quinta-feira, 10 de março de 2011

Depois da Chuva - 12

“Vou te pedir que fique. Mesmo que o futuro seja de incertezas, mesmo que não haja nada duradouro prescrito pra gente. Esse é um pedido egoísta, porque na verdade eu sei que se nada der realmente certo, vou ficar sem chão. Mas por outro lado, posso te fazer feliz também. É um risco. Eu pulo, se você me der a mão.” — Caio Fernando de Abreu.

 Demi's POV.
 Eu estava em meu quarto. Aliás, o quarto em eu fui posta. Pareceu que eu expulsei aquelas patricinhas daqui por alguns momentos, o que eu fiquei aliviada por alguns minutos. Pareciam que o mesmo ar que elas respiravam não era o mesmo que o meu, por isso eu não as suportava mesmo, de jeito nenhum. Tive tempo para pegar meu saco de jujubas da minha mala e deitar na minha nova cama, olhando para a parede.
 Tinha coisa pior do que ficar nessa escola? Eu acho que não. A única coisa que eu conseguia pensar era que era tudo culpa do Noah. Não iria chamá-lo de pai, ele não merecia. Por culpa dele eu estou aqui, aturando todas essas pessoas para meu desgosto. Porque comigo? Odiei esse lugar desde a primeira vez que pisei aqui. Porque minha mãe também tem que ser tão burra? Vai obedecer as palavras de Noah? Não é possível. Eu nunca deveria estar aqui, eu queria pular aquela janela naquele instante e ir embora.
 Mas antes que eu pudesse fazer, ou até pensar em fazer algo, eu ouvi risadinhas vindos do corredor. Parei no mesmo instante. Estavam se aproximando, estavam vindo para o quarto. Sem pensar duas vezes, me joguei debaixo da cama, tentando respirar fraco. O som foi ficando mais perto, agora duas vozes.
 A porta se abriu.
 — Entra. — reconheci de imediato a voz da loirinha amiga de Selena, como era mesmo seu nome? — Relaxa, não vai entrar ninguém.
 Ela falava com alguém enquanto fechava a porta. De baixo eu podia ver um tênis e calças jeans, isso é, ela estava com um garoto. Eu abafei um riso. Vadia, sim ou claro?
 — Ta bom. — o garoto riu, e não reconheci sua voz. Na verdade, nunca havia escutado aquela voz na vida.
 A loirinha foi até uma escrivaninha ao lado da cama, pareceu pegar algo e voltar para o garoto.
 — O disco é esse aqui. — falou ela — Eu também adoro essas músicas.
 — Legal. — ouvi a voz do garoto. Podia sentir que ele estava sorrindo muito.
 — Suas músicas também são muito boas, você devia ser músico.
 — Não, não. — ele começou a andar para perto da cama onde eu estava. Droga. Minha respiração foi a mil — Pra mim é só um passatempo.
 Ele se sentou na cama. 1 segundo depois ela se sentou ao seu lado, o bico de seu salto quase batendo no meu dedo. Qual é, esses dois não poderiam sair daí? Ou melhor, não poderiam sair do quarto pra eu parar com esse fingimento aqui embaixo? Isso está me frustrando.
 De repente eu ouvi um barulho de beijo. Não, eu não estava louca, eu tinha certeza que os dois estavam se beijando nesse exato momento. Abafei um riso. Então essa garota trazia alguns meninos pra cá pra um sexozinho rápido com eles? Oh, que feio...
 — Quando fiquei sabendo do seu acidente... — começou ela, e ouvi mais um beijo — Eu quase morri. É, graças a Deus você é muito forte.
 Ouvi a risada dele.
 — Muito forte. — ele falou baixo, dando mais um beijo nela.
 O que era aquilo, cara? Ops, fiquei sabendo que é proibido os meninos no quarto das meninas... Ela sabia disso?
 — Vem cá... — disse ela, suspirando — O que você tem com a Selena?
 Apurei meus ouvidos.
 — Porque ta perguntando? — perguntou ele.
 — Ah, porque se não eu vou ter que fazer um esforço pra parar de pensar em você.
 Os pés dela se levantaram do chão e o dele também, e eu pude sentir a cama ficando mais pesada. É claro, mesmo não vendo eu sabia que ela o havia deitado na cama.
 — E acontece que eu não fiquei aqui pela Selena. — continuou ela — Eu fiquei por você.
 Abafei um riso.
 — Hmm. E se eu disser que não me interesso por ela? — falou ele.
 — Ah, eu não duvidaria. Ela é muito novinha pra você, Joe.
 — Mas porque?
 — Ah, porque a Selena é virgem!
 Cautelosamente, fui saindo debaixo da cama. Levantei devagar os olhos e olhei-os. Ela estava sentada em cima dele, com as mãos em seu abdomem enquanto ele mantinha as mãos nas coxas dela. Os dois estavam se engolindo, portanto não me viram, graças a Deus. Eu nem sabia explicar o que eu estava pensando naquele momento, apenas de que eu estava completamente assustada com o tipo de pessoas desse lugar.
 O tal do Joe se mexeu e afastou a loirinha de si, me fazendo me abaixar novamente, meu coração pulando. Eles não podiam me ver.
 — Selena é virgem? — perguntou ele — Ela pareceu ser outra coisa.
 — Ah claro, ela fez isso pra não parecer o que ela é, uma menininha!
 — E você? — disse ele em tom desafiante.
 Esperei ouvir uma resposta, mas depois de 2 segundos eu ouvi um gritinho vindo dela, e de repente ela pulou da cama, rindo e indo até as escadas. Joe também se levantou rindo e foi atrás dela, os dois parecendo crianças. Quando os dois estavam lá em cima, finalmente saí debaixo da cama novamente.
 Eu não iria sair do quarto áquela altura, é óbvio. Eu queria ver aquilo, o que as pessoas dessa escola tinham na cabeça? Fiquei de pé e ainda podia ouvir os dois rindo e se beijando em cima. Fui andando cautelosamente até as escadas, tentando fazer o mínimo de barulho possível. Quando coloquei meus pés no primeiro degrau, ouvi uma porta se abrindo.
 Meu coração disparou e olhei para trás, mas não era a porta do quarto. Ouvi os risos dos dois e subi mais um pouco, até ver que eles abriam a porta do closet e estavam entrando lá dentro. Eu ri baixinho. Não podia ser. Os dois fecharam a porta e na mesma hora eu terminei de subir as escadas, chegando no andar de cima. Ainda segurava no corrimão enquanto me aproximava do closet, que eles tinham deixado uma frestra aberta, onde eu escutava muito bem os risinhos maliciosos dos dois. Esperei por uns 2 minutos e rapidamente olhei pela frestra, segurando mais um riso.
 Os dois estavam literalmente se engolindo. A loirinha arrancava as roupas de Joe enquanto ele beijava toda a parte do corpo da garota. Ele a impressou na parede, arrancando sua blusa e beijando seus seios. A garota mesmo arrancou seu sutiã e logo após seu shorts. Sem sutiã e apenas de calcinha, que sutil, não? Joe estava apenas de boxers nesse momento, e os dois já estavam a todo fogo. Joe rapidamente abaixou a calcinha da garota, sem tirá-la, apenas para que ele retirasse sua boxers e penetrasse na garota, fazendo enroscar suas pernas em sua cintura e gemer sem parar.
 Levei minhas mãos á boca, dando passos pra trás. Como isso, cara? As pessoas dessa escola são realmente loucas, esses garotos eram uns pervertidos, eu estava me sentindo numa gravação de filme pornô! Me segurei muito para não rir. Eu virei de costas e me encostei na parede á direita do closet, apenas ouvindo os gemidos prazerosos da loirinha e Joe metendo na garota, murmurando palavras como "é isso aí", "gostosa" ou coisas do tipo.
 Foi quando do nada eu ouvi uma voz:
 — Ava!
 Meu coração gelou. Foi aí que eu percebi que já estava encostada ali a tempo demais pro meu gosto. Qual é, agora eu me interessava pelo sexo adolescente desses depravados? Olhei para baixo e minhas pernas tremeram. A secretária Emma havia entrado no quarto e pela sua cara ela estava escutando e muito bem os gemidos da loirinha, que pelo jeito se chamava Ava.
 Olhei para os lados, aflita por alguns momentos. Essa mulher jamais poderia me ver aqui, ainda mais em uma situação dessas. Ela poderia achar que eu estava encobrindo os dois pervertidos aqui, e isso eu jamais iria querer! Em uma fração de segundos, vi de relance que Emma começava a subir as escadas, seguida pelo som, e eu me afundei no primeiro armário que vi na frente, quase em frente ao closet onde estavam Ava e Joe. Eu suspirei, abrindo uma mínima frestra para poder ver.
 Vi Emma passar em frente ao meu armário e de repente ela parou. Eu gelei. Será que ela desconfiava que havia alguém aqui? Por favor, não abra o armário! Ela olhou para os lados e para cima, parecendo procurar o som. De repente ela olhou para o closet onde estavam os dois, e eu fechei os olhos, abafando mais um riso. Isso iria ser uma merda completa! Eu nem queria ver isso. Emma foi se aproximando devagar, pra ver se era dali mesmo que saía o barulho, e em um rompante a mulher abriu a porta, encontrando a terrível cena pornográfica que ali acontecia.
 O que eu escutei em seguida foi um berro agourento de Emma e um grito assustado de Ava. Emma se virou do outro lado, tampando os olhos, parecendo terrivelmente incrédula. Ava e Joe pararam tudo, estavam suados e descabelados, e os dois se vestiram aos tropeços, parecendo que tinham visto literalmente um fantasma. Emma bufava fortemente.
 — O que estão fazendo aqui?! — ela disse com dificuldade, finalmente se virando e destapando os olhos, vendo os dois agora semi-vestidos.


Isabella's POV.

 Depois que Selena havia me "expulsado" do carrinho de golfe, eu não sabia o que fazer e nem pra onde ir. Queria conversar com alguém, mas literalmente todos da escola haviam viajado pra fazer algo que preste. Ou melhor, todas as pessoas legais dessa escola. Decidi voltar para dentro da escola, ver se havia alguma coisa lá.
 Na verdade, eu já sabia que não teria nada lá. Ava com certeza estava com Joe nesse momento, e eu não sabia o que fazer. Andei pelos corredores e peguei um salgadinho na máquina, tendo a repentina ideia de ir ver como os bolsistas estavam se saindo na prova, já que eu não tinha mais nada pra fazer mesmo.
 Passei na frente da sala e me encostei na parede. As salas continham um vidro enorme na parede ao lado da porta, assim todos que passavam podiam vê-los livremente. Eles estavam concentrados em seus notbooks, alguns até concentrados demais. Dava pra sentir a vontade e o esforço que eles tinham para entrar nessa escola. Eu os entendo, eu acho. Foi ali que eu o vi pela primeira vez.
 Ele estava sentado no meio. Ele parecia muito concentrado por alguns minutos, mas depois ele se dispersava. Parecia pensar muito em suas respostas e sua cabeça parecia ficar confusa. Ele tinha cabelos levemente cacheados e era tão... forte, tão lindo. Meu coração na hora palpitou. Ele era a coisa mais linda que eu já tinha visto. O jeito como mordia a boca e fechava os olhos quando pensava que havia errado uma questão. O que era aquilo? Quem era ele?

Demi's POV.

 — SAIAM!
 Emma gritou e os dois saíram do closet aos tropeços. Eu fechava minha boca ao primeiro indício de que iria rir alto, mas não dava. Era uma das cenas mais engraçadas e cabulosas que já vira na vida. Que mole esses dois dão. Ava ajeitava seu cabelo e sua roupas enquanto Joe colocava sua camisa.
 — Eu... Eu estava arrumando o armário, só isso. — Ava gaguejou, suas mãos tremendo.
 — Eu estava... Estava... Arrumando... — Joe parecia tão nervoso quanto Ava.
 — É por isso que temos uma equipe de manutenção! — gritou Emma. Aqueles dois são sabiam mentir, credo. — Sabem que é proibido os meninos entrarem no quarto das meninas quando não tem um responsável junto! — ela empurrava os dois escada abaixo enquanto gritava em seus ouvidos.
 — Eu sei, eu sei que a culpa é minha! — Ava falou — Emma, por favor... Eu já disse que...
 — Ah, cala a boca! — gritou Emma.
 A secretária fechou os olhos mais uma vez, parecendo tentar eliminar a cena anterior de sua cabeça. Eu mesma iria fazer isso depois. Mas de algum modo Emma parecia já ter visto aquilo antes, muitas vezes, principalmente vindo dos dois.
 — Infelizmente eu vou ter que relatar esse episódio desagradável ao senhor Ethan. — disse ela quando chegaram lá embaixo.
 — Não, por favor! Não queime o meu filme com ele. — pediu Joe.
 — Eu não queimo filme. Só cumpro com o meu dever. — Emma o olhou com raiva, como se não suportasse mais olhar para o rosto do garoto.
 Lentamente, abri a porta do armário com cautela. Fiz o mínimo barulho possível até conseguir sair daquele cubículo e me agachar no chão, ficando de quatro, engatinhando rapidamente para olhar de perto aquela cena.
 — Tudo bem. É que eu já estou acostumado a levar surras. — Joe deu de ombros, com ar de dramático — Primeiro o acidente... E agora isso. — ele deu uma rápida olhada para Ava — De repente me expulsam.
 Eu não conhecia aquele garoto. Na verdade, era a primeira vez que o via, mas estava na cara que ele era um visitante frequente na diretoria e um dos depravados dessa escola. Um dos poucos depravados, já que essa era uma escola de elite, coisa séria. Estava escrito em sua testa que era um filhinho de papai, um mauricinho. Revirei os olhos ao pensar nisso.
 Emma pareceu amolecer o olhar. Ela bufou e disse:
 — Está bem. Dessa vez eu não vou falar nada.
 Joe abriu um sorriso enorme.
 — Obrigado! — ele suspirou — Você é um amor, Emma! — ele avançou nela, dando-lhe um beijo enorme na bochecha.
 Ela rapidamente o afastou.
 — Você não vai me convencer com carinhos. Ok? Da próxima vez que eu encontrar você aqui, eu não vou ter piedade. E vamos logo pro refeitório porque já está na hora do almoço! Vamos logo.

Selena's POV.

 — Não entendo seu pedido, Selena. — disse o diretor Ethan após meu enorme discurso que havia acabado de terminar. — Você sabe perfeitamente que o conselho nos obrigada a dar um percentual de bolsas todos os anos.
 — Eu sei. — bufei — Mas também sei que quase ninguém consegue receber a bolsa.
 — Bom, o colégio não tem culpa se os alunos abandonam porque não alcançam o nível. — ele deu de ombros.
 Rangi os dentes, revirando os olhos. Não era a toa que eu achava Ethan uma das pessoas mais idiotas da face da terra.
 — Todo mundo sabe muito bem que não é por isso. — rebati.
 Ele me olhou confuso e eu novamente revirei os olhos, me aproximando de seu rosto e sussurrei:
 — É pela Seita.
 Ethan me lançou um olhar matador. Aquele olhar que ele sempre lançava quando algum indivíduo falava na Seita. Aquele olhar de enojação, como se não acreditasse, ou não quisesse acreditar. Mas como ele poderia fugir? Todos estavam muito bem cientes da existência da Seita. Da existência de uma organização que bane bolsistas para que o colégio continue privilegiado com pessoas que realmente tem o "nível", como eles dizem. Ninguém imaginava o quanto a Seita poderia ser perigosa, e esse assunto me causava arrepios.
 — Se veio aqui pra falar de rumores infundados, não vou terminar a conversa! — ele trincou os dentes, parecendo querer dar um soco na minha cara.
 — Não, eu não vim falar da Seita.
 Ethan bufou, ainda me olhando com certa raiva. Esse assunto o deixava nesse estado. Ou ele não queria acreditar ou era um completo incrédulo e cego.
 — Olha só, eu vou dizer de uma vez por todas, nesse colégio não existe nenhuma Seita! Nenhuma organização nem nada parecido. — ele rosnou pra mim, aparentemente nervoso.
 Eu revirei os olhos. Era inútil discutir com Ethan sobre aquilo.
 — Tudo bem. Mas eu também não vim falar sobre os bolsistas, eu vim falar dos novos! — pensei logo em Demi, e meu estômago embrulhou.
 — Qual é o problema dos novos? — agora ele parecia entediado.
 — O problema é que não é possível que para cobrar uma taxa, o colégio aceite um novo rico qualquer!
 Ethan suspirou e se sentou em sua cadeira de couro, abrindo novamente seu laptop.
 — Deixa eu ver se eu entendi, você está falando de alguém em especial? — perguntou ele.
 — Estou, claro que estou. E eu preciso esclarecer isso, eu não vou dividir o meu quarto com a filha de uma artista barata!
 — Não é uma artista barata! — Ethan gritou, se levantando como um jato da cadeira, me olhando com raiva — É uma artista muito conhecida! Além disso, você não é ninguém para opinar sobre a família dos novos alunos.
 Abri a boca, chocada. Como assim Ethan estava contra mim? Todas as opiniões que dei dentro dessa escola foram respeitadas por ele, eu não pisava na sala da direção a toa, ok?
 — Bom... Talvez eu não. — dei um riso irônico — Mas eu acho que o meu pai não vai gostar muito quando souber. Porque ele paga muito caro pra me manter nesse colégio que, dizem, é de elite.
 Ethan me olhou cético. Se ele não me ouviria, eu teria que colocar meu pai no meio, como sempre.
 — Presta atenção, Selena. — disse ele — Se o seu pai tiver algum problema, eu vou falar com ele quando retornar de viagem. E agora, se me der licença — ele caminhou até a porta —, pode se retirar, porque estou muito ocupado!
 — Diretor! — arregalei os olhos. Ele estava me mandando embora?
 — Aluna, eu estou ocupado!
 Bufei e saí, batendo os pés. Aquilo não iria ficar assim.

Nick's POV.

 Terminei de fazer a prova e minha cabeça estava literalmente explodindo. Eu tinha dúvidas sobre várias questões, mas não queria revisar minha prova novamente, pois o tempo já estava se esgotando e se eu ficasse mais tempo naquela sala iria desmaiar. Odiava ser o último, eu ficava muito nervoso e não conseguia fazer nada. Avisei aos superintendentes que havia terminado e fui para a porta, mas por último dei uma olhada em Miley, que estava sentada em um canto da sala. Sussurrei um "boa sorte" e saí, respirando um ar puro.
 Quando botei meus pés para fora da sala, rapidamente vi uma garota correndo na direção oposta, no sentido do salão principal. Juntei as sobrancelhas, confuso. Balancei a cabeça e me virei para o mesmo lado, começando a andar, quando trombo com alguém sem querer.
 Era um garoto. Ele era alto e meio magro, com um cabelo estiloso louro cor de bronze, e pela sua blusa de mangas dava pra ver sua enorme tatuagem no braço esquerdo. Ele carregava alguns livros na mãos, que foram para o chão quando nos esbarramos.
 — Ah, pelo amor de Deus, você não olha por onde anda? — ele murmurou, me encarando enquanto pegava seus livros.
 — Desculpe, eu não te vi. — balancei a cabeça.
 — Se você não enxerga é melhor você ir pra uma escola de cegos, ta bom? — ele se levantou com seus livros novamente na mãos.
 Eu não pensei muito no que aconteceu em seguida. Só sei que em mínimas palavras ele tinha me deixado nervoso.
 — Escuta aqui, garoto! Tá pensando o que? — peguei na gola de sua camisa, me aproximando dele.
 — Quem você pensa que é?!
 — Sou eu que vou quebrar a sua cara se aparecer na minha frente de novo! Ta entendendo?
 Ele bufou e se soltou de mim ligeiramente.
 — Tomara que não passe na prova. — agarrou seus livros e saiu de perto de mim.
 Um peso me invadiu. O que eu estava fazendo? Agora eu iria me meter em brigas? Que ótimo, eu nem tinha entrado na escola ainda. Belo exemplo, Nick. Assim que você quer que eu as coisas dão certo? Meio difícil, colega. Eu suspirei e voltei a caminhar para o corredor principal.
 Haviam algumas pessoas circulando por ali, o que foi mais fácil pra mim. Eu agendava em minha cabeça um tempo para fazer um tour por aquela escola gigantesca, mas não agora. Agora eu tinha apenas que saber informações básicas. Encontrei com um dos bolsistas que havia terminado a prova no mesmo tempo do que eu e paramos para conversar no meio do corredor, de como estavam as provas e essas coisas.
 O corredor começou a encher aos poucos. Me interagi tanto na conversa com ele que, quando ele se despediu para comer alguma coisa, eu me vi quase no meio de uma multidão. Rolei os olhos pelo ambiente e eu a vi.
 Vi uma garota parada perto dos armários. Eu não sei se estava louco, mas quando mirei meus olhos nela, a mesma revirou o rosto, como se estivesse olhando pra mim o tempo todo. Eu a olhei novamente. Ela lentamente foi olhando para mim de novo, e em uma fração de segundos eu senti meu coração dar uma palpitação.
 Ela era linda. Tinha cabelos castanhos longos e ondulados, uma boquinha de cereja, olhos redondos e castanhos perfeitos... Era magra e esbelta e tinha um perfeito rosto de anjo. Eu paralisei na mesma hora. Juro que nunca me hipnotizei com uma garota assim.
 Ela parecia nervosa com algo e eu poderia estar louco, mas jurava que ela olhava pra mim. Sim, olhava diretamente pra mim. Eu não sabia ler o seu olhar, mas não conseguia parar de olhá-la. Era incrível.
 De repente ela pareceu "acordar" de um transe e se virou, indo embora por um dos corredores. Eu acordei e suspirei, me perguntando o que havia acabado de acontecer.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Depois da Chuva - 11

“Você não me quer, como eu quero você. Você não precisa de mim, como eu preciso de você. Você não pode me ver, como eu te vejo. Eu não posso ter você, como você me tem. Eu não posso te roubar, como você me roubou.” — The Pretty Reckless.
Sala da direção
Academia Yancy
Nova York

 — Senhor diretor, minha família mora muito longe daqui. — Nick suspirou, se sentando na cadeira de couro em frente a Ethan, já quase desistindo — Olha, eu entendo que nessa escola tem muitos filhos de estrangeiros e diplomatas, porque não podemos fazer...
 — Olha, rapaz, não insista! — interrompeu Ethan, parecendo impaciente — Eu não posso aceitar a inscrição de nenhum aluno sem prévia entrevista com os pais do aluno ou os tutores do aluno.
 Nick apertou os olhos, ele mesmo começando a ficar impaciente. Tentou pensar em um plano rápido, mas foi impossível. O que poderia fazer em uma situação daquelas? Fora de cogitação tocar no nome de sua mãe.
 Ethan encarou Nick, se perguntando quando ele finalmente sumiria de sua sala.
 — Me dá licença, rapaz? Por favor? — pediu o mesmo, pegando sua xícara de café — Além disso, vejo aqui em sua inscrição que seu pai é falecido, não é?
 Nick o olhou bem cético, alegando em seu próprio olhar que aquele era um assunto proibido.
 — Ou então a sua mãe é a responsável. — Ethan deu de ombros — Eu preciso...
 Ethan parou de falar com uma batida na porta.
 — Senhor diretor — Emma entrou na sala. — Está aqui fora a responsável pelo candidato Nick Jonas.
 O coração de Nick disparou. O que? Como assim? Responsável? Ele não tinha responsável, e não havia avisado a ninguém. Nick gelou ao pensar em sua mãe, em como ela havia descoberto que ele estava tentando entrar na Academia Yancy, e não em uma universidade, como havia prometido.
 — Pode entrar. — Disse Emma.
 Abigail entrou trotando pela porta. Nick a olhou confuso e assustado, e todas as alternativas sobre sua mãe foram descartadas na hora.
 — Seu idiota, você fugiu de mim! — Abigail gritou, puxando os cabelos de Nick. O garoto gemeu, não entendendo nada.
 — Senhora, senhora! — Gritou Ethan, fazendo Abigail o olhar. — Espera, a senhora não é a tia da candidata Swift?
 — Sim, e madrinha desse bandido que quer aprontar mais uma! — Rosnou para Nick. — É que a mãe dele e eu somos, como posso dizer... Irmãs. Mas é que o Nick insiste em entrar e eu... Am... Ele quer ficar junto da Taylor. Quer ter certeza de que ela terá boa educação. — Notava-se seu nervosismo.
 — Espera aí, perdão, mas eu não estou entendendo. — Ethan juntou as sobrancelhas. — O problema não é esse. O problema é que eu preciso de uma autorização legal assinada pela mãe desse rapaz pra eu poder dar entrada na inscrição dele.
 — Ah, não se preocupe com isso! — Abigail sorriu. — Eu vou trazer assim que ela mandar. Mas por favor, deixa que ele faça a prova. Se não o Nickzinho vai se atrasar e vai perder o ano, eu sei que o senhor é um homem muito bom...
 Nick não disse nada. Continuava mudo, apenas observando o que Abigail tentava fazer. Seu coração batia mais acelerado ao ver que ela conseguia convencer o diretor.

Dormitório das meninas / Selena's Room
Academia Yancy
Nova York

 Demi literalmente estava infernizando as garotas. Ela quebrava as coisas e fazia uma zona no quarto. Bagunçou a cama de Selena e jogou suas maquiagens no chão, fazendo Selena ficar louca e querer matá-la. Ela fez uma grande zona no guarda-roupa de Ava, que foi uma grande loucura, pois não havia nada de mais importante para Ava do que aquilo. Isabella já estava com ódio o bastante de Demi para ajudar as amigas a "acabarem com ela". Demi com certeza era um problema no meio das 'populares' e parecia fazer de propósito. Ela queria fazer de propósito.

Corredor
Academia Yancy
Nova York

 — Então faremos assim: você falsifica a carta da sua mãe, e eu consigo que alguma pessoa assine para que tenha valor. — Abigail sussurrava para Nick fora da sala da direção.
 O garoto deu um sorriso fraco.
 — Olha, obrigado pelo que está fazendo por mim. Se arriscar assim por um estranho é muito difícil, obrigado.
 — Eu sou assim, meu filho. Nem me lembre, porque eu volto atrás. Porque não é uma coisa muito correta.
 — Não, não, que isso. — Nick deu de ombros.
 — Além disso, não pense que vai sair de graça. — Ela sorriu.
 Nick bufou, sentindo um peso em suas costas.
 — Pode dizer.
 — O único favor que eu quero pedir é que... Cuide da Taylor. — Abigail suspirou, olhando bem nos olhos de Nick. — Sabe, ela é uma boa menina. É muito inocente, e eu quero que você a proteja. Não deixe que ninguém faça nada a ela.
 — Não se preocupe. — Nick falou baixo, o pedido o pegando de surpresa. — Vou ser como o irmão mais velho da Taylor. Não vou deixar que nada aconteça a ela.
 — Ah, não sabe a tranquilidade, que peso você tirou da minha consciência! Não imagina! — Abraçou Nick em um rompante, seus olhos começando a ficar marejados. Quando pensava em Taylor, sempre pensava com preocupação, como se não soubesse como deixá-la sozinha no mundo, com medo de que a machucassem. Nick a abraçou, de repente sentindo essa mesma preocupação se transferindo para ele.

Dormitório das meninas / Selena's Room
Academia Yancy
Nova York

 — Não aguento mais, eu preciso de ar! — Bufou Selena, saindo do quarto com as amigas. — Que horror, essa menina é um atentado contra o bom gosto.
 As três riram.
 — De onde ela tira tanta porcaria? — falou Isabella.
 — Do lixo, de onde mais? — riu Ava.
 — Eu não sei, mas eu não suporto ela, vou ter um treco, preciso de ar! — Selena bufou.
 — Oi, e aí? — uma garota loira com uma touca falou Selena, Isabella e Ava. As três a olharam confusas. — Tudo bem?
 As três olharam, de repente formando um sorriso.
 — Estamos super bem, e você? — responderam em coro, como em uma 'coreografia'.
 Madison as olhou estática. Claro que achou aquilo ridículo.
 — Hmm... Aqui é o quarto das meninas? — perguntou ela, tentando tirar a imagem anterior de sua cabeça.
 — É... Você é nova? — Isabella a olhou de cima a baixo, reparando em suas roupas surradas.
 — Sim, meu nome é Madison. — fez o mesmo toque de mãos em Isabella, mas a garota também não conhecia aquela arte.
 — Vem cá, você é bolsista, não é? — perguntou Selena.
 — Como é você sabe?
 — Bom, olha, não é difícil notar, as suas roupas e o seu cabelo são um pouquinho radicais. Mas não se preocupe, nada que Selena Gomez, especialista em produção visual não possa resolver.
 As meninas sorriram. Madison as olhou com completo... Nojo. Na verdade, ela não esperava encontrar isso quando pisasse naquela escola. Esperava encontrar pessoas legais e gente desinterassada.
 Mal podia ver que estava super enganada.
 — Mas se você é bolsista, não devia estar fazendo a prova? — perguntou Isabella.
 — Hm, não. Eu vim pra cá como bolsista atleta.
 — E o que é isso? — Ava perguntou.
 — É que eu pratico taekwoundo e acho que quando tiver um intercolegial eu vou representar o colégio. — deu de ombros.
 — Não, não. — Selena balançou a cabeça — A Academia Yancy jamais participa dos intercolegiais. Ainda mais nesse negócio aí de taekwondo, eu acho que você errou de escola.
 Madison as olhou confusa. Não sabia o que pensar naquele momento, mas desejou sair de perto daquelas três antes que ficasse louca.
 — Ta bom, eu vou te mostrar o seu quarto, as bolsistas ficam pra lá. — falou Isabella, começando a andar pelo corredor — Vamos, meninas.

 — Olha, esse quarto aqui está disponível. — Isabella entrou no quarto — Pode escolher qualquer lugar e decorar como você quiser.
 — Ah é, como o nosso! — Selena sorriu, se sentando em uma poltrona vermelha — O nosso quarto foi todo decorado pelo Aiden Thomas, meu decorador. Ficou lindo, você nem imagina. Ele deixou cada uma com o seu estilo divino. O único mal é que agora chegou uma ignorante chamada Demi. — Selena torceu o nariz — E estragou tudo, todo o trabalho que fizemos em meses. Juro que me deu vontade de vomitar vendo as coisas que ela trouxe. Bom, eu digo isso porque sou super sensível e você ainda não me conhece.
 — Ai, que nojo, uma mosca! — falou Ava, parecendo abafar o ar.
 Madison ainda as olhava confusa, como se aquelas garotas não fossem reais. Não tinham nada a ver com ela, e já começava a não suportá-las.
 — Hmm, eu vou pegar a minha mala. — falou ela, indo até a porta.
 — Eu te ajudo. — Isabella foi atrás dela.
 — Tem moscas nesse quarto?! — Selena sussurrou para Ava, com cara de nojo.
 — Ah, que nojo isso, fala sério!
 — Ai! — Isabella bufou, largando a mala de Madison no chão. — Tem algo que quebre aí?
 — Não sei, fizeram a minha mala no orfanato. — Deu de ombros.
 — Espera aí, você veio de um orfanato? — Isabella arregalou os olhos.
 — É, algum problema? — ergueu as sobrancelhas.
 — Não, é porque aqui isso não é comum. — Ava sorriu forçado.
 — Me desculpe, mas eu nunca vi uma órfã ao vivo... Como é ser órfã? — Selena a encarou como se fosse ouro.
 — Deve ser super deprimente, não é? — Isabella falou, olhando para Madison com pena.
 — Pior que não, lá se aprende muito. Uma das coisas que eu aprendi lá é: destruir tudo que te incomoda. — Lançou um olhar mortal para as três.

Campus de golfe
Academia Yancy
Nova York
Joe's POV

 Bom, eu não fui pra casa após sair do hospital, como podem ver. Ainda tinha que realizar os temerosos trabalhos voluntários, coisa que com certeza não era pra mim. Eu estava odiando aquilo, não tinha nada pior, eu deveria estar em casa descansando bastante e ser mimado pelos meus empregados, poxa, eu acabei de sofrer um acidente!
 Mas o senhor Collins tampouco pensava desse jeito.
 Ele teve prazer em ir até meu quarto no hospital para jogar na minha cara que havia feito uma denúncia contra mim sobre o acidente. Tudo bem, eu vacilei, eu admito, mas ele é meu pai. Será que qualquer outro pai faria isso com o filho? Não consigo nem imaginar, ele me dá nos nervos, apesar de eu sempre afastar esse sentimento de mim. Ele me deixa nervoso e com ele não posso dizer sequer o que quero e o que penso sobre nenhum assunto. Ás vezes me espelho nele, mas na maioria das vezes eu o desejo longe da minha frente e da minha vida.
 Saí do meu quarto e fui para o campus de golfe, entrei em um carrinho e aproveitei para ligar para Jacob. Contar as "novidades":
 — Pois é, Jacob, o juíz mandou fazer trabalho voluntário numa cidadezinha... Juro que preferia morrer. — Balancei a cabeça, afastando tais pensamentos. — Aposto que foi ideia do meu pai. Não me deixa sozinho nessa, ok? Ta bom, tchau.
 Desliguei o telefone, já voltando a sentir a mesma repulsa de antes. Eu estava atordoado com toda aquela situação, estava fora de cogitação eu, Joe Collins, passar o verão inteiro trabalhando. Qual é, eu nunca nem lavei um prato em casa, agora terei que trabalhar para outras pessoas? Foram só maconha e bebidas, ok? Porra, foi só uma mancadinha!
 Ainda continuava rodando pelo campus com o carrinho, passei pelas líderes de torcida fazendo alongamentos no gramado, as quais acenaram para mim alegres e sorrindo. Assanhadas. Me adoravam, eram loucas pra transar comigo, e eu já havia pegado metade. Assim como metade dessa escola.
 Quem pode, pode.

Selena Gomez's POV

 Aquela Madison me assustou, eu não vou negar. Depois das últimas palavras que ela me lançou, eu e as meninas demos uma desculpa para sairmos correndo daquele quarto o quanto antes. Até tinha passado pela minha cabeça que eu poderia ajudá-la aqui, mas logo descartei. Não gosto de trabalhos difíceis, muito menos de cobaias difíceis. Se quer ficar do jeito que está, que fique. Eu, Ava e Isabella saímos daquele quarto, indo direto para o campus de golfe.
 Ao chegar lá, pegamos um carrinho e nos amontoamos em cima dele, eu e Ava na frente e Isabella atrás. Conversávamos sobre assuntos recorrentes quando cruzamos com o carrinho de Joe a nossa frente, o qual havia acabado de azarar simultaneamente várias líderes de torcida atrás dele. Eu automaticamente dei um sorrisinho cínico pra ele. Eu já estava ligada na mega confusão que ele havia se metido, aliás, quem não sabia?
 Joe parou o carro a minha frente, me fazendo parar também. Nós dois nos encaramos.
 — Joezinho! — Falei, sorrindo. — Suas férias foram curtas, não é?
 Ele riu, balançando a cabeça.
 — Olha só quem fala. Você nem saiu daqui, gatinha.
 Ele piscou para mim, e depois arrancou com o carrinho, dando de ré e virando na direção oposta. Fiquei estática em meu lugar. Como assim? Ele é apenas Joe Collins. Apesar de ele ter dito a verdade, eu não aceitava ouvir aquilo dele, não mesmo.
 — Hahaha. — Ri irônica, não achando graça nenhuma.
 Ele deu uma última olhada para nós e saiu de vez, sem olhar pra trás. Já vai tarde.
 — Vem cá, porque você trata ele assim? — Perguntou Ava de repente. — Eu acho que você está afim dele.
 — Mas é claro que não. — Nós duas rimos, eu achando completamente sem nexo o que ela acabara de dizer. — Sabe, Ava, ele é um gato, mas não faz o meu tipo. E ficar com ele? Fala sério!
 Ela me avaliou, parecendo querer entrar da minha cabeça para ver se eu estava falando a verdade.
 — Bom... — disse ela.
 — Bom o que? — perguntei.
 — Eu já volto! — ela deu um gritinho, saindo do carrinho rapidamente e correndo para onde Joe havia partido.
 Eu ri e a olhei, meio perplexa, mas não assustada. Joe seria o novo alvo de Ava, isso eu já esperava para esse ano.
 — Ah, vai pedir carona pra ele, vai? — eu ri, vendo ela correr empolgada.
 — Ei, por favor! — ouvi ela dizer para um garoto que estava de bobeira parado em um carrinho. — Pode me dar uma caroninha até lá em cima?
 O garoto apenas sorriu e ela subiu em seu banco carona, o carro arrancando para frente. Que esse garoto não queira nada em troca, por favor. Ava era louca, era capaz de aceitar para não ficar mal na fita. Apenas balancei a cabeça e Isabella se sentou ao meu lado, no antigo lugar de Ava.
 — Amiga, fiquei pensando muito no que a Ava disse. — falou Isabella.
 — O que?
 — Que você e o Joe seriam o casal ideal. Os dois são iguais. — ela sorriu, parecendo sonhar com esse dia.
 Eu ri. Na verdade, gargalhei. Não era possível. Onde que eu e Joe éramos "perfeitos um pro outro"? Nunca, né? Contem outra, o garoto é um bebêzão e fica com todas as meninas do colégio. Um namoro dele deve durar o que? 1 semana? E olhe lá...
 — Ah, Isabella, por favor! — bufei, rindo. — Sério, não tem nada a ver. Você pensa umas merdas muito grandes, mas tudo bem.
 Ela revirou os olhos, parecendo não mudar de ideia.
 — Viu a Ava? Ela perde a linha, saiu voando atrás do Joe. É só aparecer um menino que ela vai correndo atrás.
 — Ai, não começa, não critica, ela é nossa amiga, lembra? — levantei as sobrancelhas.
 — É óbvio, eu sei que ela é nossa amiga, mas isso vai ficar entre a gente, ta? Olha, você não vai negar que ela é super atiradinha com os meninos. — deu de ombros.
 Eu ri. Na verdade, foi a única coisa que eu encontrei naquele momento.
 — Isabella, para! — falei. — Já chega. O problema é que a Ava tem que ser boazinha porque todos os meninos querem ficar com ela. Tem que ser como eu, não os trato mal, mas eu parto o coração deles.
 Ela bufou.
 — Você é legal, mas eu acho ela muito oferecida!
 — Sério?
 — Por isso que eles te procuram tanto.
 — Ta bom, chega de criticar. O que eu ia te dizer a 5 minutos é que eu tenho que ir falar com o diretor, por isso querida, me dá uns minutinhos, vai lá.
 "Expulsei" Isabella do carrinho, mandando um beijinho no ar. Logo mais, saí com o carrinho, direto para a sala do diretor. Haviam assuntos importantes a tratar com ele, muito importantes.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Depois da Chuva - 10

“Comece a perceber. Em cada verso meu, tem um pouco de você.” — Allax Garcia. 

Avenida Begrs Street
Nova York
"Ok, pode parar aqui." — Logan se manifestou no carro — "Daqui eu vou sozinho."
"Porque, filho? Falta tão pouco." — disse seu pai.
"Eu sei, pai, mas eu não sou mais uma criança pra você me deixar em frente a escola."
 Seus pais suspiraram e pararam a uma distância mínima da Academia Yancy, enquanto Logan se atirava para fora da caminhonete Hi-Lux, pegando apenas sua mala preta de rodinhas e começando a caminhar.
"Filho, espera!" — sua mãe gritou, o fazendo parar de má vontade — "Sabe o que é? Eu gostaria de conhecer seus colegas. O seu quarto, o refeitório..."
"Ok, mãe, mas não vai dar. E também não quero que venham me visitar nos fins de semana. Quando der eu visito vocês." — deu de ombros.
"Mas nós achamos importante visitar você aqui." — sua mãe sorriu.
"Tudo bem, tudo bem." — seu pai cortou a conversa, dando um riso forçado — "Ele é assim." — abraçou Logan, fazendo o garoto executar uma careta de mal gosto — "Sabe, eu sinto muito orgulho de um filho de um simples açougueiro, de gente do campo, chegou ao melhor colégio do país. Sabe, filho, você vai chegar mais longe do que eu."
 Logan revirou os olhos, completamente entediado.
"Desde que seja um homem bom e trabalhador como você." — os pais se olharam — "Porque é o que eu quero."
"Tudo bem, mulher. Ele quer ser mais do que eu..."
"Mas porque ser mais? Além disso, ele pode continuar com o negócio do açougue. Nós conseguimos juntar mais do que jamais sonhamos."
"Ok, chega!" — gritou Logan — "Já chega, ok? Não vai começar agora com aquela história de miséria, que um dia ficamos ricos e blá blá blá." — ele bufou.
"Tudo bem, filho." — seu pai sussurrou — "Boa sorte. Trouxe tudo?"
"Sim, pai." — respondeu Logan, morrendo de vontade de vê-los longe.
"Aqui, filho. A medalinha do seu batismo." — sua mãe colocou um cordão de prata em seu pescoço — "Ande sempre com ela."
"Obrigado... Agora vão." — Logan bufou, e dessa vez seguiu em frente para a Academia.

Queens
Nova York

"E depois o meu pai morreu." — completou Nick, com o olhar distante, enquanto ele, Abigail e Taylor estavam sentados, ainda esperando o ônibus.
"Coitado." — Taylor suspirou — "E morreu de que?"
"Ele já estava doente." — Nick deu de ombros.
"Puxa..." — Abigail suspirou, observando Nick.
"Na verdade, o sonho dele era que eu entrasse pra essa escola, por isso eu vim." — Nick mentiu, rolando os olhos. Era a primeira vez que mentia daquele jeito em voz alta.
"Vai ser difícil." — falou Abigail — "Nessa escola é tudo complicado. Não pense que vai ser tão fácil entrar."
"Mas... Eu posso falsificar a assinatura da minha mãe..."
"Como vai falsificar a assinatura da sua mãe, garoto? Te expulsam! Não, aqui é tudo cheio de regras!" — ela bufou — "O que eu quero dizer é o seguinte, precisa de alguém que se responsabilize por você. Que fale por você, que o defenda, entendeu?"
"Mas esse é o sonho da minha vida inteira. É quase meu projeto de vida, entrar pra essa escola..." — Nick imaginava se não estaria exagerando demais.
"Você vai entrar, eu tenho certeza." — Taylor sorriu, encorajando-o.
"Não, você vai entrar, eu tenho certeza."

Centro Médico Chapon Hill
Nova York

"Venha, filho." — a mãe de Joe puxou o garoto pelas mãos enquanto terminava de colocar suas roupas normais. Joe estava com a cara mais abatida de todas. Não dormia direito havia dias e sua cabeça ainda doía com o curativo acima da sobrancelha.
"Eu estou bem, mãe." — Joe falou baixo, ainda sentindo dores.
"Vejo que se recuperou perfeitamente, Joe." — o diretor Ethan entrou pela porta do quarto, o que causou ainda mais dores de cabeça em Joe.
"Senhor diretor, me desculpe." — falou Joe — "Eu sei que vacilei. Acho que dessa vez a situação é um pouco delicada, não é?"
"É..." — Ethan deu de ombros.
"Mas não está pensando em me expulsar, não é?"
"Bom, eu devia, Joe, mas falei com o seu pai e considerando que todos os seus irmãos passaram pelo nosso colégio, vamos considerá-lo como um caso especial." — Ethan sorriu e Joe o olhou confuso — "E tem mais, eu falei com o juíz e não precisará ser processado. Isso não significa que não terá uma punição."
"Ah, muito obrigada!" — falou a mãe de Joe, sorrindo como sempre — "Que consideração. Agradeça a ele, Joezinho." — deu uma cutucada em Joe.
"Obrigado. Qual é a punição?"
"Está aqui, especificado." — Ethan tirou do bolso do terno alguns papeis — "E você vai realizar trabalhos voluntários. E não se preocupe, vai ser na cidade, perto do nosso clube de férias. Mas fique sabendo que vai ter um inspetor vigiando você."
"É por isso que eu adoro a sua escola!" — a mulher riu, pegando no braço de Ethan e o encaminhando para fora do quarto.
"Senhora, por favor..." — Ethan ria nervoso.
"É tão encantador..."
"Nós temos prazer em poder ajudá-lo." — sorriu.

Área da piscina
Academia Yancy
Nova York

"Oi, gatinha!" — gritou Logan ao ver uma loirinha baixa andando em sua frente. A garota o olhou, parecendo confusa — "E aí, posso te ajudar em alguma coisa? Eu já vi que você é nova aqui, e sei lá... Logan Lerman." — estendeu a mão.
"Eu sou Madison Taylor." — fez um toque de mãos com Logan, e o garoto a olhou cético. Só agora havia percebido algo 'macho' na garota.
"Hmm, Madison Taylor..." — ele analisou-a — "É que... Combina com seus olhos." — Madison riu — "Então, você é bolsista aqui? Veio fazer a prova?"
"Não, pra mim não disseram nada."
 Em algum canto da piscina, no meio da confusão entre os jogadores que praticavam volleyboll na água, a bola escapou dentre as mãos de alguma pessoa, fazendo a bola correr pelo teto e bater em Madison, na parte de seus seios. A garota soltou um gemido de dor e as pessoas na piscina a olharam preocupados. Não com ela, claro, mas se ela devolveria a bola numa boa.
 Madison os olhou com raiva. Logan apenas revirou os olhos, se fazendo de desentendido, como se não estivesse presente naquele momento. Madison pegou a bola do chão.
 — Quem foi o idiota? — A garota gritou, olhando para as pessoas na piscina.
 Ninguém soltou um pio. Ela bufou e em menos de 1 segundo, jogou a bola pra cima, chutando-a em seguida, com uma força extraordinária. O queixo de Logan caiu. Ele e todos acompanharam enquanto a bola voava pela quadra, por cima da piscina. E todos olharam com medo até ver que a bola ia em direção a um homem descendo as escadas, há uma distância significante da quadra. Não deu outra, a bola bateu em seu braço, dando um estalo.
 — O que aconteceu, Daniel? — Gritou o homem, massageando seu braço onde fora atingido, saindo em seguida batendo os pés.
 Daniel Anderson era o professor de educação física, presente na quadra naquele momento, e não soube o que dizer naquele momento. Não podia dizer nada, ainda olhava perplexo para Madison, assim como os outros.
 — Nada mal. — Logan comentou após as pessoas terem "acordado" e voltado para suas atividades. — Eu aposto que você quer ajuda com a sua mala, não é? O que é isso aqui? Seu tapete de alongamento? — Ele riu, enquanto pegava a mala de Madison.
 Os braços de Logan queimaram. Pareciam haver pedras na mala da garota. Logan soltou um gemido gutural enquanto tentava levantar a mala, e Madison apenas soltou um sorriso.
 — Vamos lá? — Ela riu e começou a caminhar para dentro da escola, sendo seguida pelo andar devagar de Logan.

Dormitório das meninas / Selena's Room
Academia Yancy
Nova York

 — Eu não voltei só por você, Selena, eu voltei também porque eu não suportava mais a minha mãe e o imbecil do meu irmão. — Ava bufou enquanto Selena passava pó em seu rosto. — Só porque o meu pai saiu de casa, ele se acha o dono de tudo.
 — Soube mais alguma coisa dele?
 — Não. Ele se divorciou da minha mãe, se divorciou de todos.
 — Vocês já viram os alunos novos? — Perguntou Isabella enquanto descia as escadas do dormitório gigante.
 — São uns idiotas... — Murmurou Ava.
 — Tadinhos, pareciam que estavam entrando no matadouro. — Isabella riu.
 — Você já está prontinha. — Selena disse á Ava enquanto guardava um pouco de suas maquiagens. Ava agradeceu murmurando um "obrigada". — Olha, eu nem tive vontade de sair do meu quarto. Já basta ter visto aquela menina... — Selena descia as escadas, indo ao encontro de Isabella. — Sabe o que eu descobri? Que ela é filha de uma artista...
 — Gente, eu vi ela em uma revista, eu achei ela bem bonita. — Ava se levantou do espelho, indo ao encontro das amigas.
 Selena bufou.
 — Ava, acorda! Por favor, nas revistas eles retocam as fotos no computador. — ela se jogou em sua cama — Você precisa vê-la pessoalmente, não é? Conta pra ela, Isabella!
 — Então me contem, eu quero saber. — Ava se sentou em sua cama, e Isabella soltou uma risada.
 — Parece uma árvore de natal com as luzes piscando, é horrível. — Selena contou, fazendo as três rirem. Ava murmurava palavras como "Ah não, não acredito..."
 — E a filha? — perguntou Ava.
 — A filha? Não, a filha é a pior de todas! É a mais idiota que eu já vi na minha vida! — Selena gesticulava com os braços.
 — Espera, me conta aí. — pediu Ava.
 — Não, espera, ela tem um cabelo loiro com umas mexas verdes...
 — Azuis! — corrigiu Isabella.
 — São azuis também? — Selena riu. — São azuis, roxas, sei lá...
 Naquele momento, a porta se abriu bruscamente. Demi chutou suas malas para dentro do quarto, fazendo um silêncio reinar naquele momento. A garota entrou a passos largos, não se importando com as meninas ali.
 — É exatamente desse jeito. — Selena resmungou — Escuta, menina, acho que você se enganou, porque a saída fica por aquele lado. — apontou para um lado distante do quarto.
 — Ah, não me diga! — Demi sorriu irônicamente. — Então me desculpe, pois eu vim pra ficar aqui, bonequinha. — Mexeu nos cabelos de Selena.
 — Mas você me disse que não ia ficar...
 — Pois é, mas eu mudei de ideia. — Demi pulou de joelhos na cama de Selena — Porque eu gostei muito da escola e então... Eu vou ficar aqui. — Sorriu.
 Selena a olhou com nojo e desprezo, e também um pouco de preocupação. Não sabia porque, mas já sentia que Demi iria ser um problema pra ela.
 — Essa escola não tem nada a ver com você! — Isabella disse, se levantando.
 Demi a olhou com graça, dando um enorme sorriso de deboche.
 — É mesmo? — Ela se levantou, ficando em pé na cama de Selena. — Poxa, mas que inteligente você é.
 — Não na minha cama! — Selena gritou ao ver Demi em pé.
 — Deixa eu te perguntar, além de falar, você também sabe fazer piruetas? Como todos as baleias? — Demi falou para Isabella, ignorando a existência de Selena completamente.
 Ava levou a mão á boca, chocada com o comentário de Demi. Selena baixou os olhos, seu peito pareceu se apertar. Isabella a encarou, sua garganta se fechando, como se não houvesse o que dizer naquele momento.
 Isabella era a típica pessoa que estava acima do peso. Isso seria normal, se ela não fosse uma das meninas mais populares da escola. Se sentia completamente fora do mundo comum pelo motivo de não estar no patamar do "corpo perfeito", e se tinha alguma coisa que a machucava era caçoar disso.

Salão principal
Academia Yancy
Nova York

 — Os que entregaram a solicitação podem passar para a sala para fazerem a prova. Só os candidatos! — Anunciou Emma para a aglomeração de pais e filhos na Academia.
 Nick e Taylor se levantaram em um sobressalto, assim como um montante de alunos. Todos pareciam mais nervosos do que o comum, pareciam estarem se decidindo ali na hora se iam ou não. Dava pra ver o pânico nos olhos deles.
 Um a um, os candidatos iam até a mesa de Emma e colocavam a solicitação preenchida, como devia ser. Suas mãos tremiam, sem querer exagerar. Eles estavam mesmo nervosos. Taylor rapidamente entregou nas mãos de Emma e caminhou até a sala, parecendo suar frio.
 Nick se encaminhou para a mesa de Emma, colocou sua solicitação e já foi seguindo para a sala, quando:
 — Jonas! — chamou Emma, fazendo Nick se virar novamente — Você não.
 Nick a olhou confuso e ao mesmo tempo perplexo. Abigail e Miley pararam para ver ao longe, também confusas.
 — Não o que? — perguntou ele.
 — Você não pode fazer a prova. — ela deu de ombros.
 — Mas porque?
 — O diretor não falou com os seus pais. Eles vieram com você?
 A cabeça de Nick queimou. Seus pais? Não havia coisa pior para pedir a ele naquele momento. Estava fora de cogitação envolver seus pais naquilo. Ele respirou bem fundo.
 — Não. — respondeu.
 — Então você não vai poder fazer a prova, eu lamento. — Emma deu de ombros.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Depois da Chuva - 09

“Quando você chega à emergência de um hospital, uma das primeiras coisas que eles pedem é que você dê uma nota para a sua dor numa escala de um a dez. Me lembro de uma vez, logo no inicio, em que eu não estava conseguindo respirar e parecia que meu peito estava pegando fogo, as chamas lambendo meu tórax por dentro, tentando encontrar um jeito de sair e queimar o lado de fora, e meus pais me levaram para a emergência. Uma enfermeira perguntou sobre a dor e eu não conseguia nem falar, então mostrei nove dedos. Depois, quando já tinham me dado alguma coisa, a enfermeira voltou e ficou meio que acariciando minha mão enquanto media minha pressão arterial, então disse: Sabe como sei que você é guerreira? Você chamou um dez de nove.” — A culpa é das estrelas.

 "Pai, eu..." — Joe tentou começar, mas as palavras lhe faltavam. Ele estava com mais medo do que nunca esteve.
"Você faz de tudo pra me destruir." — disse Michael, com seu tom frio e arrogante de sempre — "O que a oposição não conseguiu fazer em anos, você quase conseguiu em um dia." — ele bufou, dando passos até Joe — "Me diga uma coisa, filho, qual é o seu plano? Quer me arrasar? Porque você não aprende com os seus irmãos mais velhos? Eles são mil vezes melhores do que você! Você não pensa na minha imagem pública, não é verdade? Não se importa se ficam falando do seu pai por aí, pelas ruas, em todos os lugares..."
"Pai, por favor, deixa eu falar..." — Joe balançou a cabeça.
"Não, eu não vim pra escutar você! Eu vim pra falar. Eu vim dizer que se você pensa que por ser meu filho vai poder fazer o que você quiser..." — Michael balançou a cabeça, parecendo indignado — "Filho, você está muito enganado. Dessa vez eu não pretendo salvar você. Você foi longe demais, podia ter matado todo mundo!" — Joe abaixou a cabeça, as palavras de seu pai pareciam ser marteladas no cérebro dele — "Você destruiu um carro..."
"Pai..."
"Você destruiu um carro, não é verdade?!"
"Eu vou pagar por tudo, pai, eu juro."
"Não." — Michael soltou uma risada irônica — "A minha confiança não tem preço."
"Nunca teve confiança em mim, não é? Tudo que vê em mim é ruim, pai."
"E tem alguma coisa boa?" — ele levantou as sobrancelhas e Joe sentiu os joelhos vacilarem. Ele não queria escutar mais nada — "Eu vim trazer isso." — Michael retirou uma folha de papel do paletó que usava.
"O que é isso?"
"É uma entimação." — ele estendeu a folha para Joe. O garoto arregalou os olhos.
"Quem fez a denúncia? As garotas?"
"Não... Eu fiz."
 Joe olhou para o pai, com uma expressão de choque e desamparo. Seu pai estava transformando aquela situação na mais infernal de todas. Seu coração pareceu apertar, e de repente ele se tocou de que não sabia do que seu pai era capaz.
"Você?!" — Joe arregalava os olhos chocado.
"A mídia me persegue. Eu tenho que dar alguma coisa." — ele deu de ombros, parecendo completamente satisfeito.
"Ah, claro." — Joe deu uma risada irônica — "Agora eu entendo. O político exemplar quer entregar a cabeça do filho. Maior sacrifício do que esse impossível, não é?"
"Não é assustador que tenha tanta inteligência. Você que não a use, filho." — deu um olhar duro para Joe e saiu, acendendo mais um de seus inseparáveis charutos.
"Pai, espera!" — Joe gritou, mas o pai já havia ido — "É, estou com um pouco de dor de cabeça. Obrigado por perguntar..." — falou a si mesmo.


Highland PS
Nova York

"48, 49, 50, 51..." — Selena arfava enquanto levantava mais um peso no meio do quarto. Não era a primeira vez que se sentia tão entediada a ponto de malhar ali, no quarto mesmo — "Selena!" — ela gritou a si mesma, largando os pesinhos e se olhando no enorme espelho que pegava do chão ao teto — "Selena, o que é isso? Que gordurinha é essa? Não pode ser! Droga! Porque tudo tem que acontecer comigo?!" — ela choramingou enquanto apertava sua barriga em frente ao espelho.
 Selena gemia de indignação ao procurar qualquer tipo de creme nos armários e rezou quantas vezes fosse preciso para que Deus a afastasse das celulites e estrias. A garota ainda se olhava no espelho quando algo escorreu por sua porta. Ela olhou, sem entender no início. Depois viu um pedaço de papel no meio do quarto.
"Quem é?" — gritou ela, mas não obteve resposta. Selena se aproximou e pegou a carta, que estava intitulada como 'Selena Gomez'. Ela rapidamente abriu a porta, mas não viu ninguém, corredor completamente vazio. Ela estranhou e fechou a porta novamente.
"Ah não, e se for um trote? Ou um vírus perigoso?" — ela murmurou, se sentando na cama — "Ou talvez não! Talvez é um menino que quer ficar comigo... E se for aquele gatinho da outra sala?" — ela riu — "Caramba, é muito difícil seu eu! Tenho que ler..." — Selena abriu a carta, com sorrisos involuntários — "Essa caça ao tesouro é pra você. No colégio tem uma coisa que te interessa. Pra encontrar a primeira pista vá ao corredor dos vestiários..."
 Selena parou de ler e não sabia o que fazer. Rapidamente, ela se levantou e saiu pela porta, seguindo para o corredor. Chegando lá, bem em cima dos vestiários, havia plaquinhas onde ela deveria ir. Ela estranhava, pois a escola estava completamente vazia, mas seguia em frente. Depois de ter rodado praticamente a escola toda, ela chegou ao ginásio, que estava completamente escuro e assustador. Selena começou a sentir um medo, pois não via ninguém. E, sem mais nem menos, a garota tropeçou em seus próprio pés e algo caiu em cima dela.
"O QUE É ISSO?!" — Selena berrou ao ver que uma rede caíra em cima da mesma — "QUEM ESTÁ AÍ? EI, QUEM ESTÁ AÍ? ME AJUDA, JÁ CHEGA DISSO!"
 Selena começava a ficar com medo, e não sabia o que fazer. De um canto do ginásio, ela ouviu passos, e de repente duas pessoas apareciam naquele escuro como breu. De repente ela passou do medo para sentir alívio. As duas pessoas eram Isabella e Ava, suas amigas, que viam rindo.
"Calma, amiga!" — disse Ava, rindo, enquanto ela e Isabella tiravam a rede de Selena.
"Suas bobas! Vocês me assustaram!" — Selena estava rindo, estava feliz — "Vem cá, o que estão fazendo aqui? Não estavam de férias?"
"Nós estávamos, mas eu disse pra minha mãe que preferia voltar pro colégio." — Ava deu de ombros.
"Ah, amiga!" — Selena a deu um abraço rápido.
"E é claro que eu inventei pra minha mãe que tinha que estudar algumas matérias." — Isabella sorriu.
"Por isso que eu adoro vocês, porque são as melhores amigas desse mundo! Obrigada por não me deixarem sozinha."
"Como a gente ia te deixar sozinha?" — Isabella riu.
"Não, a gente prefere sofrer com você num martírio." — Ava sorriu.

Queens
Nova York

"É aqui." — Abigail apontou para o logotipo do Highland na figura na parede, avisando que ali era o ponto onde o ônibus do internato passaria — "Essa é a escola, Taylor, eu..."
 Abigail foi interrompida por um ser que esbarrou nela enquanto se virava para Taylor. Instantaneamente, ela o bateu com a bolsa que segurava, fazendo o garoto se assustar.
"Qual é o problema, senhora?" — Nick gritou, afagando seu braço.
"Como assim qual é o problema? Você me deu o maior susto!" — Abigail bufou.
"Eu só vim esperar o micro ônibus do Highland Private School, sei lá..." — ele suspirou.
"Oh, me desculpe, eu não sabia que você também era aluno daqui, mas... É que de repente aparece qualquer um que a gente não sabe se vai cumprimentar ou roubar." — ela deu de ombros. Nick deu um sorrisinho fraco.
"Sou Nick Jonas." — ele estendeu a mão para elas.
"Sou Abigail." — apertou a mão de Nick.
"Eu sou Taylor." — a garota lançou um olhar doce para Nick, que se encantou na mesma hora.
"Pra ser sincera, é muito chato, é que essa cidade você não sabe de onde você é, o que você faz, as coisas são bem difíceis..." — Abigail remexia em sua bolsa enquanto falava.
"Sou da Flórida, mas meus pais moraram aqui há muito tempo." — disse Nick.
"Que legal! Nós somos da Califórnia, mas foi fácil chegar até aqui." — Taylor sorriu, fazendo Nick sorrir junto.
"Ah, então vocês já estão acostumadas com a correria dessa cidade..."
"Não, ainda não acostumamos, falta muito." — Abigail riu — "E como você chegou aqui? Da onde você veio?"
"Na verdade, eu estou muito cansado."
"E de que você veio?"
"De ônibus." — Nick deu um sorriso de lado.
"Nossa, tantas horas de ônibus!"
"12."
"Nossa senhora, que isso, deve estar cansadíssimo. Você já comeu?"
"Hm... Não."
"Toma aqui, eu trouxe uns sanduíches de casa, vai servir pra você."
"Ok." — Nick sorriu.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Depois da Chuva - 08

“Às vezes temos pensamentos que nem mesmo a gente entende. Pensamentos que nem são tão verdadeiros – que não são realmente como nos sentimos –, mas que ficam rondando nossa cabeça porque são interessantes de pensar.” — Os 13 porquês.

   Em Dallas, Texas, o salão "Make Boutique" estava vazio naquela tarde. Não era um local que chamava muito a atenção das pessoas que passavam, com as portas foscas de vidro preto e os dizeres em cima com o cartaz já gasto.
 Lá dentro, pelo contrário, as conversas estavam animadas. Taylor estava sentada em uma das cadeiras alcochoadas de frente ao enorme espelho espaçoso, enquanto sua tia, uma mulher de meia-idade com os cabelos loiros pintados com mechas de várias cores, penteava cuidadosamente o cabelo da garota.
 Taylor era alta, magra e curvilínea. Tinha cabelos loiros chamativos de parar o trânsito e olhos azul-turquesa, que era de causar inveja. A garota era uma gata, se não fosse tão tímida e inocente, e não tivesse tanto medo de encarar o mundo afora.
 Sua tia falava animada, enquanto ajeitava os cabelos de Taylor, fazendo seus cachos se sobressaírem no rosto emoldurado.
 — Ah, quando você conhecer o colégio, não vai acreditar. — ela sorriu para a imagem de Taylor no espelho, um sorriso confiante — Parece até que é um hotel de 5 estrelas. Os quartos são como suítes presidenciais, lindos.
 — Tia, e se não me aceitarem? — Taylor disse, quase em um fio de voz — O que eu vou fazer? O que vai acontecer se eu não conseguir entra pra esse colégio?
 — Mas porque, filha? — a mulher colocou a escova que penteava os cabelos de Taylor de lado — Porque não vão aceitá-la e não vai entrar pro colégio? Diz.
 — Não, é que eu morro de medo de não passar nessa prova. — ela virou a cadeira para ficar de frente para a tia. Suas mãos estavam quase tremendo, só de pensar na possibilidade de não entrar na Academia Yancy.
 A loira abriu um sorriso sem mostrar os dentes. Ela entendia o sofrimento agudo de Taylor naquele momento.
 — Você será aprovada. — falou ela.
 — Depois de tudo que ficou gastando com meus professores particulares pra que eu pudesse entrar... Mas eu prometo, eu prometo, que eu vou pagar por tudo que você já fez por mim.
 — Esqueça essa ideia de pagar! — a mulher olhou torto para Taylor — Porque se disser de novo, eu queimo seu cabelo, faço um permanente, vou deixar tudo verde, o que você acha disso? — ela ergueu uma sobrancelha.
 Taylor se levantou, segurando uma risada.
 — Então você vai me maltratar?
 — Vou sim, vou deixar você careca, o que você acha?
 — Que má! — as duas riram e se abraçaram no instante seguinte.
 — Obrigada por tudo, tia.
 — Você não tem o que agradecer, filha. E lembre-se: se não gostar de alguma coisa, ous e alguém mexer com você, se aqueles ricos exibidos quiserem te maltratar, não esqueça de me ligar, Taylor, já vou avisando!
 — Espera, se lá eu vou ter que estudar com adolescentes exibidos, porque eu to indo?
 — Ah, Taylor, não reclame! Você tem que crescer. Olha, o preço nós temos que pagar, temos que pagar pra ser alguém. Você tem que sair desse bairro, dessa cidade, minha querida. Você é muito mais do que isso tudo. — ela olhou com ternura para Taylor.
 Um conforto repentino tomou conta de Taylor. Ela abraçou a tia, querendo cada vez mais aquele abraço, mesmo quando fosse embora. Não se dera conta do quanto sentiria saudades, de todos os conselhos e broncas, e também de todas as brincadeiras. Pensava que nada mais iria fazer sentido sem ela ao lado, mas entendia que precisava ir. Tinha a consciência de que a vida começaria a andar, a sair um pouco dos trilhos, mas por uma coisa boa.
 As duas foram interrompidas por uma mulher entrando no salão vazio.
 — Taylor! — chamou ela, com uma voz severa.
 As duas se desfizeram do abraço. A loira com mechas coloridas encarou mortalmente a mulher de cabelos castanhos e maçãs do rosto muito vermelhas que acabara de entrar.
 — Você vai lá em casa se despedir da sua irmã ou vai embora direto daqui?
 — Não, é claro que eu vou me despedir da Emily, mãe. Aliás, sem a sua permissão eu não vou a nenhum lugar.
 As palavras de Taylor foram duras e ela se retirou, deixando as duas mulheres se encarando.
 — O que está olhando? — perguntou a loira de mechas, olhando com certo desprezo para a mulher a sua frente — Gostou da minha cor de cabelo? Gostou? Posso pintar o seu de graça.
 A mulher bufou, dentro de si não suportava esse jeito irritante e prepotente.
 — Agora que conseguiu separar a minha filha de mim, deve estar contente, não é, Abigail?
 Abigail sorriu.
 — Se quiser que eu diga a verdade... Sim. — ela deu de ombros.
 — O que ganha tirando a minha filha de casa? — ela cerrou os dentes — Anda, diga!
 — Eu não ganho nada. Vou sentir muito mais saudades do que você. Mas sabe quem vai ganhar? Isso mesmo, a Taylor.
 — Você sabe perfeitamente que eu preciso dela. — a mãe de Taylor balançou a cabeça — Porque encheu a cabeça dela de merda, por que?!
 — Porque até disso ela tem direito! Tem o direito de ter a cabeça cheia de merda, ela tem o direito de ter uma história diferente, porque a história não vai se repetir, tem que ser diferente de nós duas!
 — Ah claro! — a mulher deu uma gargalhada que ressondou por todo o recinto — Desde que não levem ela pra onde levaram você, não é? Tomara que a minha filha não seja uma prostitua como a tia dela foi. — ela disse com repugnância.
 Abigail lançou um olhar frio para a irmã, cheio de mágoa e rancor.
 — Não, ela não vai ser prostituta, eu tenho certeza. Mas quer saber? Ela também não vai ser a enfermeira da irmã dela a vida toda.
 — Você sabe perfeitamente que ela ama a irmã dela!
 — Mas é claro que ela ama, a menina gosta dela, mas você é a mãe dela! Taylor não é a mãe de Emily, e tem que ficar cuidando dela, entenda que a mãe é você, entenda! — ela gritou.


☀

 — Oi. — Taylor disse ao encontrar a irmã pequena tentando subir as escadas.
 — Ainda faltam alguns degraus. — Emily apontou pra cima enquanto Taylor a segurava pela cintura e a sentava ao seu lado na escada de madeira, com um pequeno caderno surrado nas mãos.
 — Olha, vem aqui. — Taylor suspirou — Aqui, nesse livrinho, eu vou escrever tudo que acontece comigo. Pra quando eu vim ver você, eu vou contar tudo como se estivesse lendo uma historinha, tudo bem?
 Emily balançou a cabeça, concordando com tudo que Taylor dizia. As palavras pipocavam um pouco em sua cabeça quando Taylor falava, por causa da síndrome de Down, mas entendia perfeitamente. Só não entendia o quanto estava sendo difícil para Taylor partir, o quanto estava sendo doloroso ter de deixá-la ali, aos cuidados da mãe, que mal cuidava de si própria, quanto mais ter de ficar vigiando Emily 24 horas por dia. Isso era trabalho de Taylor, por mais que ela tivesse de se "libertar" disso agora. Precisava viver a vida.
 Emily baixou a cabeça. De repente pegou na mão de Taylor, que estava sobre o colo, e a apertou, como se não fossem mãos reais. Emily se lançou para Taylor em um abraço desengonçado.
 — Porque? — ela perguntou, com os olhos no horizonte — Porque, Taylor?
 Parecia que naquele momento Emily havia entendido que Taylor não estaria mais ali. Talvez não tivesse entendido perfeitamente, mas havia compreendido que iria ficar sem ela. Taylor agarrou as mãozinhas que a cercavam e lutou para que não chorasse. Não queria chorar, não iria chorar.
 — Eu também vou sentir muito a sua falta. — Taylor olhou nos olhos azuis de Emily, afastando alguns fios louros de seu rosto — Mas você e eu sempre vamos estar juntas. — ela deu um beijo no rosto de Emily, enquanto a menina brincava com alguns cachos soltos do coque de Taylor — A minha tia me prometeu que vai vim aqui te pentear todos os dias. E vai te deixar mais bonita do que se eu estivesse com você. E ela vai pintar suas unhas também.
 — É? — os olhos de Emily brilharam — As unhas?
 — Sim, as unhas. — as duas riram.
 Taylor puxou Emily com cuidado pela escada acima, em direção ao pequeno quarto das duas. Emily pulou na cama enquanto Taylor pegava uma caixa de papelão de cima do armário de madeira e se postou na frente da irmã.
 — Agora você vai ser a responsável por todos os nossos brinquedos, ok? Você promete? — Taylor abriu a caixa enquanto Emily concordava com a cabeça.
 De repente um nó se formou na garganta de Taylor. Emily pegou cada coisa de dentro da caixa. Um dominó, uma boneca de pano, alguns cds... Ela não prestava mais atenção em nada enquanto mexia nas coisas com tanto cuidado. Taylor respirou fundo, como se toda a água de seu corpo estivesse na porta dos olhos, prontas para sair em lágrimas.
 — Eu não quero te deixar. — ela disse, e percebeu como sua voz saiu rouca — Mas eu tenho que ir.
 — Porque? — perguntou Emily, com seus olhos no urso de pelúcia entre suas perninhas.
 — Porque... Porque eu quero ser uma grande médica pra cuidar de todas as crianças como você. — ela alisou os cabelos de Emily. Depois, em cima da mesinha de cabeceira, ela pegou um retrato onde havia uma foto dela e de Emily — Olha, eu tenho essa foto de nós duas. Eu vou ficar com uma foto igualzinha essa pra sempre me lembrar de você. E você também.
 Emily olhava o retrato com cautela, como se tentasse reconhecer as pessoas da foto. Depois, em súbito, ela gritou, apontando para o retrato "Sou eu! Sou eu! E você!", e apontava para Taylor, abrindo um enorme sorriso. Beijou o retrato com carinho, abraçando-o logo em seguida. Taylor limpou a lágrima que caiu, rindo de como Emily ficava ao ver fotografias.
 — Eu prometo que quando eu acabar a escola, eu nunca mais vou deixar você sozinha. Nunca mais. Eu vou voltar pra ficar com você, eu prometo.
 Taylor agora chorava. Não era uma coisa muito habitual de se fazer na frente de Emily, mas era algo que não conseguia mais segurar. Estava indo embora. Deixando pessoas que amava e que precisavam dela. Principalmente Emily.
☀

  — Me disseram que você estava bem, mas não tão bem! — falou Jacob.
 Depois de Joe ter dispensado todas as visitas recebidas, inclusive a de sua mãe, ele nunca dispensaria uma visita de Jacob, que ele estava surpreso por estar ali. Jacob não havia sido prejudicado pelo acidente. Via-se um pequeno corte em sua testa, perto da sobrancelha, que já começava desaparecer. O garoto vestia jeans, uma camiseta estampada marrom com vans. Era muito bonito, mas nada se comparava a Joe.
 Joe riu e se levantou da maca, ainda com as roupas brancas do hospital e com um curativo na testa, onde havia levado uma baita pancada.
 — Eu estou bem. — disse ele — Quase nenhum arranhão. O que acha?
 — Acho muito foda. — Jacob deu de ombros.
 — E aí, e o carro?
 — Ah, cara, o seguro vai pagar.
 — O que sua mãe disse?
 — Cara, minha mãe nem veio me ver. — Jacob deu uma risada fraca — Ela só falou comigo no telefone, e o meu pai disse que eu era um homem muito idiota. E minha mãe disse que, graças a mim, eles tinham perdido o carro.
 — Bom, mas se eles não voltaram das férias é porque ta tudo bem. — Joe deu de ombros, como se aquilo fosse o menor dos problemas.
 — Não, está tudo mal! Eu vou pagar com a minha mesada por um ano.
 — Ah, que isso, Jacob, eu estou aqui pra te ajudar. — Joe deu um soco no ombro de Jacob — E então, o que vai fazer?
 — Ah, eu não sei. — ele suspirou — E então, como está o seu pai? Você não falou com ele?
 O sorriso de Joe sumiu por completo.
 — Não. — respondeu ele — Mas garanto que vai me dar a maior bronca.
 — E você está assustado.
 — Pior que sim. — Joe sussurrou.
 — Ah, Joe, sei lá, vai que ele também não paga sua mesada por um ano, vai saber.
 Joe bufou.
 — Não, escuta, essa ele não me perdoa.
 — Tudo bem, de repente ele não quer ver você por 10 anos, e quando ele voltar vai estar velhinho demais pra se lembrar de todas as merdas que nós fizemos. — Jacob deu de ombros.
 Joe riu. Não se aguentou.
 — Que bom que você veio. — Joe passou os braços pelos ombros de Jacob.
 — Você sabe que mora no meu coração.
 — Eu já estava cansado de fingir que estava dormindo pra não falar com a minha mãe...
 Os dois deram risinhos até ouvirem passos no corredor. Ao se virarem, Michael e os seguranças o olhavam feio.
 — Oi, pai. — Joe sussurrou, um medo crescendo em seu peito.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Depois da Chuva - 07

“Tem coisa que dá vontade de viver de novo. E de novo. E de novo.” — Clarice Lispector.

   No gabinete do diretor Ethan, o clima estava bem tenso. Ambos os dois, Ethan e Sophia, pareciam muito desconfortáveis depois de terem um tipo de "reencontro" depois de mais de 10 anos. Sophia parecia nervosa e apertava o forro da cadeira tão forte que seus dedos quase ficavam brancos. E o coração de Ethan não desacelerava, não importa no que ele pensasse.
 Apesar disso tudo, eles decidiram ter uma conversa completamente profissional.
 — Minha filha Demi é hiperativa. — começou Sophia — É um verdadeiro tanque de guerra.
 — Eu vou adorar conhecê-la. — Ethan sorriu, e sorriu de verdade. Ainda não lhe caíra a ficha de que estava vendo Sophia novamente.
 — O único problema é que quando ela mete uma coisa na cabeça, não desiste enquanto não consegue. — ela bufou, se lembrando das inúmeras vezes que Demi fazia aquilo — E está decidida a não ficar nessa escola.
 — Não se preocupe. — ele deu de ombros, ainda sorrindo. Algo dentro dele simplesmente gritava, berrava, ele não conseguia parar de sorrir — Nós vamos ajudá-la a se adaptar. É meu trabalho. Ainda mais nesse caso...
 Ele pareceu olhar para Sophia de cima a baixo, apesar da mulher estar sentada. Mais uma vez, ela se sentiu desconfortável e recomeçou a apertar a cadeira. "Obrigada", falou ela.
 — Quer mais café? — perguntou ele, se levantando e pegando a xícara da mão de Sophia.
 — Eu agradeço, mas não, obrigada. — ela suspirou enquanto via Ethan se virar de costas e postando a xícara em sua mesa.
 Ela se levantou, ainda balançando as mãos, em sinal de nervosismo.
 — A Demi não é má. — ela disse quase em um sussurro — Digamos que seja um pouco intensa. Me entende?
 Ethan riu, voltando a pregar os olhos nos de Sophia.
 — Eu entendo perfeitamente. — ele suspirou — O que você me contou me fez lembrar de uma linda adolescente que conheci uma vez... Uma menina que era fogo puro. — ele falou baixo, e simplesmente começou a se aproximar de Sophia.
 Seu coração batia tão rápido que era impossível captar a que velocidade. Ela não recuou ao ver que Ethan se aproximava.
 — E, mesmo já sendo um homem... — ele sussurrou — Me apaixonei como um adolescente.
 Seus olhos estavam cravados, aquilo era evidente. De repente torrentes de lembranças antigas foram desenterradas com tal brutalidade que Sophia não pode aguentar. De repente ela sentiu, e sentia, tudo que sentiu a 10 anos atrás por Ethan: paixão e raiva.
 — Mas não se apaixonou o suficiente pra largar tudo e... Ir embora com ela. — ela falou em tom firme.
 Aquilo foi como um tapa no diretor. Ele abaixou a cabeça, bufando.
 — Ah... Eu não podia. — ele balançou a cabeça — Eu tinha uma carreira, uma família...
 Ele colocou as mãos nos bolsos da calça social, meio nervoso e com os dedos trêmulos, e caminhou até sua mesa novamente, colocando as mãos em um porta-retrato que tinha a foto de uma garota.
 — Sabia que eu tenho uma filha da idade da sua? — ele falou baixo.
 — É claro que eu sei. — ela revirou os olhos — Eu sumi quando descobri que a sua mulher estava grávida.
 Ethan fechou os olhos.
 — Você não me perdoa, não é?
 — Não. — ela balançou a cabeça, lutando contra uma mágoa antiga louca para sair — Eu não vim aqui criticar nem nada. Pra mim, você é só uma lembrança. Uma linda lembrança.
 — Eu nunca te esqueci. — ele suspira e encara Sophia, se sentando em sua cadeira de diretor — Acompanhei sua carreira pelas revistas... Procurei tudo que podia para saber sobre o pai da sua filha, mas... Nunca soube nada dele.
 Aquilo pareceu pegar Sophia de surpresa.
 — Não se preocupe. — ela ergueu uma sobrancelha — Demi não é sua filha. O pai dela é um homem que vive muito longe, e... A única coisa boa que me deu foi essa princesa. Mas agora quer me separar dela.
 — Como assim? — Ethan juntou as sobrancelhas — Porque?
 — Ele disse que eu não sou boa mãe. — Sophia abaixa a cabeça, baixando o tom de voz — E se Demi não ficar neste colégio, ele vai levá-la com ele para a Europa. Tem que me ajudar que ela fique aqui, por favor! — ela implorava em seu tom de voz, olhando para Ethan com certo desespero.
 — Fique tranquila. — ele pareceu desconcertado, mas com compaixão nos olhos.
 Ethan se levantou e foi até Sophia.
 — Porque ela não vai poder ficar? — ele pegou nas mãos dela.

 — Já disse que você não pode entrar! — Emma estava parada á frente da porta do gabinete do diretor, parecendo proteger o lugar. Demi estava á sua frente, batendo os pés de raiva — Ninguém pode entrar na sala do diretor sem ser anunciado.
 Demi bufou.
 — Deixa que eu me anuncio, muito obrigada, não tenho a vida toda pra esperar!
 Demi avançou para a porta e simplesmente empurrou Emma dali, como se ela fosse uma criança de 12 anos. Emma gritou e tentou agarrar o braço da garota, mas ela já estava dentro da sala do diretor.
 Demi olhou de Ethan para sua mãe dentro da sala. Pareceu nem reparar que Ethan ainda segurava a mão de Sophia.
 De repente, ela riu.
 — Nossa, a julgar pela aparência do diretor, eu acho que ele tem menos tempo do que eu, não é mesmo? — ela deu uma risada irônica — O senhor já não devia estar aposentado?
 — Demi, por favor, filha! — Sophia rangeu os dentes — Ela é minha filha, senhor diretor. — ela deu um sorriso sem graça — Por favor, cumprimente-o, Demi.
 — Oi, como vai? — Demi sorriu e apertou as mãos de Ethan.
 — Esse senhor é o diretor do colégio. — Emma falou perto de Demi, como se fosse para lembrá-la de que ela não estava falando com um simples homem.
 — Ah, eu tenho um cigarro! Você fuma? — Demi tirou um pacote de cigarros do bolso e estendeu para o diretor, que a olhou pasmo.

����☀

 Selena se debruçava em sua cama várias vezes, procurando uma posição que lhe parecesse correta e confortável. Não conseguia se estabilizar, sabendo que não sairia daquele lugar. Tentava se distrair com tudo que lhe aparecesse, mas parecia impossível.
 Sua atenção foi tirada das unhas recém-feitas por Emma entrando no quarto, estendendo o telefone.
 — Abri a exceção de vir até aqui só porque é o seu pai, e ele está ligando de Albuquerque, ele disse que você não atende o celular. — disse Emma, lançando um olhar para o celular jogado de Selena em cima da cama.
 Selena lançou um olhar de surpresa para o celular.
 — Ah, olha, ele está desligado. — ela riu, dando de ombros — Eu nem tinha percebido. Mas diz pra ele que eu vou ligar agora mesmo.
 Emma a olhou desconfiada.
 — Atende agora, vai. — ela estendeu mais uma vez o telefone.
 Selena olhou de Emma para o telefone. "Tudo bem", ela murmurou, pegando o telefone. Emma coçou o nariz e se virou para ver o quarto. Nesse momento, Selena não perdeu a oportunidade e apertou no botãozinho para desligar o telefone, tão rápido que Emma nunca teria visto.
 — Alô? — Selena colocou o objeto na orelha, sorrindo — Pai? Como você está, paizinho? ... Puxa, eu estou tão feliz, é sério, não vejo a hora de passar as férias no Vacance Club... É, eu juro. — Selena se levantou, caminhando até as escadas — É sério, não é como as ilhas do Caribe, mas eu vou. Todo mundo que eu gosto está no colégio... Claro, pai. Se divirta bastante e não exagere com o trabalho. Tudo bem. Te amo, pai! — ela mandou beijos pelo telefone — Tchau.
 Emma olhava Selena como se fosse maluca. Todos sabiam que Selena deveria estar odiando o pai agora, por causa de tudo que havia acontecido.
 — Pronto. — ela lhe entregou o telefone, sorrindo.
 — Tudo bem? — perguntou Emma pausadamente.
 — Tudo perfeito. — Selena deu um enorme sorriso — Quando nós vamos pro Vacance Club?
 — Quando os bolsistas terminarem de fazer a prova.
 — Que maravilha! — ela falou rapidamente, terminando de subir as escadas — Estou muito feliz por ir ao Vacance Club!
 Emma achou melhor deixar Selena sozinha com sua loucura e bipolaridade e bateu a porta ao sair.
 Selena encarou a porta, dando um urro de raiva. Ela feliz por ir ao Vacance Club? Nem aqui e nem em outra vida.

����☀

 Joe fora mandado imediatamente para um hospital localizado no Queens. O melhor hospital, é claro. O deputado Michael estava posto ao lado do médico, com a sua esposa passando o braço por um dos seus.
 — Doutor, com relação aos jovens que estavam no carro, diga aos familiares deles que eu vou arcar com todas as despesas. — disse Michael — Mas eu quero que mantenham discrição sobre tudo, é lógico.
 — Creio que não haverá nenhum problema, senhor. — falou o doutor, enquanto anotava algo em sua prancheta.
 Michael lançou um olhar de esguelha para sua esposa.
 — Ainda bem. — ele sorriu um pouco. Talvez o máximo que conseguia — Isso é o mais importante.
 — Achei que o mais importante fosse a saúde do seu filho. — o doutor levantou os olhos para lançar um olhar de surpresa — Não querem vê-lo?
 Michael se segurou para não demonstrar desânimo ao ouvir falar em Joe. Sua esposa acariciava seus ombros e seus cabelos ralos, sabendo imediatamente da resposta de Michael.
 — Ér... Não, não. — ele balançou a cabeça — Prefiro esperá-lo aqui. Vai você, meu amor.
 A mulher ao seu lado sorriu e se virou para o doutor.
 — Onde é o quarto dele?
 — Por aqui, senhora, me acompanhe. — ele apontou para um corredor largo e os dois seguiram juntos.

����☀

  Parecia que tinham se passado horas desde que o diretor havia saído da sala pra se decidir sobre Demi. Dava pra ouvir as batidas do coração de Sophia naquele momento. Demi ria e brincava com os troféis espalhados por um armário no canto da sala. Ela havia se sentado na grande cadeira do diretor com dois deles.
 — Já chega de brincar, Demi, parece uma criança! — Sophia pegou os troféis da mão de Demi, começando a se irritar.
 — Eu estou cansada! — Demi bufou — Que horas o diretor pretende vir?
 — Eu me pergunto exatamente a mesma coisa! Provavelmente, ele já está com a decisão tomada, mas deve ter medo de me dizer que não aceita você nessa escola.
 Demi deu de ombros, como se aquilo fosse a coisa mais insignificante do mundo.
 — Poxa, mas se a escola não me aceita, a culpa não é nossa.
 — Ah, claro! Depois do show que você fez! Porque teve que pegar o cigarro? Você nem fuma, Demi!
 — Ué, sempre tem uma primeira vez, mãe. — ela deu de ombros mais uma vez, revirando os olhos.
 Sophia encarou Demi e se sentou em seguida.
 — Tanto faz. — ela suspirou — Agora as cartas já foram dadas. E eu não tenho mais nenhum trunfo na manga.
 — Ai, para de dramatizar, mãe! — ela subiu na mesa de vidro do diretor e se sentou em borboleta — Olha só, quando o velho descobrir que não me aceitaram nessa escolinha, vai parar de choramingar. A única coisa que ele quer é mostrar que tem poder, é só.
 — Dessa vez não é assim, Demi. Se não aceitarem você aqui, Noah vai reclamar a sua guarda e vão dar pra ele, e vão te separar de mim. — Sophia acariciou o rosto de Demi — Será que você não entendeu, filha?
 Demi olhou dura para a mãe. Pela primeira vez, parecia assimilar algo mais sério do que a si própria. Parecia ver e absorver a importância de tudo aquilo para a mãe.
 — Isso não importa. — ela murmurou — Olha, eu vou deixá-lo louco. Ele não vai me aguentar nem por 3 dias, e vai me devolver. Pronto, mãe.
 — Quem dera se as coisas fossem tão fáceis. — Sophia sussurrou — Não importa por quanto tempo for, ainda assim vai ser longo. Vou perder a sua guarda e não vou recuperar. Talvez isso possa ser bom pra você, não é? Conhecer outras pessoas, uma família... Uma coisa que comigo você nunca teve.
 — Eu não quero ter nenhuma outra família, mãe. — a voz de Demi saiu falha.
 — Agora é tarde, filha.
 Demi a olhou estarrecida. Tarde? Como assim tarde? As coisas seriam assim? Ela simplesmente deixaria sua mãe? E as duas seriam iguais aquelas outras famílias, que só se viam aos finais de semana ou nem isso?
 Não. Demi não conseguia aceitar isso. Ela e Sophia viviam aos berros uma com a outra quase sempre, e ás vezes era um alívio Demi estar sozinha sem a mãe, mas também nunca se imaginou sem ela. Parecia até absurdo pensar em uma coisa dessas.
 Os pensamentos de ambas foram interrompidos pela porta do gabinete sendo aberta. Ethan entrou abotoando o paletó enquanto Demi "acordava" e saía imediatamente de cima da mesa.
 — Bom... — disse ele ao chegar em sua mesa — Eu já tomei a minha decisão.
 — Olha, não importa qual tenha sido sua decisão, está bem? — Demi o encarou, ainda com a voz falha. E odiou que sua voz estivesse daquele jeito — Ainda assim eu quero pedir desculpas, como a minha mãe me ensinou. — ela olhou de esguelha para Sophia — E... Eu nem uso essas porcarias, sabe? Eu só queria escandalizar um pouco. — ela tirou o pacote de cigarros do bolso e os jogou na lixeira ao lado.
 Ethan pareceu desconcertado com a mudança de comportamento da garota.
 — E... Porque queria fazer uma coisa assim?
 — Porque eu não tinha percebido... — ela suspirou — Quanta vontade eu tenho de ficar nesse colégio.
 Ethan assentiu.
 — Não acredito em você, sabia? — ele deu um sorriso duro para Demi — Mas... Acredito que nós dois precisamos de uma oportunidade. Você de conhecer o colégio e o colégio de conhecer você. Bem vinda a Academia Yancy, Demi Lovato.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Depois da Chuva - 12

“Vou te pedir que fique. Mesmo que o futuro seja de incertezas, mesmo que não haja nada duradouro prescrito pra gente. Esse é um pedido egoísta, porque na verdade eu sei que se nada der realmente certo, vou ficar sem chão. Mas por outro lado, posso te fazer feliz também. É um risco. Eu pulo, se você me der a mão.” — Caio Fernando de Abreu.

 Demi's POV.
 Eu estava em meu quarto. Aliás, o quarto em eu fui posta. Pareceu que eu expulsei aquelas patricinhas daqui por alguns momentos, o que eu fiquei aliviada por alguns minutos. Pareciam que o mesmo ar que elas respiravam não era o mesmo que o meu, por isso eu não as suportava mesmo, de jeito nenhum. Tive tempo para pegar meu saco de jujubas da minha mala e deitar na minha nova cama, olhando para a parede.
 Tinha coisa pior do que ficar nessa escola? Eu acho que não. A única coisa que eu conseguia pensar era que era tudo culpa do Noah. Não iria chamá-lo de pai, ele não merecia. Por culpa dele eu estou aqui, aturando todas essas pessoas para meu desgosto. Porque comigo? Odiei esse lugar desde a primeira vez que pisei aqui. Porque minha mãe também tem que ser tão burra? Vai obedecer as palavras de Noah? Não é possível. Eu nunca deveria estar aqui, eu queria pular aquela janela naquele instante e ir embora.
 Mas antes que eu pudesse fazer, ou até pensar em fazer algo, eu ouvi risadinhas vindos do corredor. Parei no mesmo instante. Estavam se aproximando, estavam vindo para o quarto. Sem pensar duas vezes, me joguei debaixo da cama, tentando respirar fraco. O som foi ficando mais perto, agora duas vozes.
 A porta se abriu.
 — Entra. — reconheci de imediato a voz da loirinha amiga de Selena, como era mesmo seu nome? — Relaxa, não vai entrar ninguém.
 Ela falava com alguém enquanto fechava a porta. De baixo eu podia ver um tênis e calças jeans, isso é, ela estava com um garoto. Eu abafei um riso. Vadia, sim ou claro?
 — Ta bom. — o garoto riu, e não reconheci sua voz. Na verdade, nunca havia escutado aquela voz na vida.
 A loirinha foi até uma escrivaninha ao lado da cama, pareceu pegar algo e voltar para o garoto.
 — O disco é esse aqui. — falou ela — Eu também adoro essas músicas.
 — Legal. — ouvi a voz do garoto. Podia sentir que ele estava sorrindo muito.
 — Suas músicas também são muito boas, você devia ser músico.
 — Não, não. — ele começou a andar para perto da cama onde eu estava. Droga. Minha respiração foi a mil — Pra mim é só um passatempo.
 Ele se sentou na cama. 1 segundo depois ela se sentou ao seu lado, o bico de seu salto quase batendo no meu dedo. Qual é, esses dois não poderiam sair daí? Ou melhor, não poderiam sair do quarto pra eu parar com esse fingimento aqui embaixo? Isso está me frustrando.
 De repente eu ouvi um barulho de beijo. Não, eu não estava louca, eu tinha certeza que os dois estavam se beijando nesse exato momento. Abafei um riso. Então essa garota trazia alguns meninos pra cá pra um sexozinho rápido com eles? Oh, que feio...
 — Quando fiquei sabendo do seu acidente... — começou ela, e ouvi mais um beijo — Eu quase morri. É, graças a Deus você é muito forte.
 Ouvi a risada dele.
 — Muito forte. — ele falou baixo, dando mais um beijo nela.
 O que era aquilo, cara? Ops, fiquei sabendo que é proibido os meninos no quarto das meninas... Ela sabia disso?
 — Vem cá... — disse ela, suspirando — O que você tem com a Selena?
 Apurei meus ouvidos.
 — Porque ta perguntando? — perguntou ele.
 — Ah, porque se não eu vou ter que fazer um esforço pra parar de pensar em você.
 Os pés dela se levantaram do chão e o dele também, e eu pude sentir a cama ficando mais pesada. É claro, mesmo não vendo eu sabia que ela o havia deitado na cama.
 — E acontece que eu não fiquei aqui pela Selena. — continuou ela — Eu fiquei por você.
 Abafei um riso.
 — Hmm. E se eu disser que não me interesso por ela? — falou ele.
 — Ah, eu não duvidaria. Ela é muito novinha pra você, Joe.
 — Mas porque?
 — Ah, porque a Selena é virgem!
 Cautelosamente, fui saindo debaixo da cama. Levantei devagar os olhos e olhei-os. Ela estava sentada em cima dele, com as mãos em seu abdomem enquanto ele mantinha as mãos nas coxas dela. Os dois estavam se engolindo, portanto não me viram, graças a Deus. Eu nem sabia explicar o que eu estava pensando naquele momento, apenas de que eu estava completamente assustada com o tipo de pessoas desse lugar.
 O tal do Joe se mexeu e afastou a loirinha de si, me fazendo me abaixar novamente, meu coração pulando. Eles não podiam me ver.
 — Selena é virgem? — perguntou ele — Ela pareceu ser outra coisa.
 — Ah claro, ela fez isso pra não parecer o que ela é, uma menininha!
 — E você? — disse ele em tom desafiante.
 Esperei ouvir uma resposta, mas depois de 2 segundos eu ouvi um gritinho vindo dela, e de repente ela pulou da cama, rindo e indo até as escadas. Joe também se levantou rindo e foi atrás dela, os dois parecendo crianças. Quando os dois estavam lá em cima, finalmente saí debaixo da cama novamente.
 Eu não iria sair do quarto áquela altura, é óbvio. Eu queria ver aquilo, o que as pessoas dessa escola tinham na cabeça? Fiquei de pé e ainda podia ouvir os dois rindo e se beijando em cima. Fui andando cautelosamente até as escadas, tentando fazer o mínimo de barulho possível. Quando coloquei meus pés no primeiro degrau, ouvi uma porta se abrindo.
 Meu coração disparou e olhei para trás, mas não era a porta do quarto. Ouvi os risos dos dois e subi mais um pouco, até ver que eles abriam a porta do closet e estavam entrando lá dentro. Eu ri baixinho. Não podia ser. Os dois fecharam a porta e na mesma hora eu terminei de subir as escadas, chegando no andar de cima. Ainda segurava no corrimão enquanto me aproximava do closet, que eles tinham deixado uma frestra aberta, onde eu escutava muito bem os risinhos maliciosos dos dois. Esperei por uns 2 minutos e rapidamente olhei pela frestra, segurando mais um riso.
 Os dois estavam literalmente se engolindo. A loirinha arrancava as roupas de Joe enquanto ele beijava toda a parte do corpo da garota. Ele a impressou na parede, arrancando sua blusa e beijando seus seios. A garota mesmo arrancou seu sutiã e logo após seu shorts. Sem sutiã e apenas de calcinha, que sutil, não? Joe estava apenas de boxers nesse momento, e os dois já estavam a todo fogo. Joe rapidamente abaixou a calcinha da garota, sem tirá-la, apenas para que ele retirasse sua boxers e penetrasse na garota, fazendo enroscar suas pernas em sua cintura e gemer sem parar.
 Levei minhas mãos á boca, dando passos pra trás. Como isso, cara? As pessoas dessa escola são realmente loucas, esses garotos eram uns pervertidos, eu estava me sentindo numa gravação de filme pornô! Me segurei muito para não rir. Eu virei de costas e me encostei na parede á direita do closet, apenas ouvindo os gemidos prazerosos da loirinha e Joe metendo na garota, murmurando palavras como "é isso aí", "gostosa" ou coisas do tipo.
 Foi quando do nada eu ouvi uma voz:
 — Ava!
 Meu coração gelou. Foi aí que eu percebi que já estava encostada ali a tempo demais pro meu gosto. Qual é, agora eu me interessava pelo sexo adolescente desses depravados? Olhei para baixo e minhas pernas tremeram. A secretária Emma havia entrado no quarto e pela sua cara ela estava escutando e muito bem os gemidos da loirinha, que pelo jeito se chamava Ava.
 Olhei para os lados, aflita por alguns momentos. Essa mulher jamais poderia me ver aqui, ainda mais em uma situação dessas. Ela poderia achar que eu estava encobrindo os dois pervertidos aqui, e isso eu jamais iria querer! Em uma fração de segundos, vi de relance que Emma começava a subir as escadas, seguida pelo som, e eu me afundei no primeiro armário que vi na frente, quase em frente ao closet onde estavam Ava e Joe. Eu suspirei, abrindo uma mínima frestra para poder ver.
 Vi Emma passar em frente ao meu armário e de repente ela parou. Eu gelei. Será que ela desconfiava que havia alguém aqui? Por favor, não abra o armário! Ela olhou para os lados e para cima, parecendo procurar o som. De repente ela olhou para o closet onde estavam os dois, e eu fechei os olhos, abafando mais um riso. Isso iria ser uma merda completa! Eu nem queria ver isso. Emma foi se aproximando devagar, pra ver se era dali mesmo que saía o barulho, e em um rompante a mulher abriu a porta, encontrando a terrível cena pornográfica que ali acontecia.
 O que eu escutei em seguida foi um berro agourento de Emma e um grito assustado de Ava. Emma se virou do outro lado, tampando os olhos, parecendo terrivelmente incrédula. Ava e Joe pararam tudo, estavam suados e descabelados, e os dois se vestiram aos tropeços, parecendo que tinham visto literalmente um fantasma. Emma bufava fortemente.
 — O que estão fazendo aqui?! — ela disse com dificuldade, finalmente se virando e destapando os olhos, vendo os dois agora semi-vestidos.


Isabella's POV.

 Depois que Selena havia me "expulsado" do carrinho de golfe, eu não sabia o que fazer e nem pra onde ir. Queria conversar com alguém, mas literalmente todos da escola haviam viajado pra fazer algo que preste. Ou melhor, todas as pessoas legais dessa escola. Decidi voltar para dentro da escola, ver se havia alguma coisa lá.
 Na verdade, eu já sabia que não teria nada lá. Ava com certeza estava com Joe nesse momento, e eu não sabia o que fazer. Andei pelos corredores e peguei um salgadinho na máquina, tendo a repentina ideia de ir ver como os bolsistas estavam se saindo na prova, já que eu não tinha mais nada pra fazer mesmo.
 Passei na frente da sala e me encostei na parede. As salas continham um vidro enorme na parede ao lado da porta, assim todos que passavam podiam vê-los livremente. Eles estavam concentrados em seus notbooks, alguns até concentrados demais. Dava pra sentir a vontade e o esforço que eles tinham para entrar nessa escola. Eu os entendo, eu acho. Foi ali que eu o vi pela primeira vez.
 Ele estava sentado no meio. Ele parecia muito concentrado por alguns minutos, mas depois ele se dispersava. Parecia pensar muito em suas respostas e sua cabeça parecia ficar confusa. Ele tinha cabelos levemente cacheados e era tão... forte, tão lindo. Meu coração na hora palpitou. Ele era a coisa mais linda que eu já tinha visto. O jeito como mordia a boca e fechava os olhos quando pensava que havia errado uma questão. O que era aquilo? Quem era ele?

Demi's POV.

 — SAIAM!
 Emma gritou e os dois saíram do closet aos tropeços. Eu fechava minha boca ao primeiro indício de que iria rir alto, mas não dava. Era uma das cenas mais engraçadas e cabulosas que já vira na vida. Que mole esses dois dão. Ava ajeitava seu cabelo e sua roupas enquanto Joe colocava sua camisa.
 — Eu... Eu estava arrumando o armário, só isso. — Ava gaguejou, suas mãos tremendo.
 — Eu estava... Estava... Arrumando... — Joe parecia tão nervoso quanto Ava.
 — É por isso que temos uma equipe de manutenção! — gritou Emma. Aqueles dois são sabiam mentir, credo. — Sabem que é proibido os meninos entrarem no quarto das meninas quando não tem um responsável junto! — ela empurrava os dois escada abaixo enquanto gritava em seus ouvidos.
 — Eu sei, eu sei que a culpa é minha! — Ava falou — Emma, por favor... Eu já disse que...
 — Ah, cala a boca! — gritou Emma.
 A secretária fechou os olhos mais uma vez, parecendo tentar eliminar a cena anterior de sua cabeça. Eu mesma iria fazer isso depois. Mas de algum modo Emma parecia já ter visto aquilo antes, muitas vezes, principalmente vindo dos dois.
 — Infelizmente eu vou ter que relatar esse episódio desagradável ao senhor Ethan. — disse ela quando chegaram lá embaixo.
 — Não, por favor! Não queime o meu filme com ele. — pediu Joe.
 — Eu não queimo filme. Só cumpro com o meu dever. — Emma o olhou com raiva, como se não suportasse mais olhar para o rosto do garoto.
 Lentamente, abri a porta do armário com cautela. Fiz o mínimo barulho possível até conseguir sair daquele cubículo e me agachar no chão, ficando de quatro, engatinhando rapidamente para olhar de perto aquela cena.
 — Tudo bem. É que eu já estou acostumado a levar surras. — Joe deu de ombros, com ar de dramático — Primeiro o acidente... E agora isso. — ele deu uma rápida olhada para Ava — De repente me expulsam.
 Eu não conhecia aquele garoto. Na verdade, era a primeira vez que o via, mas estava na cara que ele era um visitante frequente na diretoria e um dos depravados dessa escola. Um dos poucos depravados, já que essa era uma escola de elite, coisa séria. Estava escrito em sua testa que era um filhinho de papai, um mauricinho. Revirei os olhos ao pensar nisso.
 Emma pareceu amolecer o olhar. Ela bufou e disse:
 — Está bem. Dessa vez eu não vou falar nada.
 Joe abriu um sorriso enorme.
 — Obrigado! — ele suspirou — Você é um amor, Emma! — ele avançou nela, dando-lhe um beijo enorme na bochecha.
 Ela rapidamente o afastou.
 — Você não vai me convencer com carinhos. Ok? Da próxima vez que eu encontrar você aqui, eu não vou ter piedade. E vamos logo pro refeitório porque já está na hora do almoço! Vamos logo.

Selena's POV.

 — Não entendo seu pedido, Selena. — disse o diretor Ethan após meu enorme discurso que havia acabado de terminar. — Você sabe perfeitamente que o conselho nos obrigada a dar um percentual de bolsas todos os anos.
 — Eu sei. — bufei — Mas também sei que quase ninguém consegue receber a bolsa.
 — Bom, o colégio não tem culpa se os alunos abandonam porque não alcançam o nível. — ele deu de ombros.
 Rangi os dentes, revirando os olhos. Não era a toa que eu achava Ethan uma das pessoas mais idiotas da face da terra.
 — Todo mundo sabe muito bem que não é por isso. — rebati.
 Ele me olhou confuso e eu novamente revirei os olhos, me aproximando de seu rosto e sussurrei:
 — É pela Seita.
 Ethan me lançou um olhar matador. Aquele olhar que ele sempre lançava quando algum indivíduo falava na Seita. Aquele olhar de enojação, como se não acreditasse, ou não quisesse acreditar. Mas como ele poderia fugir? Todos estavam muito bem cientes da existência da Seita. Da existência de uma organização que bane bolsistas para que o colégio continue privilegiado com pessoas que realmente tem o "nível", como eles dizem. Ninguém imaginava o quanto a Seita poderia ser perigosa, e esse assunto me causava arrepios.
 — Se veio aqui pra falar de rumores infundados, não vou terminar a conversa! — ele trincou os dentes, parecendo querer dar um soco na minha cara.
 — Não, eu não vim falar da Seita.
 Ethan bufou, ainda me olhando com certa raiva. Esse assunto o deixava nesse estado. Ou ele não queria acreditar ou era um completo incrédulo e cego.
 — Olha só, eu vou dizer de uma vez por todas, nesse colégio não existe nenhuma Seita! Nenhuma organização nem nada parecido. — ele rosnou pra mim, aparentemente nervoso.
 Eu revirei os olhos. Era inútil discutir com Ethan sobre aquilo.
 — Tudo bem. Mas eu também não vim falar sobre os bolsistas, eu vim falar dos novos! — pensei logo em Demi, e meu estômago embrulhou.
 — Qual é o problema dos novos? — agora ele parecia entediado.
 — O problema é que não é possível que para cobrar uma taxa, o colégio aceite um novo rico qualquer!
 Ethan suspirou e se sentou em sua cadeira de couro, abrindo novamente seu laptop.
 — Deixa eu ver se eu entendi, você está falando de alguém em especial? — perguntou ele.
 — Estou, claro que estou. E eu preciso esclarecer isso, eu não vou dividir o meu quarto com a filha de uma artista barata!
 — Não é uma artista barata! — Ethan gritou, se levantando como um jato da cadeira, me olhando com raiva — É uma artista muito conhecida! Além disso, você não é ninguém para opinar sobre a família dos novos alunos.
 Abri a boca, chocada. Como assim Ethan estava contra mim? Todas as opiniões que dei dentro dessa escola foram respeitadas por ele, eu não pisava na sala da direção a toa, ok?
 — Bom... Talvez eu não. — dei um riso irônico — Mas eu acho que o meu pai não vai gostar muito quando souber. Porque ele paga muito caro pra me manter nesse colégio que, dizem, é de elite.
 Ethan me olhou cético. Se ele não me ouviria, eu teria que colocar meu pai no meio, como sempre.
 — Presta atenção, Selena. — disse ele — Se o seu pai tiver algum problema, eu vou falar com ele quando retornar de viagem. E agora, se me der licença — ele caminhou até a porta —, pode se retirar, porque estou muito ocupado!
 — Diretor! — arregalei os olhos. Ele estava me mandando embora?
 — Aluna, eu estou ocupado!
 Bufei e saí, batendo os pés. Aquilo não iria ficar assim.

Nick's POV.

 Terminei de fazer a prova e minha cabeça estava literalmente explodindo. Eu tinha dúvidas sobre várias questões, mas não queria revisar minha prova novamente, pois o tempo já estava se esgotando e se eu ficasse mais tempo naquela sala iria desmaiar. Odiava ser o último, eu ficava muito nervoso e não conseguia fazer nada. Avisei aos superintendentes que havia terminado e fui para a porta, mas por último dei uma olhada em Miley, que estava sentada em um canto da sala. Sussurrei um "boa sorte" e saí, respirando um ar puro.
 Quando botei meus pés para fora da sala, rapidamente vi uma garota correndo na direção oposta, no sentido do salão principal. Juntei as sobrancelhas, confuso. Balancei a cabeça e me virei para o mesmo lado, começando a andar, quando trombo com alguém sem querer.
 Era um garoto. Ele era alto e meio magro, com um cabelo estiloso louro cor de bronze, e pela sua blusa de mangas dava pra ver sua enorme tatuagem no braço esquerdo. Ele carregava alguns livros na mãos, que foram para o chão quando nos esbarramos.
 — Ah, pelo amor de Deus, você não olha por onde anda? — ele murmurou, me encarando enquanto pegava seus livros.
 — Desculpe, eu não te vi. — balancei a cabeça.
 — Se você não enxerga é melhor você ir pra uma escola de cegos, ta bom? — ele se levantou com seus livros novamente na mãos.
 Eu não pensei muito no que aconteceu em seguida. Só sei que em mínimas palavras ele tinha me deixado nervoso.
 — Escuta aqui, garoto! Tá pensando o que? — peguei na gola de sua camisa, me aproximando dele.
 — Quem você pensa que é?!
 — Sou eu que vou quebrar a sua cara se aparecer na minha frente de novo! Ta entendendo?
 Ele bufou e se soltou de mim ligeiramente.
 — Tomara que não passe na prova. — agarrou seus livros e saiu de perto de mim.
 Um peso me invadiu. O que eu estava fazendo? Agora eu iria me meter em brigas? Que ótimo, eu nem tinha entrado na escola ainda. Belo exemplo, Nick. Assim que você quer que eu as coisas dão certo? Meio difícil, colega. Eu suspirei e voltei a caminhar para o corredor principal.
 Haviam algumas pessoas circulando por ali, o que foi mais fácil pra mim. Eu agendava em minha cabeça um tempo para fazer um tour por aquela escola gigantesca, mas não agora. Agora eu tinha apenas que saber informações básicas. Encontrei com um dos bolsistas que havia terminado a prova no mesmo tempo do que eu e paramos para conversar no meio do corredor, de como estavam as provas e essas coisas.
 O corredor começou a encher aos poucos. Me interagi tanto na conversa com ele que, quando ele se despediu para comer alguma coisa, eu me vi quase no meio de uma multidão. Rolei os olhos pelo ambiente e eu a vi.
 Vi uma garota parada perto dos armários. Eu não sei se estava louco, mas quando mirei meus olhos nela, a mesma revirou o rosto, como se estivesse olhando pra mim o tempo todo. Eu a olhei novamente. Ela lentamente foi olhando para mim de novo, e em uma fração de segundos eu senti meu coração dar uma palpitação.
 Ela era linda. Tinha cabelos castanhos longos e ondulados, uma boquinha de cereja, olhos redondos e castanhos perfeitos... Era magra e esbelta e tinha um perfeito rosto de anjo. Eu paralisei na mesma hora. Juro que nunca me hipnotizei com uma garota assim.
 Ela parecia nervosa com algo e eu poderia estar louco, mas jurava que ela olhava pra mim. Sim, olhava diretamente pra mim. Eu não sabia ler o seu olhar, mas não conseguia parar de olhá-la. Era incrível.
 De repente ela pareceu "acordar" de um transe e se virou, indo embora por um dos corredores. Eu acordei e suspirei, me perguntando o que havia acabado de acontecer.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Depois da Chuva - 11

“Você não me quer, como eu quero você. Você não precisa de mim, como eu preciso de você. Você não pode me ver, como eu te vejo. Eu não posso ter você, como você me tem. Eu não posso te roubar, como você me roubou.” — The Pretty Reckless.
Sala da direção
Academia Yancy
Nova York

 — Senhor diretor, minha família mora muito longe daqui. — Nick suspirou, se sentando na cadeira de couro em frente a Ethan, já quase desistindo — Olha, eu entendo que nessa escola tem muitos filhos de estrangeiros e diplomatas, porque não podemos fazer...
 — Olha, rapaz, não insista! — interrompeu Ethan, parecendo impaciente — Eu não posso aceitar a inscrição de nenhum aluno sem prévia entrevista com os pais do aluno ou os tutores do aluno.
 Nick apertou os olhos, ele mesmo começando a ficar impaciente. Tentou pensar em um plano rápido, mas foi impossível. O que poderia fazer em uma situação daquelas? Fora de cogitação tocar no nome de sua mãe.
 Ethan encarou Nick, se perguntando quando ele finalmente sumiria de sua sala.
 — Me dá licença, rapaz? Por favor? — pediu o mesmo, pegando sua xícara de café — Além disso, vejo aqui em sua inscrição que seu pai é falecido, não é?
 Nick o olhou bem cético, alegando em seu próprio olhar que aquele era um assunto proibido.
 — Ou então a sua mãe é a responsável. — Ethan deu de ombros — Eu preciso...
 Ethan parou de falar com uma batida na porta.
 — Senhor diretor — Emma entrou na sala. — Está aqui fora a responsável pelo candidato Nick Jonas.
 O coração de Nick disparou. O que? Como assim? Responsável? Ele não tinha responsável, e não havia avisado a ninguém. Nick gelou ao pensar em sua mãe, em como ela havia descoberto que ele estava tentando entrar na Academia Yancy, e não em uma universidade, como havia prometido.
 — Pode entrar. — Disse Emma.
 Abigail entrou trotando pela porta. Nick a olhou confuso e assustado, e todas as alternativas sobre sua mãe foram descartadas na hora.
 — Seu idiota, você fugiu de mim! — Abigail gritou, puxando os cabelos de Nick. O garoto gemeu, não entendendo nada.
 — Senhora, senhora! — Gritou Ethan, fazendo Abigail o olhar. — Espera, a senhora não é a tia da candidata Swift?
 — Sim, e madrinha desse bandido que quer aprontar mais uma! — Rosnou para Nick. — É que a mãe dele e eu somos, como posso dizer... Irmãs. Mas é que o Nick insiste em entrar e eu... Am... Ele quer ficar junto da Taylor. Quer ter certeza de que ela terá boa educação. — Notava-se seu nervosismo.
 — Espera aí, perdão, mas eu não estou entendendo. — Ethan juntou as sobrancelhas. — O problema não é esse. O problema é que eu preciso de uma autorização legal assinada pela mãe desse rapaz pra eu poder dar entrada na inscrição dele.
 — Ah, não se preocupe com isso! — Abigail sorriu. — Eu vou trazer assim que ela mandar. Mas por favor, deixa que ele faça a prova. Se não o Nickzinho vai se atrasar e vai perder o ano, eu sei que o senhor é um homem muito bom...
 Nick não disse nada. Continuava mudo, apenas observando o que Abigail tentava fazer. Seu coração batia mais acelerado ao ver que ela conseguia convencer o diretor.

Dormitório das meninas / Selena's Room
Academia Yancy
Nova York

 Demi literalmente estava infernizando as garotas. Ela quebrava as coisas e fazia uma zona no quarto. Bagunçou a cama de Selena e jogou suas maquiagens no chão, fazendo Selena ficar louca e querer matá-la. Ela fez uma grande zona no guarda-roupa de Ava, que foi uma grande loucura, pois não havia nada de mais importante para Ava do que aquilo. Isabella já estava com ódio o bastante de Demi para ajudar as amigas a "acabarem com ela". Demi com certeza era um problema no meio das 'populares' e parecia fazer de propósito. Ela queria fazer de propósito.

Corredor
Academia Yancy
Nova York

 — Então faremos assim: você falsifica a carta da sua mãe, e eu consigo que alguma pessoa assine para que tenha valor. — Abigail sussurrava para Nick fora da sala da direção.
 O garoto deu um sorriso fraco.
 — Olha, obrigado pelo que está fazendo por mim. Se arriscar assim por um estranho é muito difícil, obrigado.
 — Eu sou assim, meu filho. Nem me lembre, porque eu volto atrás. Porque não é uma coisa muito correta.
 — Não, não, que isso. — Nick deu de ombros.
 — Além disso, não pense que vai sair de graça. — Ela sorriu.
 Nick bufou, sentindo um peso em suas costas.
 — Pode dizer.
 — O único favor que eu quero pedir é que... Cuide da Taylor. — Abigail suspirou, olhando bem nos olhos de Nick. — Sabe, ela é uma boa menina. É muito inocente, e eu quero que você a proteja. Não deixe que ninguém faça nada a ela.
 — Não se preocupe. — Nick falou baixo, o pedido o pegando de surpresa. — Vou ser como o irmão mais velho da Taylor. Não vou deixar que nada aconteça a ela.
 — Ah, não sabe a tranquilidade, que peso você tirou da minha consciência! Não imagina! — Abraçou Nick em um rompante, seus olhos começando a ficar marejados. Quando pensava em Taylor, sempre pensava com preocupação, como se não soubesse como deixá-la sozinha no mundo, com medo de que a machucassem. Nick a abraçou, de repente sentindo essa mesma preocupação se transferindo para ele.

Dormitório das meninas / Selena's Room
Academia Yancy
Nova York

 — Não aguento mais, eu preciso de ar! — Bufou Selena, saindo do quarto com as amigas. — Que horror, essa menina é um atentado contra o bom gosto.
 As três riram.
 — De onde ela tira tanta porcaria? — falou Isabella.
 — Do lixo, de onde mais? — riu Ava.
 — Eu não sei, mas eu não suporto ela, vou ter um treco, preciso de ar! — Selena bufou.
 — Oi, e aí? — uma garota loira com uma touca falou Selena, Isabella e Ava. As três a olharam confusas. — Tudo bem?
 As três olharam, de repente formando um sorriso.
 — Estamos super bem, e você? — responderam em coro, como em uma 'coreografia'.
 Madison as olhou estática. Claro que achou aquilo ridículo.
 — Hmm... Aqui é o quarto das meninas? — perguntou ela, tentando tirar a imagem anterior de sua cabeça.
 — É... Você é nova? — Isabella a olhou de cima a baixo, reparando em suas roupas surradas.
 — Sim, meu nome é Madison. — fez o mesmo toque de mãos em Isabella, mas a garota também não conhecia aquela arte.
 — Vem cá, você é bolsista, não é? — perguntou Selena.
 — Como é você sabe?
 — Bom, olha, não é difícil notar, as suas roupas e o seu cabelo são um pouquinho radicais. Mas não se preocupe, nada que Selena Gomez, especialista em produção visual não possa resolver.
 As meninas sorriram. Madison as olhou com completo... Nojo. Na verdade, ela não esperava encontrar isso quando pisasse naquela escola. Esperava encontrar pessoas legais e gente desinterassada.
 Mal podia ver que estava super enganada.
 — Mas se você é bolsista, não devia estar fazendo a prova? — perguntou Isabella.
 — Hm, não. Eu vim pra cá como bolsista atleta.
 — E o que é isso? — Ava perguntou.
 — É que eu pratico taekwoundo e acho que quando tiver um intercolegial eu vou representar o colégio. — deu de ombros.
 — Não, não. — Selena balançou a cabeça — A Academia Yancy jamais participa dos intercolegiais. Ainda mais nesse negócio aí de taekwondo, eu acho que você errou de escola.
 Madison as olhou confusa. Não sabia o que pensar naquele momento, mas desejou sair de perto daquelas três antes que ficasse louca.
 — Ta bom, eu vou te mostrar o seu quarto, as bolsistas ficam pra lá. — falou Isabella, começando a andar pelo corredor — Vamos, meninas.

 — Olha, esse quarto aqui está disponível. — Isabella entrou no quarto — Pode escolher qualquer lugar e decorar como você quiser.
 — Ah é, como o nosso! — Selena sorriu, se sentando em uma poltrona vermelha — O nosso quarto foi todo decorado pelo Aiden Thomas, meu decorador. Ficou lindo, você nem imagina. Ele deixou cada uma com o seu estilo divino. O único mal é que agora chegou uma ignorante chamada Demi. — Selena torceu o nariz — E estragou tudo, todo o trabalho que fizemos em meses. Juro que me deu vontade de vomitar vendo as coisas que ela trouxe. Bom, eu digo isso porque sou super sensível e você ainda não me conhece.
 — Ai, que nojo, uma mosca! — falou Ava, parecendo abafar o ar.
 Madison ainda as olhava confusa, como se aquelas garotas não fossem reais. Não tinham nada a ver com ela, e já começava a não suportá-las.
 — Hmm, eu vou pegar a minha mala. — falou ela, indo até a porta.
 — Eu te ajudo. — Isabella foi atrás dela.
 — Tem moscas nesse quarto?! — Selena sussurrou para Ava, com cara de nojo.
 — Ah, que nojo isso, fala sério!
 — Ai! — Isabella bufou, largando a mala de Madison no chão. — Tem algo que quebre aí?
 — Não sei, fizeram a minha mala no orfanato. — Deu de ombros.
 — Espera aí, você veio de um orfanato? — Isabella arregalou os olhos.
 — É, algum problema? — ergueu as sobrancelhas.
 — Não, é porque aqui isso não é comum. — Ava sorriu forçado.
 — Me desculpe, mas eu nunca vi uma órfã ao vivo... Como é ser órfã? — Selena a encarou como se fosse ouro.
 — Deve ser super deprimente, não é? — Isabella falou, olhando para Madison com pena.
 — Pior que não, lá se aprende muito. Uma das coisas que eu aprendi lá é: destruir tudo que te incomoda. — Lançou um olhar mortal para as três.

Campus de golfe
Academia Yancy
Nova York
Joe's POV

 Bom, eu não fui pra casa após sair do hospital, como podem ver. Ainda tinha que realizar os temerosos trabalhos voluntários, coisa que com certeza não era pra mim. Eu estava odiando aquilo, não tinha nada pior, eu deveria estar em casa descansando bastante e ser mimado pelos meus empregados, poxa, eu acabei de sofrer um acidente!
 Mas o senhor Collins tampouco pensava desse jeito.
 Ele teve prazer em ir até meu quarto no hospital para jogar na minha cara que havia feito uma denúncia contra mim sobre o acidente. Tudo bem, eu vacilei, eu admito, mas ele é meu pai. Será que qualquer outro pai faria isso com o filho? Não consigo nem imaginar, ele me dá nos nervos, apesar de eu sempre afastar esse sentimento de mim. Ele me deixa nervoso e com ele não posso dizer sequer o que quero e o que penso sobre nenhum assunto. Ás vezes me espelho nele, mas na maioria das vezes eu o desejo longe da minha frente e da minha vida.
 Saí do meu quarto e fui para o campus de golfe, entrei em um carrinho e aproveitei para ligar para Jacob. Contar as "novidades":
 — Pois é, Jacob, o juíz mandou fazer trabalho voluntário numa cidadezinha... Juro que preferia morrer. — Balancei a cabeça, afastando tais pensamentos. — Aposto que foi ideia do meu pai. Não me deixa sozinho nessa, ok? Ta bom, tchau.
 Desliguei o telefone, já voltando a sentir a mesma repulsa de antes. Eu estava atordoado com toda aquela situação, estava fora de cogitação eu, Joe Collins, passar o verão inteiro trabalhando. Qual é, eu nunca nem lavei um prato em casa, agora terei que trabalhar para outras pessoas? Foram só maconha e bebidas, ok? Porra, foi só uma mancadinha!
 Ainda continuava rodando pelo campus com o carrinho, passei pelas líderes de torcida fazendo alongamentos no gramado, as quais acenaram para mim alegres e sorrindo. Assanhadas. Me adoravam, eram loucas pra transar comigo, e eu já havia pegado metade. Assim como metade dessa escola.
 Quem pode, pode.

Selena Gomez's POV

 Aquela Madison me assustou, eu não vou negar. Depois das últimas palavras que ela me lançou, eu e as meninas demos uma desculpa para sairmos correndo daquele quarto o quanto antes. Até tinha passado pela minha cabeça que eu poderia ajudá-la aqui, mas logo descartei. Não gosto de trabalhos difíceis, muito menos de cobaias difíceis. Se quer ficar do jeito que está, que fique. Eu, Ava e Isabella saímos daquele quarto, indo direto para o campus de golfe.
 Ao chegar lá, pegamos um carrinho e nos amontoamos em cima dele, eu e Ava na frente e Isabella atrás. Conversávamos sobre assuntos recorrentes quando cruzamos com o carrinho de Joe a nossa frente, o qual havia acabado de azarar simultaneamente várias líderes de torcida atrás dele. Eu automaticamente dei um sorrisinho cínico pra ele. Eu já estava ligada na mega confusão que ele havia se metido, aliás, quem não sabia?
 Joe parou o carro a minha frente, me fazendo parar também. Nós dois nos encaramos.
 — Joezinho! — Falei, sorrindo. — Suas férias foram curtas, não é?
 Ele riu, balançando a cabeça.
 — Olha só quem fala. Você nem saiu daqui, gatinha.
 Ele piscou para mim, e depois arrancou com o carrinho, dando de ré e virando na direção oposta. Fiquei estática em meu lugar. Como assim? Ele é apenas Joe Collins. Apesar de ele ter dito a verdade, eu não aceitava ouvir aquilo dele, não mesmo.
 — Hahaha. — Ri irônica, não achando graça nenhuma.
 Ele deu uma última olhada para nós e saiu de vez, sem olhar pra trás. Já vai tarde.
 — Vem cá, porque você trata ele assim? — Perguntou Ava de repente. — Eu acho que você está afim dele.
 — Mas é claro que não. — Nós duas rimos, eu achando completamente sem nexo o que ela acabara de dizer. — Sabe, Ava, ele é um gato, mas não faz o meu tipo. E ficar com ele? Fala sério!
 Ela me avaliou, parecendo querer entrar da minha cabeça para ver se eu estava falando a verdade.
 — Bom... — disse ela.
 — Bom o que? — perguntei.
 — Eu já volto! — ela deu um gritinho, saindo do carrinho rapidamente e correndo para onde Joe havia partido.
 Eu ri e a olhei, meio perplexa, mas não assustada. Joe seria o novo alvo de Ava, isso eu já esperava para esse ano.
 — Ah, vai pedir carona pra ele, vai? — eu ri, vendo ela correr empolgada.
 — Ei, por favor! — ouvi ela dizer para um garoto que estava de bobeira parado em um carrinho. — Pode me dar uma caroninha até lá em cima?
 O garoto apenas sorriu e ela subiu em seu banco carona, o carro arrancando para frente. Que esse garoto não queira nada em troca, por favor. Ava era louca, era capaz de aceitar para não ficar mal na fita. Apenas balancei a cabeça e Isabella se sentou ao meu lado, no antigo lugar de Ava.
 — Amiga, fiquei pensando muito no que a Ava disse. — falou Isabella.
 — O que?
 — Que você e o Joe seriam o casal ideal. Os dois são iguais. — ela sorriu, parecendo sonhar com esse dia.
 Eu ri. Na verdade, gargalhei. Não era possível. Onde que eu e Joe éramos "perfeitos um pro outro"? Nunca, né? Contem outra, o garoto é um bebêzão e fica com todas as meninas do colégio. Um namoro dele deve durar o que? 1 semana? E olhe lá...
 — Ah, Isabella, por favor! — bufei, rindo. — Sério, não tem nada a ver. Você pensa umas merdas muito grandes, mas tudo bem.
 Ela revirou os olhos, parecendo não mudar de ideia.
 — Viu a Ava? Ela perde a linha, saiu voando atrás do Joe. É só aparecer um menino que ela vai correndo atrás.
 — Ai, não começa, não critica, ela é nossa amiga, lembra? — levantei as sobrancelhas.
 — É óbvio, eu sei que ela é nossa amiga, mas isso vai ficar entre a gente, ta? Olha, você não vai negar que ela é super atiradinha com os meninos. — deu de ombros.
 Eu ri. Na verdade, foi a única coisa que eu encontrei naquele momento.
 — Isabella, para! — falei. — Já chega. O problema é que a Ava tem que ser boazinha porque todos os meninos querem ficar com ela. Tem que ser como eu, não os trato mal, mas eu parto o coração deles.
 Ela bufou.
 — Você é legal, mas eu acho ela muito oferecida!
 — Sério?
 — Por isso que eles te procuram tanto.
 — Ta bom, chega de criticar. O que eu ia te dizer a 5 minutos é que eu tenho que ir falar com o diretor, por isso querida, me dá uns minutinhos, vai lá.
 "Expulsei" Isabella do carrinho, mandando um beijinho no ar. Logo mais, saí com o carrinho, direto para a sala do diretor. Haviam assuntos importantes a tratar com ele, muito importantes.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Depois da Chuva - 10

“Comece a perceber. Em cada verso meu, tem um pouco de você.” — Allax Garcia. 

Avenida Begrs Street
Nova York
"Ok, pode parar aqui." — Logan se manifestou no carro — "Daqui eu vou sozinho."
"Porque, filho? Falta tão pouco." — disse seu pai.
"Eu sei, pai, mas eu não sou mais uma criança pra você me deixar em frente a escola."
 Seus pais suspiraram e pararam a uma distância mínima da Academia Yancy, enquanto Logan se atirava para fora da caminhonete Hi-Lux, pegando apenas sua mala preta de rodinhas e começando a caminhar.
"Filho, espera!" — sua mãe gritou, o fazendo parar de má vontade — "Sabe o que é? Eu gostaria de conhecer seus colegas. O seu quarto, o refeitório..."
"Ok, mãe, mas não vai dar. E também não quero que venham me visitar nos fins de semana. Quando der eu visito vocês." — deu de ombros.
"Mas nós achamos importante visitar você aqui." — sua mãe sorriu.
"Tudo bem, tudo bem." — seu pai cortou a conversa, dando um riso forçado — "Ele é assim." — abraçou Logan, fazendo o garoto executar uma careta de mal gosto — "Sabe, eu sinto muito orgulho de um filho de um simples açougueiro, de gente do campo, chegou ao melhor colégio do país. Sabe, filho, você vai chegar mais longe do que eu."
 Logan revirou os olhos, completamente entediado.
"Desde que seja um homem bom e trabalhador como você." — os pais se olharam — "Porque é o que eu quero."
"Tudo bem, mulher. Ele quer ser mais do que eu..."
"Mas porque ser mais? Além disso, ele pode continuar com o negócio do açougue. Nós conseguimos juntar mais do que jamais sonhamos."
"Ok, chega!" — gritou Logan — "Já chega, ok? Não vai começar agora com aquela história de miséria, que um dia ficamos ricos e blá blá blá." — ele bufou.
"Tudo bem, filho." — seu pai sussurrou — "Boa sorte. Trouxe tudo?"
"Sim, pai." — respondeu Logan, morrendo de vontade de vê-los longe.
"Aqui, filho. A medalinha do seu batismo." — sua mãe colocou um cordão de prata em seu pescoço — "Ande sempre com ela."
"Obrigado... Agora vão." — Logan bufou, e dessa vez seguiu em frente para a Academia.

Queens
Nova York

"E depois o meu pai morreu." — completou Nick, com o olhar distante, enquanto ele, Abigail e Taylor estavam sentados, ainda esperando o ônibus.
"Coitado." — Taylor suspirou — "E morreu de que?"
"Ele já estava doente." — Nick deu de ombros.
"Puxa..." — Abigail suspirou, observando Nick.
"Na verdade, o sonho dele era que eu entrasse pra essa escola, por isso eu vim." — Nick mentiu, rolando os olhos. Era a primeira vez que mentia daquele jeito em voz alta.
"Vai ser difícil." — falou Abigail — "Nessa escola é tudo complicado. Não pense que vai ser tão fácil entrar."
"Mas... Eu posso falsificar a assinatura da minha mãe..."
"Como vai falsificar a assinatura da sua mãe, garoto? Te expulsam! Não, aqui é tudo cheio de regras!" — ela bufou — "O que eu quero dizer é o seguinte, precisa de alguém que se responsabilize por você. Que fale por você, que o defenda, entendeu?"
"Mas esse é o sonho da minha vida inteira. É quase meu projeto de vida, entrar pra essa escola..." — Nick imaginava se não estaria exagerando demais.
"Você vai entrar, eu tenho certeza." — Taylor sorriu, encorajando-o.
"Não, você vai entrar, eu tenho certeza."

Centro Médico Chapon Hill
Nova York

"Venha, filho." — a mãe de Joe puxou o garoto pelas mãos enquanto terminava de colocar suas roupas normais. Joe estava com a cara mais abatida de todas. Não dormia direito havia dias e sua cabeça ainda doía com o curativo acima da sobrancelha.
"Eu estou bem, mãe." — Joe falou baixo, ainda sentindo dores.
"Vejo que se recuperou perfeitamente, Joe." — o diretor Ethan entrou pela porta do quarto, o que causou ainda mais dores de cabeça em Joe.
"Senhor diretor, me desculpe." — falou Joe — "Eu sei que vacilei. Acho que dessa vez a situação é um pouco delicada, não é?"
"É..." — Ethan deu de ombros.
"Mas não está pensando em me expulsar, não é?"
"Bom, eu devia, Joe, mas falei com o seu pai e considerando que todos os seus irmãos passaram pelo nosso colégio, vamos considerá-lo como um caso especial." — Ethan sorriu e Joe o olhou confuso — "E tem mais, eu falei com o juíz e não precisará ser processado. Isso não significa que não terá uma punição."
"Ah, muito obrigada!" — falou a mãe de Joe, sorrindo como sempre — "Que consideração. Agradeça a ele, Joezinho." — deu uma cutucada em Joe.
"Obrigado. Qual é a punição?"
"Está aqui, especificado." — Ethan tirou do bolso do terno alguns papeis — "E você vai realizar trabalhos voluntários. E não se preocupe, vai ser na cidade, perto do nosso clube de férias. Mas fique sabendo que vai ter um inspetor vigiando você."
"É por isso que eu adoro a sua escola!" — a mulher riu, pegando no braço de Ethan e o encaminhando para fora do quarto.
"Senhora, por favor..." — Ethan ria nervoso.
"É tão encantador..."
"Nós temos prazer em poder ajudá-lo." — sorriu.

Área da piscina
Academia Yancy
Nova York

"Oi, gatinha!" — gritou Logan ao ver uma loirinha baixa andando em sua frente. A garota o olhou, parecendo confusa — "E aí, posso te ajudar em alguma coisa? Eu já vi que você é nova aqui, e sei lá... Logan Lerman." — estendeu a mão.
"Eu sou Madison Taylor." — fez um toque de mãos com Logan, e o garoto a olhou cético. Só agora havia percebido algo 'macho' na garota.
"Hmm, Madison Taylor..." — ele analisou-a — "É que... Combina com seus olhos." — Madison riu — "Então, você é bolsista aqui? Veio fazer a prova?"
"Não, pra mim não disseram nada."
 Em algum canto da piscina, no meio da confusão entre os jogadores que praticavam volleyboll na água, a bola escapou dentre as mãos de alguma pessoa, fazendo a bola correr pelo teto e bater em Madison, na parte de seus seios. A garota soltou um gemido de dor e as pessoas na piscina a olharam preocupados. Não com ela, claro, mas se ela devolveria a bola numa boa.
 Madison os olhou com raiva. Logan apenas revirou os olhos, se fazendo de desentendido, como se não estivesse presente naquele momento. Madison pegou a bola do chão.
 — Quem foi o idiota? — A garota gritou, olhando para as pessoas na piscina.
 Ninguém soltou um pio. Ela bufou e em menos de 1 segundo, jogou a bola pra cima, chutando-a em seguida, com uma força extraordinária. O queixo de Logan caiu. Ele e todos acompanharam enquanto a bola voava pela quadra, por cima da piscina. E todos olharam com medo até ver que a bola ia em direção a um homem descendo as escadas, há uma distância significante da quadra. Não deu outra, a bola bateu em seu braço, dando um estalo.
 — O que aconteceu, Daniel? — Gritou o homem, massageando seu braço onde fora atingido, saindo em seguida batendo os pés.
 Daniel Anderson era o professor de educação física, presente na quadra naquele momento, e não soube o que dizer naquele momento. Não podia dizer nada, ainda olhava perplexo para Madison, assim como os outros.
 — Nada mal. — Logan comentou após as pessoas terem "acordado" e voltado para suas atividades. — Eu aposto que você quer ajuda com a sua mala, não é? O que é isso aqui? Seu tapete de alongamento? — Ele riu, enquanto pegava a mala de Madison.
 Os braços de Logan queimaram. Pareciam haver pedras na mala da garota. Logan soltou um gemido gutural enquanto tentava levantar a mala, e Madison apenas soltou um sorriso.
 — Vamos lá? — Ela riu e começou a caminhar para dentro da escola, sendo seguida pelo andar devagar de Logan.

Dormitório das meninas / Selena's Room
Academia Yancy
Nova York

 — Eu não voltei só por você, Selena, eu voltei também porque eu não suportava mais a minha mãe e o imbecil do meu irmão. — Ava bufou enquanto Selena passava pó em seu rosto. — Só porque o meu pai saiu de casa, ele se acha o dono de tudo.
 — Soube mais alguma coisa dele?
 — Não. Ele se divorciou da minha mãe, se divorciou de todos.
 — Vocês já viram os alunos novos? — Perguntou Isabella enquanto descia as escadas do dormitório gigante.
 — São uns idiotas... — Murmurou Ava.
 — Tadinhos, pareciam que estavam entrando no matadouro. — Isabella riu.
 — Você já está prontinha. — Selena disse á Ava enquanto guardava um pouco de suas maquiagens. Ava agradeceu murmurando um "obrigada". — Olha, eu nem tive vontade de sair do meu quarto. Já basta ter visto aquela menina... — Selena descia as escadas, indo ao encontro de Isabella. — Sabe o que eu descobri? Que ela é filha de uma artista...
 — Gente, eu vi ela em uma revista, eu achei ela bem bonita. — Ava se levantou do espelho, indo ao encontro das amigas.
 Selena bufou.
 — Ava, acorda! Por favor, nas revistas eles retocam as fotos no computador. — ela se jogou em sua cama — Você precisa vê-la pessoalmente, não é? Conta pra ela, Isabella!
 — Então me contem, eu quero saber. — Ava se sentou em sua cama, e Isabella soltou uma risada.
 — Parece uma árvore de natal com as luzes piscando, é horrível. — Selena contou, fazendo as três rirem. Ava murmurava palavras como "Ah não, não acredito..."
 — E a filha? — perguntou Ava.
 — A filha? Não, a filha é a pior de todas! É a mais idiota que eu já vi na minha vida! — Selena gesticulava com os braços.
 — Espera, me conta aí. — pediu Ava.
 — Não, espera, ela tem um cabelo loiro com umas mexas verdes...
 — Azuis! — corrigiu Isabella.
 — São azuis também? — Selena riu. — São azuis, roxas, sei lá...
 Naquele momento, a porta se abriu bruscamente. Demi chutou suas malas para dentro do quarto, fazendo um silêncio reinar naquele momento. A garota entrou a passos largos, não se importando com as meninas ali.
 — É exatamente desse jeito. — Selena resmungou — Escuta, menina, acho que você se enganou, porque a saída fica por aquele lado. — apontou para um lado distante do quarto.
 — Ah, não me diga! — Demi sorriu irônicamente. — Então me desculpe, pois eu vim pra ficar aqui, bonequinha. — Mexeu nos cabelos de Selena.
 — Mas você me disse que não ia ficar...
 — Pois é, mas eu mudei de ideia. — Demi pulou de joelhos na cama de Selena — Porque eu gostei muito da escola e então... Eu vou ficar aqui. — Sorriu.
 Selena a olhou com nojo e desprezo, e também um pouco de preocupação. Não sabia porque, mas já sentia que Demi iria ser um problema pra ela.
 — Essa escola não tem nada a ver com você! — Isabella disse, se levantando.
 Demi a olhou com graça, dando um enorme sorriso de deboche.
 — É mesmo? — Ela se levantou, ficando em pé na cama de Selena. — Poxa, mas que inteligente você é.
 — Não na minha cama! — Selena gritou ao ver Demi em pé.
 — Deixa eu te perguntar, além de falar, você também sabe fazer piruetas? Como todos as baleias? — Demi falou para Isabella, ignorando a existência de Selena completamente.
 Ava levou a mão á boca, chocada com o comentário de Demi. Selena baixou os olhos, seu peito pareceu se apertar. Isabella a encarou, sua garganta se fechando, como se não houvesse o que dizer naquele momento.
 Isabella era a típica pessoa que estava acima do peso. Isso seria normal, se ela não fosse uma das meninas mais populares da escola. Se sentia completamente fora do mundo comum pelo motivo de não estar no patamar do "corpo perfeito", e se tinha alguma coisa que a machucava era caçoar disso.

Salão principal
Academia Yancy
Nova York

 — Os que entregaram a solicitação podem passar para a sala para fazerem a prova. Só os candidatos! — Anunciou Emma para a aglomeração de pais e filhos na Academia.
 Nick e Taylor se levantaram em um sobressalto, assim como um montante de alunos. Todos pareciam mais nervosos do que o comum, pareciam estarem se decidindo ali na hora se iam ou não. Dava pra ver o pânico nos olhos deles.
 Um a um, os candidatos iam até a mesa de Emma e colocavam a solicitação preenchida, como devia ser. Suas mãos tremiam, sem querer exagerar. Eles estavam mesmo nervosos. Taylor rapidamente entregou nas mãos de Emma e caminhou até a sala, parecendo suar frio.
 Nick se encaminhou para a mesa de Emma, colocou sua solicitação e já foi seguindo para a sala, quando:
 — Jonas! — chamou Emma, fazendo Nick se virar novamente — Você não.
 Nick a olhou confuso e ao mesmo tempo perplexo. Abigail e Miley pararam para ver ao longe, também confusas.
 — Não o que? — perguntou ele.
 — Você não pode fazer a prova. — ela deu de ombros.
 — Mas porque?
 — O diretor não falou com os seus pais. Eles vieram com você?
 A cabeça de Nick queimou. Seus pais? Não havia coisa pior para pedir a ele naquele momento. Estava fora de cogitação envolver seus pais naquilo. Ele respirou bem fundo.
 — Não. — respondeu.
 — Então você não vai poder fazer a prova, eu lamento. — Emma deu de ombros.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Depois da Chuva - 09

“Quando você chega à emergência de um hospital, uma das primeiras coisas que eles pedem é que você dê uma nota para a sua dor numa escala de um a dez. Me lembro de uma vez, logo no inicio, em que eu não estava conseguindo respirar e parecia que meu peito estava pegando fogo, as chamas lambendo meu tórax por dentro, tentando encontrar um jeito de sair e queimar o lado de fora, e meus pais me levaram para a emergência. Uma enfermeira perguntou sobre a dor e eu não conseguia nem falar, então mostrei nove dedos. Depois, quando já tinham me dado alguma coisa, a enfermeira voltou e ficou meio que acariciando minha mão enquanto media minha pressão arterial, então disse: Sabe como sei que você é guerreira? Você chamou um dez de nove.” — A culpa é das estrelas.

 "Pai, eu..." — Joe tentou começar, mas as palavras lhe faltavam. Ele estava com mais medo do que nunca esteve.
"Você faz de tudo pra me destruir." — disse Michael, com seu tom frio e arrogante de sempre — "O que a oposição não conseguiu fazer em anos, você quase conseguiu em um dia." — ele bufou, dando passos até Joe — "Me diga uma coisa, filho, qual é o seu plano? Quer me arrasar? Porque você não aprende com os seus irmãos mais velhos? Eles são mil vezes melhores do que você! Você não pensa na minha imagem pública, não é verdade? Não se importa se ficam falando do seu pai por aí, pelas ruas, em todos os lugares..."
"Pai, por favor, deixa eu falar..." — Joe balançou a cabeça.
"Não, eu não vim pra escutar você! Eu vim pra falar. Eu vim dizer que se você pensa que por ser meu filho vai poder fazer o que você quiser..." — Michael balançou a cabeça, parecendo indignado — "Filho, você está muito enganado. Dessa vez eu não pretendo salvar você. Você foi longe demais, podia ter matado todo mundo!" — Joe abaixou a cabeça, as palavras de seu pai pareciam ser marteladas no cérebro dele — "Você destruiu um carro..."
"Pai..."
"Você destruiu um carro, não é verdade?!"
"Eu vou pagar por tudo, pai, eu juro."
"Não." — Michael soltou uma risada irônica — "A minha confiança não tem preço."
"Nunca teve confiança em mim, não é? Tudo que vê em mim é ruim, pai."
"E tem alguma coisa boa?" — ele levantou as sobrancelhas e Joe sentiu os joelhos vacilarem. Ele não queria escutar mais nada — "Eu vim trazer isso." — Michael retirou uma folha de papel do paletó que usava.
"O que é isso?"
"É uma entimação." — ele estendeu a folha para Joe. O garoto arregalou os olhos.
"Quem fez a denúncia? As garotas?"
"Não... Eu fiz."
 Joe olhou para o pai, com uma expressão de choque e desamparo. Seu pai estava transformando aquela situação na mais infernal de todas. Seu coração pareceu apertar, e de repente ele se tocou de que não sabia do que seu pai era capaz.
"Você?!" — Joe arregalava os olhos chocado.
"A mídia me persegue. Eu tenho que dar alguma coisa." — ele deu de ombros, parecendo completamente satisfeito.
"Ah, claro." — Joe deu uma risada irônica — "Agora eu entendo. O político exemplar quer entregar a cabeça do filho. Maior sacrifício do que esse impossível, não é?"
"Não é assustador que tenha tanta inteligência. Você que não a use, filho." — deu um olhar duro para Joe e saiu, acendendo mais um de seus inseparáveis charutos.
"Pai, espera!" — Joe gritou, mas o pai já havia ido — "É, estou com um pouco de dor de cabeça. Obrigado por perguntar..." — falou a si mesmo.


Highland PS
Nova York

"48, 49, 50, 51..." — Selena arfava enquanto levantava mais um peso no meio do quarto. Não era a primeira vez que se sentia tão entediada a ponto de malhar ali, no quarto mesmo — "Selena!" — ela gritou a si mesma, largando os pesinhos e se olhando no enorme espelho que pegava do chão ao teto — "Selena, o que é isso? Que gordurinha é essa? Não pode ser! Droga! Porque tudo tem que acontecer comigo?!" — ela choramingou enquanto apertava sua barriga em frente ao espelho.
 Selena gemia de indignação ao procurar qualquer tipo de creme nos armários e rezou quantas vezes fosse preciso para que Deus a afastasse das celulites e estrias. A garota ainda se olhava no espelho quando algo escorreu por sua porta. Ela olhou, sem entender no início. Depois viu um pedaço de papel no meio do quarto.
"Quem é?" — gritou ela, mas não obteve resposta. Selena se aproximou e pegou a carta, que estava intitulada como 'Selena Gomez'. Ela rapidamente abriu a porta, mas não viu ninguém, corredor completamente vazio. Ela estranhou e fechou a porta novamente.
"Ah não, e se for um trote? Ou um vírus perigoso?" — ela murmurou, se sentando na cama — "Ou talvez não! Talvez é um menino que quer ficar comigo... E se for aquele gatinho da outra sala?" — ela riu — "Caramba, é muito difícil seu eu! Tenho que ler..." — Selena abriu a carta, com sorrisos involuntários — "Essa caça ao tesouro é pra você. No colégio tem uma coisa que te interessa. Pra encontrar a primeira pista vá ao corredor dos vestiários..."
 Selena parou de ler e não sabia o que fazer. Rapidamente, ela se levantou e saiu pela porta, seguindo para o corredor. Chegando lá, bem em cima dos vestiários, havia plaquinhas onde ela deveria ir. Ela estranhava, pois a escola estava completamente vazia, mas seguia em frente. Depois de ter rodado praticamente a escola toda, ela chegou ao ginásio, que estava completamente escuro e assustador. Selena começou a sentir um medo, pois não via ninguém. E, sem mais nem menos, a garota tropeçou em seus próprio pés e algo caiu em cima dela.
"O QUE É ISSO?!" — Selena berrou ao ver que uma rede caíra em cima da mesma — "QUEM ESTÁ AÍ? EI, QUEM ESTÁ AÍ? ME AJUDA, JÁ CHEGA DISSO!"
 Selena começava a ficar com medo, e não sabia o que fazer. De um canto do ginásio, ela ouviu passos, e de repente duas pessoas apareciam naquele escuro como breu. De repente ela passou do medo para sentir alívio. As duas pessoas eram Isabella e Ava, suas amigas, que viam rindo.
"Calma, amiga!" — disse Ava, rindo, enquanto ela e Isabella tiravam a rede de Selena.
"Suas bobas! Vocês me assustaram!" — Selena estava rindo, estava feliz — "Vem cá, o que estão fazendo aqui? Não estavam de férias?"
"Nós estávamos, mas eu disse pra minha mãe que preferia voltar pro colégio." — Ava deu de ombros.
"Ah, amiga!" — Selena a deu um abraço rápido.
"E é claro que eu inventei pra minha mãe que tinha que estudar algumas matérias." — Isabella sorriu.
"Por isso que eu adoro vocês, porque são as melhores amigas desse mundo! Obrigada por não me deixarem sozinha."
"Como a gente ia te deixar sozinha?" — Isabella riu.
"Não, a gente prefere sofrer com você num martírio." — Ava sorriu.

Queens
Nova York

"É aqui." — Abigail apontou para o logotipo do Highland na figura na parede, avisando que ali era o ponto onde o ônibus do internato passaria — "Essa é a escola, Taylor, eu..."
 Abigail foi interrompida por um ser que esbarrou nela enquanto se virava para Taylor. Instantaneamente, ela o bateu com a bolsa que segurava, fazendo o garoto se assustar.
"Qual é o problema, senhora?" — Nick gritou, afagando seu braço.
"Como assim qual é o problema? Você me deu o maior susto!" — Abigail bufou.
"Eu só vim esperar o micro ônibus do Highland Private School, sei lá..." — ele suspirou.
"Oh, me desculpe, eu não sabia que você também era aluno daqui, mas... É que de repente aparece qualquer um que a gente não sabe se vai cumprimentar ou roubar." — ela deu de ombros. Nick deu um sorrisinho fraco.
"Sou Nick Jonas." — ele estendeu a mão para elas.
"Sou Abigail." — apertou a mão de Nick.
"Eu sou Taylor." — a garota lançou um olhar doce para Nick, que se encantou na mesma hora.
"Pra ser sincera, é muito chato, é que essa cidade você não sabe de onde você é, o que você faz, as coisas são bem difíceis..." — Abigail remexia em sua bolsa enquanto falava.
"Sou da Flórida, mas meus pais moraram aqui há muito tempo." — disse Nick.
"Que legal! Nós somos da Califórnia, mas foi fácil chegar até aqui." — Taylor sorriu, fazendo Nick sorrir junto.
"Ah, então vocês já estão acostumadas com a correria dessa cidade..."
"Não, ainda não acostumamos, falta muito." — Abigail riu — "E como você chegou aqui? Da onde você veio?"
"Na verdade, eu estou muito cansado."
"E de que você veio?"
"De ônibus." — Nick deu um sorriso de lado.
"Nossa, tantas horas de ônibus!"
"12."
"Nossa senhora, que isso, deve estar cansadíssimo. Você já comeu?"
"Hm... Não."
"Toma aqui, eu trouxe uns sanduíches de casa, vai servir pra você."
"Ok." — Nick sorriu.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Depois da Chuva - 08

“Às vezes temos pensamentos que nem mesmo a gente entende. Pensamentos que nem são tão verdadeiros – que não são realmente como nos sentimos –, mas que ficam rondando nossa cabeça porque são interessantes de pensar.” — Os 13 porquês.

   Em Dallas, Texas, o salão "Make Boutique" estava vazio naquela tarde. Não era um local que chamava muito a atenção das pessoas que passavam, com as portas foscas de vidro preto e os dizeres em cima com o cartaz já gasto.
 Lá dentro, pelo contrário, as conversas estavam animadas. Taylor estava sentada em uma das cadeiras alcochoadas de frente ao enorme espelho espaçoso, enquanto sua tia, uma mulher de meia-idade com os cabelos loiros pintados com mechas de várias cores, penteava cuidadosamente o cabelo da garota.
 Taylor era alta, magra e curvilínea. Tinha cabelos loiros chamativos de parar o trânsito e olhos azul-turquesa, que era de causar inveja. A garota era uma gata, se não fosse tão tímida e inocente, e não tivesse tanto medo de encarar o mundo afora.
 Sua tia falava animada, enquanto ajeitava os cabelos de Taylor, fazendo seus cachos se sobressaírem no rosto emoldurado.
 — Ah, quando você conhecer o colégio, não vai acreditar. — ela sorriu para a imagem de Taylor no espelho, um sorriso confiante — Parece até que é um hotel de 5 estrelas. Os quartos são como suítes presidenciais, lindos.
 — Tia, e se não me aceitarem? — Taylor disse, quase em um fio de voz — O que eu vou fazer? O que vai acontecer se eu não conseguir entra pra esse colégio?
 — Mas porque, filha? — a mulher colocou a escova que penteava os cabelos de Taylor de lado — Porque não vão aceitá-la e não vai entrar pro colégio? Diz.
 — Não, é que eu morro de medo de não passar nessa prova. — ela virou a cadeira para ficar de frente para a tia. Suas mãos estavam quase tremendo, só de pensar na possibilidade de não entrar na Academia Yancy.
 A loira abriu um sorriso sem mostrar os dentes. Ela entendia o sofrimento agudo de Taylor naquele momento.
 — Você será aprovada. — falou ela.
 — Depois de tudo que ficou gastando com meus professores particulares pra que eu pudesse entrar... Mas eu prometo, eu prometo, que eu vou pagar por tudo que você já fez por mim.
 — Esqueça essa ideia de pagar! — a mulher olhou torto para Taylor — Porque se disser de novo, eu queimo seu cabelo, faço um permanente, vou deixar tudo verde, o que você acha disso? — ela ergueu uma sobrancelha.
 Taylor se levantou, segurando uma risada.
 — Então você vai me maltratar?
 — Vou sim, vou deixar você careca, o que você acha?
 — Que má! — as duas riram e se abraçaram no instante seguinte.
 — Obrigada por tudo, tia.
 — Você não tem o que agradecer, filha. E lembre-se: se não gostar de alguma coisa, ous e alguém mexer com você, se aqueles ricos exibidos quiserem te maltratar, não esqueça de me ligar, Taylor, já vou avisando!
 — Espera, se lá eu vou ter que estudar com adolescentes exibidos, porque eu to indo?
 — Ah, Taylor, não reclame! Você tem que crescer. Olha, o preço nós temos que pagar, temos que pagar pra ser alguém. Você tem que sair desse bairro, dessa cidade, minha querida. Você é muito mais do que isso tudo. — ela olhou com ternura para Taylor.
 Um conforto repentino tomou conta de Taylor. Ela abraçou a tia, querendo cada vez mais aquele abraço, mesmo quando fosse embora. Não se dera conta do quanto sentiria saudades, de todos os conselhos e broncas, e também de todas as brincadeiras. Pensava que nada mais iria fazer sentido sem ela ao lado, mas entendia que precisava ir. Tinha a consciência de que a vida começaria a andar, a sair um pouco dos trilhos, mas por uma coisa boa.
 As duas foram interrompidas por uma mulher entrando no salão vazio.
 — Taylor! — chamou ela, com uma voz severa.
 As duas se desfizeram do abraço. A loira com mechas coloridas encarou mortalmente a mulher de cabelos castanhos e maçãs do rosto muito vermelhas que acabara de entrar.
 — Você vai lá em casa se despedir da sua irmã ou vai embora direto daqui?
 — Não, é claro que eu vou me despedir da Emily, mãe. Aliás, sem a sua permissão eu não vou a nenhum lugar.
 As palavras de Taylor foram duras e ela se retirou, deixando as duas mulheres se encarando.
 — O que está olhando? — perguntou a loira de mechas, olhando com certo desprezo para a mulher a sua frente — Gostou da minha cor de cabelo? Gostou? Posso pintar o seu de graça.
 A mulher bufou, dentro de si não suportava esse jeito irritante e prepotente.
 — Agora que conseguiu separar a minha filha de mim, deve estar contente, não é, Abigail?
 Abigail sorriu.
 — Se quiser que eu diga a verdade... Sim. — ela deu de ombros.
 — O que ganha tirando a minha filha de casa? — ela cerrou os dentes — Anda, diga!
 — Eu não ganho nada. Vou sentir muito mais saudades do que você. Mas sabe quem vai ganhar? Isso mesmo, a Taylor.
 — Você sabe perfeitamente que eu preciso dela. — a mãe de Taylor balançou a cabeça — Porque encheu a cabeça dela de merda, por que?!
 — Porque até disso ela tem direito! Tem o direito de ter a cabeça cheia de merda, ela tem o direito de ter uma história diferente, porque a história não vai se repetir, tem que ser diferente de nós duas!
 — Ah claro! — a mulher deu uma gargalhada que ressondou por todo o recinto — Desde que não levem ela pra onde levaram você, não é? Tomara que a minha filha não seja uma prostitua como a tia dela foi. — ela disse com repugnância.
 Abigail lançou um olhar frio para a irmã, cheio de mágoa e rancor.
 — Não, ela não vai ser prostituta, eu tenho certeza. Mas quer saber? Ela também não vai ser a enfermeira da irmã dela a vida toda.
 — Você sabe perfeitamente que ela ama a irmã dela!
 — Mas é claro que ela ama, a menina gosta dela, mas você é a mãe dela! Taylor não é a mãe de Emily, e tem que ficar cuidando dela, entenda que a mãe é você, entenda! — ela gritou.


☀

 — Oi. — Taylor disse ao encontrar a irmã pequena tentando subir as escadas.
 — Ainda faltam alguns degraus. — Emily apontou pra cima enquanto Taylor a segurava pela cintura e a sentava ao seu lado na escada de madeira, com um pequeno caderno surrado nas mãos.
 — Olha, vem aqui. — Taylor suspirou — Aqui, nesse livrinho, eu vou escrever tudo que acontece comigo. Pra quando eu vim ver você, eu vou contar tudo como se estivesse lendo uma historinha, tudo bem?
 Emily balançou a cabeça, concordando com tudo que Taylor dizia. As palavras pipocavam um pouco em sua cabeça quando Taylor falava, por causa da síndrome de Down, mas entendia perfeitamente. Só não entendia o quanto estava sendo difícil para Taylor partir, o quanto estava sendo doloroso ter de deixá-la ali, aos cuidados da mãe, que mal cuidava de si própria, quanto mais ter de ficar vigiando Emily 24 horas por dia. Isso era trabalho de Taylor, por mais que ela tivesse de se "libertar" disso agora. Precisava viver a vida.
 Emily baixou a cabeça. De repente pegou na mão de Taylor, que estava sobre o colo, e a apertou, como se não fossem mãos reais. Emily se lançou para Taylor em um abraço desengonçado.
 — Porque? — ela perguntou, com os olhos no horizonte — Porque, Taylor?
 Parecia que naquele momento Emily havia entendido que Taylor não estaria mais ali. Talvez não tivesse entendido perfeitamente, mas havia compreendido que iria ficar sem ela. Taylor agarrou as mãozinhas que a cercavam e lutou para que não chorasse. Não queria chorar, não iria chorar.
 — Eu também vou sentir muito a sua falta. — Taylor olhou nos olhos azuis de Emily, afastando alguns fios louros de seu rosto — Mas você e eu sempre vamos estar juntas. — ela deu um beijo no rosto de Emily, enquanto a menina brincava com alguns cachos soltos do coque de Taylor — A minha tia me prometeu que vai vim aqui te pentear todos os dias. E vai te deixar mais bonita do que se eu estivesse com você. E ela vai pintar suas unhas também.
 — É? — os olhos de Emily brilharam — As unhas?
 — Sim, as unhas. — as duas riram.
 Taylor puxou Emily com cuidado pela escada acima, em direção ao pequeno quarto das duas. Emily pulou na cama enquanto Taylor pegava uma caixa de papelão de cima do armário de madeira e se postou na frente da irmã.
 — Agora você vai ser a responsável por todos os nossos brinquedos, ok? Você promete? — Taylor abriu a caixa enquanto Emily concordava com a cabeça.
 De repente um nó se formou na garganta de Taylor. Emily pegou cada coisa de dentro da caixa. Um dominó, uma boneca de pano, alguns cds... Ela não prestava mais atenção em nada enquanto mexia nas coisas com tanto cuidado. Taylor respirou fundo, como se toda a água de seu corpo estivesse na porta dos olhos, prontas para sair em lágrimas.
 — Eu não quero te deixar. — ela disse, e percebeu como sua voz saiu rouca — Mas eu tenho que ir.
 — Porque? — perguntou Emily, com seus olhos no urso de pelúcia entre suas perninhas.
 — Porque... Porque eu quero ser uma grande médica pra cuidar de todas as crianças como você. — ela alisou os cabelos de Emily. Depois, em cima da mesinha de cabeceira, ela pegou um retrato onde havia uma foto dela e de Emily — Olha, eu tenho essa foto de nós duas. Eu vou ficar com uma foto igualzinha essa pra sempre me lembrar de você. E você também.
 Emily olhava o retrato com cautela, como se tentasse reconhecer as pessoas da foto. Depois, em súbito, ela gritou, apontando para o retrato "Sou eu! Sou eu! E você!", e apontava para Taylor, abrindo um enorme sorriso. Beijou o retrato com carinho, abraçando-o logo em seguida. Taylor limpou a lágrima que caiu, rindo de como Emily ficava ao ver fotografias.
 — Eu prometo que quando eu acabar a escola, eu nunca mais vou deixar você sozinha. Nunca mais. Eu vou voltar pra ficar com você, eu prometo.
 Taylor agora chorava. Não era uma coisa muito habitual de se fazer na frente de Emily, mas era algo que não conseguia mais segurar. Estava indo embora. Deixando pessoas que amava e que precisavam dela. Principalmente Emily.
☀

  — Me disseram que você estava bem, mas não tão bem! — falou Jacob.
 Depois de Joe ter dispensado todas as visitas recebidas, inclusive a de sua mãe, ele nunca dispensaria uma visita de Jacob, que ele estava surpreso por estar ali. Jacob não havia sido prejudicado pelo acidente. Via-se um pequeno corte em sua testa, perto da sobrancelha, que já começava desaparecer. O garoto vestia jeans, uma camiseta estampada marrom com vans. Era muito bonito, mas nada se comparava a Joe.
 Joe riu e se levantou da maca, ainda com as roupas brancas do hospital e com um curativo na testa, onde havia levado uma baita pancada.
 — Eu estou bem. — disse ele — Quase nenhum arranhão. O que acha?
 — Acho muito foda. — Jacob deu de ombros.
 — E aí, e o carro?
 — Ah, cara, o seguro vai pagar.
 — O que sua mãe disse?
 — Cara, minha mãe nem veio me ver. — Jacob deu uma risada fraca — Ela só falou comigo no telefone, e o meu pai disse que eu era um homem muito idiota. E minha mãe disse que, graças a mim, eles tinham perdido o carro.
 — Bom, mas se eles não voltaram das férias é porque ta tudo bem. — Joe deu de ombros, como se aquilo fosse o menor dos problemas.
 — Não, está tudo mal! Eu vou pagar com a minha mesada por um ano.
 — Ah, que isso, Jacob, eu estou aqui pra te ajudar. — Joe deu um soco no ombro de Jacob — E então, o que vai fazer?
 — Ah, eu não sei. — ele suspirou — E então, como está o seu pai? Você não falou com ele?
 O sorriso de Joe sumiu por completo.
 — Não. — respondeu ele — Mas garanto que vai me dar a maior bronca.
 — E você está assustado.
 — Pior que sim. — Joe sussurrou.
 — Ah, Joe, sei lá, vai que ele também não paga sua mesada por um ano, vai saber.
 Joe bufou.
 — Não, escuta, essa ele não me perdoa.
 — Tudo bem, de repente ele não quer ver você por 10 anos, e quando ele voltar vai estar velhinho demais pra se lembrar de todas as merdas que nós fizemos. — Jacob deu de ombros.
 Joe riu. Não se aguentou.
 — Que bom que você veio. — Joe passou os braços pelos ombros de Jacob.
 — Você sabe que mora no meu coração.
 — Eu já estava cansado de fingir que estava dormindo pra não falar com a minha mãe...
 Os dois deram risinhos até ouvirem passos no corredor. Ao se virarem, Michael e os seguranças o olhavam feio.
 — Oi, pai. — Joe sussurrou, um medo crescendo em seu peito.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Depois da Chuva - 07

“Tem coisa que dá vontade de viver de novo. E de novo. E de novo.” — Clarice Lispector.

   No gabinete do diretor Ethan, o clima estava bem tenso. Ambos os dois, Ethan e Sophia, pareciam muito desconfortáveis depois de terem um tipo de "reencontro" depois de mais de 10 anos. Sophia parecia nervosa e apertava o forro da cadeira tão forte que seus dedos quase ficavam brancos. E o coração de Ethan não desacelerava, não importa no que ele pensasse.
 Apesar disso tudo, eles decidiram ter uma conversa completamente profissional.
 — Minha filha Demi é hiperativa. — começou Sophia — É um verdadeiro tanque de guerra.
 — Eu vou adorar conhecê-la. — Ethan sorriu, e sorriu de verdade. Ainda não lhe caíra a ficha de que estava vendo Sophia novamente.
 — O único problema é que quando ela mete uma coisa na cabeça, não desiste enquanto não consegue. — ela bufou, se lembrando das inúmeras vezes que Demi fazia aquilo — E está decidida a não ficar nessa escola.
 — Não se preocupe. — ele deu de ombros, ainda sorrindo. Algo dentro dele simplesmente gritava, berrava, ele não conseguia parar de sorrir — Nós vamos ajudá-la a se adaptar. É meu trabalho. Ainda mais nesse caso...
 Ele pareceu olhar para Sophia de cima a baixo, apesar da mulher estar sentada. Mais uma vez, ela se sentiu desconfortável e recomeçou a apertar a cadeira. "Obrigada", falou ela.
 — Quer mais café? — perguntou ele, se levantando e pegando a xícara da mão de Sophia.
 — Eu agradeço, mas não, obrigada. — ela suspirou enquanto via Ethan se virar de costas e postando a xícara em sua mesa.
 Ela se levantou, ainda balançando as mãos, em sinal de nervosismo.
 — A Demi não é má. — ela disse quase em um sussurro — Digamos que seja um pouco intensa. Me entende?
 Ethan riu, voltando a pregar os olhos nos de Sophia.
 — Eu entendo perfeitamente. — ele suspirou — O que você me contou me fez lembrar de uma linda adolescente que conheci uma vez... Uma menina que era fogo puro. — ele falou baixo, e simplesmente começou a se aproximar de Sophia.
 Seu coração batia tão rápido que era impossível captar a que velocidade. Ela não recuou ao ver que Ethan se aproximava.
 — E, mesmo já sendo um homem... — ele sussurrou — Me apaixonei como um adolescente.
 Seus olhos estavam cravados, aquilo era evidente. De repente torrentes de lembranças antigas foram desenterradas com tal brutalidade que Sophia não pode aguentar. De repente ela sentiu, e sentia, tudo que sentiu a 10 anos atrás por Ethan: paixão e raiva.
 — Mas não se apaixonou o suficiente pra largar tudo e... Ir embora com ela. — ela falou em tom firme.
 Aquilo foi como um tapa no diretor. Ele abaixou a cabeça, bufando.
 — Ah... Eu não podia. — ele balançou a cabeça — Eu tinha uma carreira, uma família...
 Ele colocou as mãos nos bolsos da calça social, meio nervoso e com os dedos trêmulos, e caminhou até sua mesa novamente, colocando as mãos em um porta-retrato que tinha a foto de uma garota.
 — Sabia que eu tenho uma filha da idade da sua? — ele falou baixo.
 — É claro que eu sei. — ela revirou os olhos — Eu sumi quando descobri que a sua mulher estava grávida.
 Ethan fechou os olhos.
 — Você não me perdoa, não é?
 — Não. — ela balançou a cabeça, lutando contra uma mágoa antiga louca para sair — Eu não vim aqui criticar nem nada. Pra mim, você é só uma lembrança. Uma linda lembrança.
 — Eu nunca te esqueci. — ele suspira e encara Sophia, se sentando em sua cadeira de diretor — Acompanhei sua carreira pelas revistas... Procurei tudo que podia para saber sobre o pai da sua filha, mas... Nunca soube nada dele.
 Aquilo pareceu pegar Sophia de surpresa.
 — Não se preocupe. — ela ergueu uma sobrancelha — Demi não é sua filha. O pai dela é um homem que vive muito longe, e... A única coisa boa que me deu foi essa princesa. Mas agora quer me separar dela.
 — Como assim? — Ethan juntou as sobrancelhas — Porque?
 — Ele disse que eu não sou boa mãe. — Sophia abaixa a cabeça, baixando o tom de voz — E se Demi não ficar neste colégio, ele vai levá-la com ele para a Europa. Tem que me ajudar que ela fique aqui, por favor! — ela implorava em seu tom de voz, olhando para Ethan com certo desespero.
 — Fique tranquila. — ele pareceu desconcertado, mas com compaixão nos olhos.
 Ethan se levantou e foi até Sophia.
 — Porque ela não vai poder ficar? — ele pegou nas mãos dela.

 — Já disse que você não pode entrar! — Emma estava parada á frente da porta do gabinete do diretor, parecendo proteger o lugar. Demi estava á sua frente, batendo os pés de raiva — Ninguém pode entrar na sala do diretor sem ser anunciado.
 Demi bufou.
 — Deixa que eu me anuncio, muito obrigada, não tenho a vida toda pra esperar!
 Demi avançou para a porta e simplesmente empurrou Emma dali, como se ela fosse uma criança de 12 anos. Emma gritou e tentou agarrar o braço da garota, mas ela já estava dentro da sala do diretor.
 Demi olhou de Ethan para sua mãe dentro da sala. Pareceu nem reparar que Ethan ainda segurava a mão de Sophia.
 De repente, ela riu.
 — Nossa, a julgar pela aparência do diretor, eu acho que ele tem menos tempo do que eu, não é mesmo? — ela deu uma risada irônica — O senhor já não devia estar aposentado?
 — Demi, por favor, filha! — Sophia rangeu os dentes — Ela é minha filha, senhor diretor. — ela deu um sorriso sem graça — Por favor, cumprimente-o, Demi.
 — Oi, como vai? — Demi sorriu e apertou as mãos de Ethan.
 — Esse senhor é o diretor do colégio. — Emma falou perto de Demi, como se fosse para lembrá-la de que ela não estava falando com um simples homem.
 — Ah, eu tenho um cigarro! Você fuma? — Demi tirou um pacote de cigarros do bolso e estendeu para o diretor, que a olhou pasmo.

����☀

 Selena se debruçava em sua cama várias vezes, procurando uma posição que lhe parecesse correta e confortável. Não conseguia se estabilizar, sabendo que não sairia daquele lugar. Tentava se distrair com tudo que lhe aparecesse, mas parecia impossível.
 Sua atenção foi tirada das unhas recém-feitas por Emma entrando no quarto, estendendo o telefone.
 — Abri a exceção de vir até aqui só porque é o seu pai, e ele está ligando de Albuquerque, ele disse que você não atende o celular. — disse Emma, lançando um olhar para o celular jogado de Selena em cima da cama.
 Selena lançou um olhar de surpresa para o celular.
 — Ah, olha, ele está desligado. — ela riu, dando de ombros — Eu nem tinha percebido. Mas diz pra ele que eu vou ligar agora mesmo.
 Emma a olhou desconfiada.
 — Atende agora, vai. — ela estendeu mais uma vez o telefone.
 Selena olhou de Emma para o telefone. "Tudo bem", ela murmurou, pegando o telefone. Emma coçou o nariz e se virou para ver o quarto. Nesse momento, Selena não perdeu a oportunidade e apertou no botãozinho para desligar o telefone, tão rápido que Emma nunca teria visto.
 — Alô? — Selena colocou o objeto na orelha, sorrindo — Pai? Como você está, paizinho? ... Puxa, eu estou tão feliz, é sério, não vejo a hora de passar as férias no Vacance Club... É, eu juro. — Selena se levantou, caminhando até as escadas — É sério, não é como as ilhas do Caribe, mas eu vou. Todo mundo que eu gosto está no colégio... Claro, pai. Se divirta bastante e não exagere com o trabalho. Tudo bem. Te amo, pai! — ela mandou beijos pelo telefone — Tchau.
 Emma olhava Selena como se fosse maluca. Todos sabiam que Selena deveria estar odiando o pai agora, por causa de tudo que havia acontecido.
 — Pronto. — ela lhe entregou o telefone, sorrindo.
 — Tudo bem? — perguntou Emma pausadamente.
 — Tudo perfeito. — Selena deu um enorme sorriso — Quando nós vamos pro Vacance Club?
 — Quando os bolsistas terminarem de fazer a prova.
 — Que maravilha! — ela falou rapidamente, terminando de subir as escadas — Estou muito feliz por ir ao Vacance Club!
 Emma achou melhor deixar Selena sozinha com sua loucura e bipolaridade e bateu a porta ao sair.
 Selena encarou a porta, dando um urro de raiva. Ela feliz por ir ao Vacance Club? Nem aqui e nem em outra vida.

����☀

 Joe fora mandado imediatamente para um hospital localizado no Queens. O melhor hospital, é claro. O deputado Michael estava posto ao lado do médico, com a sua esposa passando o braço por um dos seus.
 — Doutor, com relação aos jovens que estavam no carro, diga aos familiares deles que eu vou arcar com todas as despesas. — disse Michael — Mas eu quero que mantenham discrição sobre tudo, é lógico.
 — Creio que não haverá nenhum problema, senhor. — falou o doutor, enquanto anotava algo em sua prancheta.
 Michael lançou um olhar de esguelha para sua esposa.
 — Ainda bem. — ele sorriu um pouco. Talvez o máximo que conseguia — Isso é o mais importante.
 — Achei que o mais importante fosse a saúde do seu filho. — o doutor levantou os olhos para lançar um olhar de surpresa — Não querem vê-lo?
 Michael se segurou para não demonstrar desânimo ao ouvir falar em Joe. Sua esposa acariciava seus ombros e seus cabelos ralos, sabendo imediatamente da resposta de Michael.
 — Ér... Não, não. — ele balançou a cabeça — Prefiro esperá-lo aqui. Vai você, meu amor.
 A mulher ao seu lado sorriu e se virou para o doutor.
 — Onde é o quarto dele?
 — Por aqui, senhora, me acompanhe. — ele apontou para um corredor largo e os dois seguiram juntos.

����☀

  Parecia que tinham se passado horas desde que o diretor havia saído da sala pra se decidir sobre Demi. Dava pra ouvir as batidas do coração de Sophia naquele momento. Demi ria e brincava com os troféis espalhados por um armário no canto da sala. Ela havia se sentado na grande cadeira do diretor com dois deles.
 — Já chega de brincar, Demi, parece uma criança! — Sophia pegou os troféis da mão de Demi, começando a se irritar.
 — Eu estou cansada! — Demi bufou — Que horas o diretor pretende vir?
 — Eu me pergunto exatamente a mesma coisa! Provavelmente, ele já está com a decisão tomada, mas deve ter medo de me dizer que não aceita você nessa escola.
 Demi deu de ombros, como se aquilo fosse a coisa mais insignificante do mundo.
 — Poxa, mas se a escola não me aceita, a culpa não é nossa.
 — Ah, claro! Depois do show que você fez! Porque teve que pegar o cigarro? Você nem fuma, Demi!
 — Ué, sempre tem uma primeira vez, mãe. — ela deu de ombros mais uma vez, revirando os olhos.
 Sophia encarou Demi e se sentou em seguida.
 — Tanto faz. — ela suspirou — Agora as cartas já foram dadas. E eu não tenho mais nenhum trunfo na manga.
 — Ai, para de dramatizar, mãe! — ela subiu na mesa de vidro do diretor e se sentou em borboleta — Olha só, quando o velho descobrir que não me aceitaram nessa escolinha, vai parar de choramingar. A única coisa que ele quer é mostrar que tem poder, é só.
 — Dessa vez não é assim, Demi. Se não aceitarem você aqui, Noah vai reclamar a sua guarda e vão dar pra ele, e vão te separar de mim. — Sophia acariciou o rosto de Demi — Será que você não entendeu, filha?
 Demi olhou dura para a mãe. Pela primeira vez, parecia assimilar algo mais sério do que a si própria. Parecia ver e absorver a importância de tudo aquilo para a mãe.
 — Isso não importa. — ela murmurou — Olha, eu vou deixá-lo louco. Ele não vai me aguentar nem por 3 dias, e vai me devolver. Pronto, mãe.
 — Quem dera se as coisas fossem tão fáceis. — Sophia sussurrou — Não importa por quanto tempo for, ainda assim vai ser longo. Vou perder a sua guarda e não vou recuperar. Talvez isso possa ser bom pra você, não é? Conhecer outras pessoas, uma família... Uma coisa que comigo você nunca teve.
 — Eu não quero ter nenhuma outra família, mãe. — a voz de Demi saiu falha.
 — Agora é tarde, filha.
 Demi a olhou estarrecida. Tarde? Como assim tarde? As coisas seriam assim? Ela simplesmente deixaria sua mãe? E as duas seriam iguais aquelas outras famílias, que só se viam aos finais de semana ou nem isso?
 Não. Demi não conseguia aceitar isso. Ela e Sophia viviam aos berros uma com a outra quase sempre, e ás vezes era um alívio Demi estar sozinha sem a mãe, mas também nunca se imaginou sem ela. Parecia até absurdo pensar em uma coisa dessas.
 Os pensamentos de ambas foram interrompidos pela porta do gabinete sendo aberta. Ethan entrou abotoando o paletó enquanto Demi "acordava" e saía imediatamente de cima da mesa.
 — Bom... — disse ele ao chegar em sua mesa — Eu já tomei a minha decisão.
 — Olha, não importa qual tenha sido sua decisão, está bem? — Demi o encarou, ainda com a voz falha. E odiou que sua voz estivesse daquele jeito — Ainda assim eu quero pedir desculpas, como a minha mãe me ensinou. — ela olhou de esguelha para Sophia — E... Eu nem uso essas porcarias, sabe? Eu só queria escandalizar um pouco. — ela tirou o pacote de cigarros do bolso e os jogou na lixeira ao lado.
 Ethan pareceu desconcertado com a mudança de comportamento da garota.
 — E... Porque queria fazer uma coisa assim?
 — Porque eu não tinha percebido... — ela suspirou — Quanta vontade eu tenho de ficar nesse colégio.
 Ethan assentiu.
 — Não acredito em você, sabia? — ele deu um sorriso duro para Demi — Mas... Acredito que nós dois precisamos de uma oportunidade. Você de conhecer o colégio e o colégio de conhecer você. Bem vinda a Academia Yancy, Demi Lovato.