhos, surpresa com a "coragem" do garoto, mas mesmo assim sorriu. Sorria para tudo e para todos, não importava a situação. O garoto pareceu ainda mais nervoso e já estava quase suando frio.
 — Então... Tchau. — disse ele, enquanto ia se afastando de Selena e Isabella, aos tropeços.
 — Tchau. — Selena acenou alegre enquanto o garoto seguia para a escada que ia para o salão.
 Ele parecia não saber para onde andar. Não queria perder Selena de vista nem por um segundo, e praticamente andava de costas até chegar a escada. Ele se virou para subi-la, mas nesse momento seus pés se desencontraram e ele levou o maior tombo na frente de todos ali. Isabella gargalhou alto, assim como todos. Selena também riu, mas não deixou transparecer. Tinha que ser "boazinha".
 O garoto logo se recuperou e terminou de subir as escadas. Mas claro, antes de dar um último aceno para Selena.
 — Coitadinho! Porque você pediu pra ele te ligar nas férias se você vai viajar? — perguntou Isabella, ainda rindo da cena anterior.
 Selena riu.
 — Foi por isso! Pra ele me ligar quando eu não estiver! — respondeu ela, agora dando um sorriso vitorioso.
 As duas riram. Agora estavam rindo como sempre. Selena sabia que devia se comportar como boazinha perto dos garotos, não os deixando tristes, ao olhar dela. Mas também não tem que sair e satisfazer todos que a queriam, isso era impossível. Ela não era nenhuma puta ou piranha, não era nenhuma vadia, não se entregava para qualquer um, tanto que ainda era virgem. Mas ela sabia muito bem quebrar o coração de um garoto.
 — Vamos, agora é sério, não temos tempo! — Isabella bufou e puxou Selena novamente para as escadas.
 Selena murmurou e tentou lutar para se soltar novamente.
 — Não, Isabella! Não! Espera o meu pai...
 Mas Isabella foi mais forte, e as duas subiram para o salão.

Flórida
Estados Unidos

 Uma tarde cinza e melancólica começava a se formar na cidade naquele dia. As pessoas estavam preferindo ficar em casa do que sair naquele frio horrendo, que estava prevendo cair neve. As crianças não estavam no Walt Disney World como de costume, não haviam casais se beijando na praça e nem turistas perdidos nos hoteis. Só havia Nick, que naquele momento parecia realmente perdido.
 Nick Jonas era um garoto de 19 anos que parecia uma das únicas almas a estar circulando pela Flórida naquele momento. Ele parecia inquieto, e na verdade seu coração estava inquieto. O barulho de sua moto era tão alto que podia se ouvir a várias distâncias, e ele parecia não ter medo de levar uma multa por excesso de velocidade.
 Nick queria sentir o vento na cara. Queria sentir a brisa, a maresia, queria elevar seus pensamentos, ou pelo menos parar de pensar. Apesar do frio, ele estacionou sua Honda no calçadão da praia, e por ali se sentou, apenas observando o mar e sentindo o vento. Olhando para a paisagem, Nick sabia que aquele lugar não era a mesma coisa. Não sabia para as pessoas, mas para ele aquilo sempre seria cinza e horrível. Ele não aguentava mais olhar para as pessoas felizes andando pelas ruas todos os dias e não perceberem o quanto aquele lugar havia ficado melancólico e fantasmagórico, aquele lugar estava morto.
 Desde a morte de seu pai, Nick passou a ver as coisas assim. Havia sido alguns anos antes, e a dor ainda era muito forte e recente em seu peito. Eram dois amigos, se pode resumir assim. Dois melhores amigos, pai e filho, inseparáveis. Ele era literalmente seu herói, e era sua inspiração para tudo. Mas até que um dia, um homem, fez tudo isso desmoronar.
 Nick cerrou os punhos ao pensar nisso. Sempre fora um garoto calmo e pacifíco, mas com a morte de seu pai isso havia mudado e muito nos últimos anos. Ele se estressava com qualquer coisa e nem sabe como conseguira terminar o segundo grau, já que fora expulso de 4 escolas diferentes por causa de briga. Mas seu ódio era por aquele homem. O homem que havia arruinado sua vida a e a vida de sua família... O autor da morte de seu pai.
 Nick vasculhou os bolsos e pegou a antiga câmera filmadora onde continham lembranças vivas de seu pai. Estava reproduzindo o mesmo vídeo de sempre. Nele via-se um homem alto, forte e de leves cabelos encaracolados e desgrenhados, com uma barba mal feita e roupas largadas. Seu pai. E também havia um garoto de 8 anos, parecido com o pai, correndo solto pelo galpão velho de onde eles brincavam naquela hora. Sorrisos estampavam seus rostos, enquanto o pai de Nick corria atrás dele, e ele pulava de madeira em madeira no chão. Seu pai o dava beijos e beijos no rosto, que eram doces e tinham tanta ternura. O que Nick mais queria era reviver esses momentos novamente, mesmo sabendo que era impossível.
 "Ele se foi", repetia a si mesmo em pensamentos. Não há mais jeito. Naquele momento ele só podia sonhar e querer ter o pai novamente ao seu lado.

Academia Yancy
Nova York
Estados Unidos

 Com ainda a aglomeração e confusão dos alunos no meio do corredor, naquele momento todos começavam aos poucos a subir para o salão para iniciar a grande apresentação de boas-vindas feita pelo diretor. Havia uma falação entre os alunos que era quase impossível de se escutar naquele lugar.
 Mais e mais pessoas esbarravam em Joe enquanto ele tentava chegar á entrada para ver os pais. O deputado o estava esperando impacientemente com sua esposa, a primeira dama. Algumas líderes de torcida acenavam para Joe impacientemente, pareciam querer sua atenção mais do que tudo; iriam morrer se não conseguissem. Joe apenas sorria forçado. Já havia pegado metade delas, e este ano não seria diferente. A "cota" de Joe Collins sempre aumentava a cada ano.
 Joe havia encontrado os pais na entrada. O deputado com seu inseparável charuto e sua mulher ao lado, a perua mais banhada em loja de Nova York. Joe já fora preparando os ouvidos, pois sabia que brigaria com eles.
 — Porque?! Ir pra Londres agora? — falou Joe após 10 minutos de conversa com seus pais. Ele já estava sentindo sua paciência se esvair.
 Sua mãe lhe lançou um olhar furtivo.
 — Joe! Por favor! — ela o repreendeu, cerrando os dentes. — Você vai poder ver seus irmãos, vai ficar com eles.
 — Mãe, vocês haviam dito que iríamos a praia! — Joe rangeu os dentes.
 — Ouve uma mudança de planos. — seu pai deu de ombros.
 Joe bufou. Ele queria dar um soco em alguma coisa. Não era a primeira vez que seu pai fazia isso, que ele completamente cortava seu barato ou suas festinhas... Ou simplesmente cortava um momento de diversão. Não era a primeira vez, e de qualquer jeito, Joe estava esperando por isso. Mas sempre havia aquele fiapo de esperança, de que se ele mudasse de ideia.
 Mas o que enfurecia Joe era o fato do pai não se importar com isso. Todos percebiam o quanto Joe estava nervoso pelo seu pai mais uma vez furar com ele, mas o deputado simplesmente não se importava. Parecia nem prestar atenção no próprio filho.
 — Agora nós vamos para a Europa, Joe. — disse ele, dando mais uma tragada no cigarro.
 Joe fechou os olhos, pensando nas palavras seguintes.
 — Eu prometi ao Jacob que iria comigo. — ele apontou para o melhor amigo ao seu lado, que havia chegado um pouco no meio da discussão. — Não foi? — Joe rangeu os dentes, olhando firmemente para Jacob, esperando que ele colaborasse com a mentira.
 Jacob Johnson era o melhor amigo de Joe Collins. Os dois eram inseparáveis, unha e carne, pareciam ter nascido juntos. Pareciam irmãos de pais diferentes. Tudo bem que Jacob também era um gato, mas nada comparado a Joe, ao ponto de vista das meninas. Jacob era sempre a "sobra", caso Joe não quisesse uma menina. Ele era o consolo. O garoto nunca havia visto problema nisso, pois ele se dava muito bem, até mais do que imaginava. Eles eram grandes parceiros, aprontavam juntos a mil, caso um se ferrasse, teria que levar o outro, e naquela situação não era diferente.
 Jacob olhou bem para Joe e hesitou ao responder. Sabia que se mentisse iria sobrar para ele. Apesar de isso nunca ter sido um problema, era o pai de Joe que estava ali, o deputado Collins! Ele poderia ferrar mais a Joe do que a ele.
 — Não, eu posso ir pra praia com os meus pais, não tem nada a ver! — Jacob respondeu, nervoso.
 Joe revirou os olhos, não acreditando que Jacob não havia colaborado com ele.
 — Ta bom, mas eu me importo! — falou ele. — Vai ser uma chatice!
 O deputado bufou, começando a se estressar com Joe.
 — Olha, Joe... Isso não está em discussão. Você vai conosco e está acabado.
 — O embaixador quer uma reunião com o seu pai. — completou a mãe de Joe, sempre ao lado do marido, não importa o que ele dissesse.
 — Ué, então vai sozinho! Você tem que estragar as minhas férias? — Joe rangeu os dentes para o pai, o que era perigoso, e ele sabia disso.
 — Olha, já chega! — o deputado bufou. — Eu vim ver você, apesar da campanha eleitoral. E não vou perder o meu tempo com as suas pirraças, entendeu?
 Joe baixou os olhos. Ele não poderia falar mais nada, e sabia disso. Seu pai sempre tinha a palavra final, e Deus que o livre de enfrentá-lo. Ele sabia muito bem que não tinha opinião, mas não conseguia aceitar isso. Não conseguia se contentar, mas devia.
 No momento em que disse isso, o telefone do deputado tocou e Joe viu uma chance de se livrar dos pais. No mesmo momento, uma garota loira e muito bonita abraçou Joe e o deu um beijo. Seu pai nem sequer viu enquanto ele a pegava pela cintura e a levava para longe. Jacob o seguiu, como sempre. Joe era o maior pegador de Yancy, e a cada semana estava com uma diferente. Mas sempre tinham aquelas que ele gostava de repetir.
 Ele saiu de perto dos pais, a todo momento querendo esquecer a conversa que tivera a 5 segundos antes.

Flórida
Estados Unidos

 Nick estava em seu quarto, mais uma vez vasculhando suas antigas lembranças. Haviam fotos e pedaços de filmes espalhados pela cama, todos de seu pai. Nick não se desprendia dessas pequenas coisas, pois sabia que seria ignorância. Ele não podia ignorar a saudade que seu pai lhe fazia, a falta tremenda e o vazio enorme no coração. Ele queria chorar, mas sabia que não iria adiantar em nada. Por mais que doesse, não iria trazer seu pai de volta. Mas haviam dias que ele mergulhava de cabeça nas lembranças, e não se importava com mais nada em sua volta.
 De repente, a porta de seu quarto abriu. Nick se levantou rapidamente, limpando as poucas lágrimas que haviam caído e abrindo os braços para que sua irmãzinha o abraçasse, com ternura.
 — Oi, linda! — ele deu um riso fraco, beijando seu rosto.
 — Porque pegou todas essas fitas? — ela perguntou, enquanto se sentava ao seu lado na cama.
 Nick suspirou.
 — Porque essas fitas tem imagens do papai. — ele respondeu, sorrindo. — Lembra?
 Ela sorriu ao lembrar-se também.
 — Sabia que você se parece muito com ele?
 — É... Eu sei. — ele sorriu.
 Nick adorava falar de seu pai com sua irmã. A garota era nova, tinha uns 8 anos, mas ele sabia que ela se lembrava perfeitamente do pai. Pra ela tudo era muito novo ainda, parecia não haver caído a ficha que havia perdido seu pai, e não qualquer pessoa, e Nick tinha inveja disso. Ela parecia ter escolhido ser feliz, mesmo quando tudo dizia para ela ser triste!
 — Ás vezes, quando está dormindo, venho aqui no seu quarto e fico um tempão te olhando. — ela falou, olhando o chão.
 — Ah é? — Nick juntou as sobrancelhas. — E pra quê?
 — É... Como se o papai tivesse voltado e estivesse dormindo. — ela respondeu, torcendo os dedos.
 Nick sentiu um tapa na cara. Na verdade, foi como se estivessem esmagando seu coração. A pequena não falava com raiva ou ódio de qualquer coisa, ela só falava com tristeza. Com saudade. Ele sabia que ela estava com saudades, mas não assim. De ficar lembrando dele, como Nick fazia. De ficar desejando sua volta, mesmo sabendo que isso nunca iria acontecer.
 Nick fechou os olhos, colocando a garota em seu colo.
 — O papai não está mais com a gente, baixinha. — ele sussurrou em seus cabelos.
 — Mas eu sinto falta dele. — ela respondeu, igualmente sussurrando.
 Nick bufou, virando a garota para si.
 — Eu também, mas... O papai morreu e já faz muito tempo.
 — Porque ele morreu? Se cansou de brincar com a gente?
 — Não, não! — Nick acariciou seu rosto. — O problema é que... Um senhor muito, muito mal jogou sujo.
 — Foi por isso que ficamos sem nada... E sem o papai?
 Nick fechou os olhos, controlando a raiva que subia por seu corpo naquele momento. Nick não gostava de lembrar do verdadeiro motivo que seu pai havia morrido, ele só gostava de lembrar dos momentos felizes e prazerosos que teve com ele ao longo de sua vida. Mas não se lembrar da verdadeira causa era inevitável. E também era inevitável não sentir ódio.
 — É... Foi por culpa desse homem. — ele suspirou.
 A pequena olhou para os lados, como se estivesse tentando colocar as peças no lugar.
 — Você conhece esse senhor? — perguntou ela.
 — Ainda não. — ele deu um sorriso fraco, colocando a cabeça da garota em seu peito.
 "Ainda não o conheço, mas vou matá-lo", pensou Nick. E inevitavelmente pensava nisso todos os dias.